Paulo News
Capítulo 8
No Rastro do Card Captor
Paulo M. Goulart, ©2008

- Senhoras e Senhores... por favor queiram se sentar... – falou um homem com um terno de linho preto no palco, com o microfone em mãos. – Agora teremos apresentação de Leonardo Ikiteney, do Instituto de Biologia, sobre a biodiversidade da Floresta de Andara. Por favor, Leonardo venha ao palco...
Leonardo surgiu de um dos lados do palco trazendo consigo uma pequena prancheta com duas ou três folhas de papel, uma caneta e um microfone na outra mão. Ia ser breve e objetivo, essa era sua tática de argumentação e convencimento. Passou dias ensaiando e se preparando para esse evento agora era hora de colocar tudo em prática.
Uma equipe de contra-regras surgiu em seguida trazendo um enorme cartaz depositando-o no centro do palco. Todo ele era ocupado por um enorme foto da floresta em seu melhor ângulo, sem dúvida captaram uma imagem perfeita e ao mesmo tempo simples, tudo com alta definição. Havia uma única frase: “Os Segredos da Floresta” desenhada em grandes letras cursivas e douradas. A equipe ainda ajeitava os detalhes finais da apresentação, corriam para todos os lados espalhando vasos de varias espécies de flores pelo auditório: ao pé do cartaz, nas mesas dos convidados e em alguns lugares visíveis aos estudantes que chegavam nesse momento.
Um grupo de contra-regras seguiu para a platéia distribuindo os panfletos da apresentação com a imagem reduzida do cartaz. O apresentador sentou-se próximo aos convidados, que se encontravam nas laterais do palco, deixando agora todo ele para o garoto com seus cabelos bagunçados e seu imenso cartaz.
- Vamos... Tem duas cadeiras vazias ali ao lado das nossas... – Renato disse ainda em pé para as garotas. – Sentem-se aqui conosco, ai ficamos todos entre... Amigos...
A última palavra saiu quase inaudível para os garotos. Renato ainda não sabia se podia chamá-los assim. Queria, mas tinha receio de que eles não o vissem dessa forma. Lukas, como um bom amigo e guardião, percebeu o que o garoto sentira naquele momento. Esperou até as garotas se sentar em seus acentos e colocou uma mão sobre seus ombros do amigo.
- Não precisa ficar assim Renato... Não tenha medo... – Lukas sorriu para o garoto. – Estamos todos juntos nessa... E eu estarei com você até o final, aja o que houver.
Renato não podia ter ficado mais vermelho do que estava. Sabia que, de alguma forma, o amigo compreendia muito bem seus sentimentos. Olhou dele para as garotas sentadas a poucos metros e pode chegar a uma conclusão que ainda tinha certa duvida, mas agora ela não existia mais. Realmente tinha bons amigos a quem confiar, e contar com eles em todos os momentos de sua vida, os bons e os ruins. Não estava mais sozinho como esteve nesses últimos anos, longe de família e velhos amigos. Sentiu-se feliz, esse era o sentimento, por ter amigos que se tornariam grandes companheiros em sua vida, e ao mesmo tempo, envergonhado, por deixar que o seu melhor amigo percebesse isso. Tentou fugir do assunto, fazendo-se de desentendido.
- Do que você está falando Lukas...? Eu... Eu...
Lukas não respondeu, saiu andando entre as filas até sua cadeira, sentou no seu lugar cruzando os braços lançando mais um olhar para Renato mostrando que estaria com ele para o que der e vier.
- Renato vem logo! A palestra já vai começar...! – Marine o chamou da cadeira. – Ou você vai assistir daí...? Anda logo! Não me enrole...!
- Tá, tá... Acham que tenho poderes mágicos para atravessar toda essa multidão...? – perguntou o garoto sentando ao lado de Lukas.
- A gente desconfia que sim... – respondeu Lana rindo – Você nunca percebeu isso...? A facilidade que tem para sair de enrascadas é incrível...
- É, mas o azar é redobrado... – completou Lukas – o que foi aquilo ontem... A última pedra que a carta lançou da tromba d’água acertou sua testa... – Lukas começou a rir – isso é muita falta de sorte...
- Não tenho culpa de estar cuidando de você bem naquela que levou o choque... Engraçado parece que eu me lembro de termos mencionado que a água estava eletrificada não é mesmo Marine... – Renato voltou-se para Marine com ironia em sua pergunta.
- Eu não sei de nada... – respondeu a garota escapando da pequena discussão dos outros. – Tenho um distúrbio de memória caso vocês não saibam... Por isso não me façam perguntas difíceis...
- É mesmo... Marine tem um distúrbio de memória sim – Lana surgiu entre eles com um grande sorriso. – Hoje de manhã ela deu um grito quando me viu na outra cama do quarto dela e perguntou “Quem é você” apontando o dedo para mim. – Lana ria cada vez mais, seguida por Lukas – Deu um maior trabalho para ela se lembrar do que tinha acontecido no dia anterior... Ainda por cima teimava em acreditar que tudo tinha sido um sonho. Até que... – uma pequena pausa na fala da guardiã, em seguida continuou – Viu a carta e a chave em cima da mesinha...
- E aí...? – Renato perguntou com curiosidade
- Ela deu outro grito e se afastou mais ainda... Pisando em um objeto que estava no chão... Foi horrível... Ela caiu fazendo uma curva no ar, parecendo um arco... Vocês deviam ter visto...
- Isso Lana... – Marine disse impaciente para a garota. – Obrigado por contar isso a todo mundo... Se você não falasse eu não iria me lembrar... Eu só... esqueci quando acordei...
- Não se preocupe amiga... Eu não deixarei você esquecer esse esplêndido acontecimento...
Todos começaram a rir e logo Lukas encarou Renato com sua face desafiadora.
- Não sei por que você está rindo... Você coisa pior no dia seguinte... – Lukas olhou para frente observando os contra-regras saírem do palco – achou que eu era um ladrão... Por pouco não me acertou com um taco de golfe.
- A palestra já vai começar...! Todos vocês fiquem calados...! – Renato gritou com todos exigindo o silencio. Lukas e Lana pararam de rir no mesmo instante e Marine agradeceu ao outro com apenas um olhar. – Prestem atenção...! E parem de falar da vida dos outros...
- Não estamos falando da vida dos outros, estamos... – Lana tentou se defender, porém foi em vão. Marine lançou-lhe um olhar de esguelha exigindo silencio.
Ambos os Card Captures viram quando o rosto do garoto no palco se tornou mais nítido; todas aquelas pessoas, transitando de um lado para o outro, e os contra-regras, saindo de todas as direções do auditório invadindo todos os lugares tinham ofuscado as suas visões, e para completar o papo de Lana e Lukas os envolveram, deixando-os a par do que acontecia no palco, muito menos se importando com o garoto que subira nele.
O palco estava todo limpo e vazio, apenas o palestrante de cabelos bagunçados postava-se de ante ao enorme cartaz com a foto da floresta. As palavras em dourado refletiam a luz dos refletores causando a quem lia uma grande impressão e gravado imediatamente na memória, tudo foi cuidadosamente planejado para que nada escapasse do ponto de vista da palestra. Tudo foi feito com o objetivo de deixar uma marca permanente na memória das pessoas que estavam presentes.
Leonardo ainda estava muito tímido, mas essa seria a hora de colocar tudo o que preparou em pratica. Ia defender seu projeto com unhas e dentes e tentaria fazer de tudo para que se tornasse inesquecível. Com o microfone em mão procurava o melhor jeito de começar a falar, organizava seus pensamentos para que nada pudesse sair errado. Na sua outra mão a prancheta estava segura, os papeis descreviam seu roteiro e no final deles estava sua surpresa final para todos.
Marine e Renato observavam de longe o garoto. Tinham certeza que já tinham o visto em algum lugar, mas não se recordavam onde, além do mais a distancia os impedia de ver perfeitamente seu rosto. Mas a forma do cabelo bagunçado era intrigante, era o que chamara mais a atenção dos dois, teimosamente despenteado e falta de interesse do garoto em concertá-lo. Um sorriso surgiu em sua boca, deixando os garotos com mais duvida do que já tinham.
Lana e Lukas olhavam distraidamente para todos os lados, às vezes para o palco, ambos não se importavam em estar ali, para eles não fazia nenhuma diferença. Em diferentes momentos pareciam ficar mais sérios e atentos, como se procurassem por algo. Os olhos cerravam-se, suas audições eram apuradas, as sensações tornaram-se mais sensíveis, mas sempre em seguida dissipavam toda a guarda não conseguindo encontrar o fator que gerava tanto incômodo aos dois.
Os momentos de vigia e busca dos Guardiões passaram despercebidos por Marine e Renato, que assistiam o começo da palestra. Marine abriu a boca para comentar algo sobre o garoto no palco, mas desistiu ao ver que o mesmo começara a falar...
- Senhoras e senhores... – o garoto iniciou com segurança e determinação, arrancando comentários de todos os lados que se olhavam.
- Nossa como ele é lindo... – uma das garotas a frente de Renato comentou com a amiga com a voz alta o suficiente para que pudesse ouvir.
- Ele é lindo mesmo Carla, tirando o cabelo bagunçado..., – respondeu a garota sentada ao lado e a frente de Lukas. – será que ele sabe o significado de pente...?
O auditório fez silêncio total. A segurança que o garoto passava e forma marcante do cartaz ao seu lado deixavam todos os alunos estupefatos e maravilhados com a cena, escutando somente em raras ocasiões e em lugares distintos alguns ruído ou comentários abafados sobre o cartaz ou sobre o garoto. No centro do palco terminou os agradecimentos e continuou se apresentando e apresentando o seu projeto.
- Meu nome é Leonardo Ikiteney... Sou estudante do Instituto de Biologia e estou aqui para apresentar a todos vocês o projeto da minha turma sobre a Floresta de Andara... – o garoto perdera toda sua timidez e se soltava no palco narrando seu trabalho com os outros alunos da turma de biologia.
A apresentação durou os 40 minutos que se seguiram, foi o tempo estimado pela comissão organizadora. O grupo não se deu ao trabalho de reservar no final da apresentação um pequeno intervalo para perguntas, as quais não surgiram. O garoto contava com uma boa explicação e um bom argumento para suprir todas as duvidas dos estudantes, deixando a ele mais tempo para expor suas idéias e seus assuntos.
- Bom é isso... A floresta tem seus segredos. Segredos que nós não conhecemos, mas nos damos ao trabalho de destruí-los, torná-los secretos para todo o sempre...
A fala final de Leonardo gerou uma salva de palmas que soou por todo o ambiente. Os convidados ao lado estavam admirados com tamanho talento e um argumento bastante convincente, os alunos tinham realmente gostado e entendido a fundo a mensagem que a equipe quis passar. As palmas não cessaram em curto prazo, durou aproximadamente cinco minutos, deixando toda turma de alunos e discentes de biologia em total clima de êxtase e alegria. Sem duvida tinham feito o melhor de si e bateram todas as palestras anteriores, fechando com chave de ouro.
O apresentador voltou ao palco assim que o enorme cartaz foi retirado. Deu aos alunos os comunicados finais e alguns avisos que segurava em sua mão.
- Senhoras e Senhores é com muito prazer que declaro encerrada a Palestra ‘Vamos Cuidar do Verde’ que, neste ano, enfocou a Floresta de Andara. Tivemos quatro excelentes palestras... E quatros jovens que esporam suas idéias de forma esplendida – disse trazendo um dos últimos papéis para cima dos demais e continuou. – Vamos dar uma salva de palmas a Lidia Levine sobre sua posição contra as indústrias em depositar lixo tóxico na floresta destruído toda sua fauna e flora...
Uma onda de palmas e assovios emergiu do fundo, denunciando a turma de química. Uma garota loira, não muito alta, levantou-se de uma das cadeiras dos convidados e acenou com braço para a platéia. Tinha a fisionomia frágil e sua expressão de meiguice invadia os seus olhos. Os assovios e as palmas cessaram com um gesto da mão do apresentador que continuou lendo o papel em sua mão esquerda.
- Uma salva de palmas a Ricardo Portilla sobre a importância histórica da floresta e os achados arqueológicos de antigas civilizações na região.
Outra onda de assovios e palmas, não tão forte como a primeira, surgiu do lado esquerdo do auditório; ali estava a turma de História. Aos sons ecoados pelo salão um garoto alto com uma roupa descolada levantou-se ao lado da garota que acabara de se sentar. Era bem menos tímido que ela, acenou com força e vontade para a turma que gritava descontroladamente seu nome. Seu sorriso era mais do que convidativo, era uma perfeição em carisma. Com um novo aceno com a mão os estudantes se calaram esperando a próxima pessoa a ser anunciada. Os blocos de papéis revoavam de suas mãos e após minutos de tentativas perdidas conseguiu ler.
- Também nossos agradecimentos à Luíza Macine pelo excelente argumento sobre os interesses estatais em proteger a floresta e suas reservas naturais e também pela forma como abordou os interesses do Estado tanto na economia e na sociedade.
Dessa vez foi à turma da frente que começou a gritar e exaltar o nome da garota. As palmas saíram de todos os lugares das primeiras filas. Assovios ecoaram pelo palco e refrataram por todo o auditório, com exceção de Marine que fechou a cara e se quer moveu uma mão.
- Detesto essa garota... Convencida demais... E metida também.
Renato por um instante achou que seria inveja, mas a garota era pura e simples demais para sentir tal sentimento por uma pessoa. Decidiu confiar em Marine de que Luíza era realmente o que sua amiga dissera. O apresentador ainda lutava com os papeis em sua mão e por fim pediu um novo silencio a platéia e continuou com o último nome a ser anunciado.
- E por fim queremos agradecer e saudar a Leonardo Ikiteney por nos mostrar a importância da biodiversidade de nossa floresta e de nossos erros cometidos ao retirar dela as suas valiosas reservas e riquezas. – O apresentador hesitou um pouco e continuou ainda inseguro com que iria dizer. – Eu em particularmente confesso que já fui um explorador da floresta e hoje me arrependo disso. Me arrependo de ter destruído plantas, ter matado animais inocentes e colocar armadilhas no seu interior... Espero que isso sirva para todos você aqui presente. Que nenhum de vocês façam uma selvageria dessas. Espero que todos você guardem a mensagem desse garoto de como é importante guardar a sua vida e como é importante preservar para podermos viver. Por favor, palmas...
Não teve um lugar exato de onde surgiram as primeiras palmas, os primeiros gritos e os primeiro assovios. O auditório inteiro gritou em uníssono o seu nome à medida que as palmas e assovios disparavam de todos os lugares. O garoto levantou-se ao lado dos outros que se postaram de pé para saudá-lo. Em seu rosto era perceptível como estava contente, que seu trabalho tinha dado certo e como tinha acertado todos os detalhes. Definitivamente fez o que queria: impressionou e espantou a todos com sua tese.
Marine levantou seguindo os estudantes que gritavam euforicamente fazendo força para aumentar a força do choque de suas mãos e atenuar seus gritos. As saudações duraram por muito tempo, não cessando quando o apresentador fez menção de falar; todas as turmas estavam louvando o garoto como um ídolo nem se importaram mais com o seu cabelo bagunçado ou o ar de confiança e o sorriso sempre igual em seu rosto.
Leonardo chegou mais para frente do palco, ficando em pé na beirada e agradeceu a todos com um simples aceno de mão; simples, mas que fez todos os estudantes retomarem suas saudações, abafando mais uma vez o apresentador.
Desta vez Renato pode ver com clareza a fisionomia e as expressões do garoto. Tinha quase certeza que poderia ser ele. Abriu a boca, decidido do que ia dizer, virando-se para Marine chamando sua atenção.
- Renato é ele!
Antes de dizer o que pensava, Marine disse a sua frente, fazendo-o abaixar a mão e fechar a boca.
- Era isso que ia te dizer... Só pode ser ele... – Renato olhou para o palco, o garoto ainda de pé, recebia os cumprimentos dos convidados de honra e dos seus colegas de apresentação. – Tem as mesmas fisionomias, as mesmas feições, e...
- O sorriso... É único... Não me enganaria... Tem que ser ele... – disse ela fixando o olhar ao garoto, que retornava ao seu lugar.
- Do que é que vocês estão falando? – perguntou Lana para Marine, mas não obteve resposta. Devolveu a pergunta para Renato, também sem sucesso.
Lukas já imaginara do que se tratara. No dia anterior Renato lhe contara mais uma vez, a seu pedido, o sonho com as Cartas Sakura. Sabia que falavam de mais um Card Captor que estava no sonho dos garotos. Correu para falar com Lana sobre a teoria, mas calou-se e se sentou como os demais haviam feito. O apresentador pedia silêncio à platéia, um pouco eufórica, e com a terrível luta que travava com os papeis em sua mão continuou os créditos finais em seu microfone.
- Bem... É só isso... – virou um dos papeis passado os olhos rapidamente. – Queremos agradecer a todos os nossos convidados, a equipe de contra-regras, a reitoria da Universidade, que apoiou a iniciativa de proteção da floresta e a todos vocês que estiveram aqui presente neste dia de hoje nesta esplendorosa palestra. ‘Vamos Cuidar do Verde’ neste ensolarado mês de Fevereiro. Agradecemos a todos e tenham um ótimo dia...
O apresentador se retirou do palco cumprimentado os convidados e os palestrantes que o seguiram à saída a direita do palco. Os demais adentraram por ali pouco tempo depois, deixando todo ambiente vazio às luzes das grandes iluminarias refletindo nas paredes azuis-turquesa que delimitavam seu espaço.
Um a um, grupos de estudantes foram deixando o local em uma fila mal organizada que se estendia até o grande arco que dava acesso ao saguão auditório. A turma de química saíra primeiro deixando engarrafados a turma de geopolítica com a de história, gerando muito tumulto. A turma de biologia estava mais ao fundo tentando forçar a barricada humana para também poder sair. Passado o momento de confusão o auditório tornou-se vazio e mais amplo do que parecia ser minutos antes; os estudantes seguiam para seus Institutos correspondentes e alguns rumaram para direções distintas: alguns para suas casas, outros para bares ou restaurantes, e outros continuaram nos pátios da universidade com grupos de amigos ou sozinhos. Marine e Renato ficaram no saguão esperando os guardiões voltarem do banheiro, observando apreensivos para aporta que dava acesso aos camarins do auditório.
Lukas se juntou a eles primeiros e também permaneceu a esperar pelo garoto que a qualquer hora teria que sair por aquela porta. Estavam muito inquietos e impacientes: Renato consultava seu relógio a curtos intervalos e Marine começou a roer suas unhas como uma tentativa de acalmar sua ansiedade. Distraíram-se um pouco com a chegada de Lana dizendo que tinha se perdido em um dos corredores, por isso demorara tanto. Mas logo a chegada da garota não trazia mais calma a eles, pelo contrario, juntaram-se quatro adolescentes postados ao saguão esperando por ele.
Passaram-se minutos de espera e então viram quando irromperam as primeiras pessoas pela porta. Os convidados saíram em pequenos grupos dirigindo-se ao saguão, instantes depois uma garota saiu andando suavemente entre as paredes como se conduzisse uma dança. Renato conheceu ser Luíza Macine, a garota que Marine tinha certa aversão. Seus cabelos lisos e negros chegavam às sua cintura e dançavam uniformemente com o vento. Ao passar por Marine seus olhos queimara de fúria e suas mãos fecharam com imensa força, por um momento pensou que a amiga fosse atacar a garota. Mas esta passou em silêncio, lançando um olhar desafiador a Marine, que correspondeu com o mesmo.
Os outros palestrantes saíram segundos depois conversando com alguns amigos e contra-regras que vinham ao seu encalço. Mas nada do garoto que eles esperavam. Lukas sentou-se no chão e foi seguido pelos outros que se tornaram mais e mais impacientes.
- Será que ele já não foi embora e não vimos... – perguntou Lukas depois de um tempo. – Talvez tenha sido enquanto estávamos tentando sair...
- Concordo... Acho que estamos fazendo papel de bobos aqui, talvez ele já esteja na casa dele. – concordou Marine.
Ficaram em silêncio ao ver a porta se abrir novamente eu ma garota carregando uns papéis e deixando cair por onde passava alguns panfletos que todos conheceram ser o da apresentação de Leonardo. Renato decidiu perguntar para a garota se Leonardo ainda estava no auditório. Lançou um olhar para Marine e a amiga levantou-se e barrou a garota, perguntando a ela...
- É... Por favor, você sabe se Leonardo Ikiteney ainda está lá dentro? – Marine perguntou agachando ajudando a pegar os papeis que caiam...
- Leonardo... – se calou por um tempo tentando ajeitar os papeis e prosseguiu. – Não, ele já foi... Acho que deve ter sido um dos primeiros a sair, entrou correndo pela sala pegando sua mochila dizendo que ia para a floresta com uma turma do nosso curso. Parecia um relâmpago... Mal deu para perguntar se...
- Desculpa, mas – Lana a interrompeu – você sabe se já tem muito tempo que ele saiu?
- Como eu acabei de falar ele foi um dos primeiros a sair... Deve ter mais ou menos uma hora. – respondeu a garota com um ar desconfiado.
- E como chegamos a essa floresta que ele foi? – Renato interrogou-a dessa vez
- É a floresta de Andara... Vocês devem saber como chegar lá. Ele foi para a clareira da parte do observatório. – respondeu ela novamente, mas com ar desconfiado, fitando todos os garotos que a circulavam. – Posso saber o que vocês querem com ele...? É algo que eu possa ajudar...?
- Não é só com ele, lamento... É que nós queremos... – Marine se embaraçou no que ia falar.
- Perguntar algo a ele sobre a palestra. – Lana respondeu, aliviando Marine que olhava para ela agradecida. – Sabe, ele deixou um furo em seu texto e queríamos que ele nos esclarecesse uma dúvida nossa...
Lana falou as palavras certas. A face de garota mostrou-se muito animadora e lisonjeada. Era importante que pessoas discutissem sobre a tese da turma, sinal de que estavam realmente interessados.
- Bom... É melhor vocês irem... Acho que ele foi se reunir com contadores de histórias... Ele adora isso...
Os garotos a interromperam, agradecendo rápido e saindo às pressas pelo pátio. Subiram dois a dois os degraus da escada, logo estavam na portaria e em seguida para a avenida de acesso a universidade.
- Precisamos correr... Quanto mais cedo ele souber sobre as cartas, mais rápidos as encontraremos... – disse a garota.
- Mas e se não for ele... – perguntou Renato a Marine. – E se estivermos enganados. Talvez estejamos imaginando coisas...
- Não acho... O sorriso era... era...
- Único, eu sei...
- De toda forma vamos correr, temos que descobrir logo quem são os outros dois garotos que estavam no sonho. – afirmou ela.
O grupo seguiu pela avenida com passos acelerados em direção ao observatório, que não se encontrava muito distante; pertencia a universidade e era usado por diversos Institutos que envolviam ciências espaciais, mas quase sempre estava vazio. Renato decidiu acompanhar o grupo a pé, já que as garotas estavam sem bicicleta e Lukas andava com uma que fora encostada por Rodrigo a algum tempo.
Os carros passavam devagar por ser um perímetro com muito trafego de pessoas. As casas ao redor da universidade eram simples e na maioria delas havia uma placa com o recado “aluga-se quartos para universitários”, já outras havia o aviso “lotado” abaixo das placas. O movimento de carros e pessoas estavam muito intenso, isso devia-se ao fato de ser o horário de almoço. Muitas pessoas entravam e saiam de bares e restaurante trazendo consigo pratos com grandes refeições, outros comiam pastéis em lanchonetes, já outros lanchavam pelos cantos da rua.
Não demoraram muito e avistaram os primeiros vestígios da floresta toda viva com seu verde vibrante. Ao longe parecia uma enorme catedral; as árvores maiores formavam uma cúpula e sua altura se atenuava a medida que se chegava ao centro., formando uma abobada de folhas que chacoalhavam com vento. De longe escutava o barulho que elas faziam, balançando como uma leve coreografia. O sol que insidia nas folhas refletia para todos os lugares deixando-as mais brilhantes com um verde muito intenso.
Correu a Renato uma sensação de calor, de conforto e de liberdade à medida que se aproximavam. Lembrou-se que costumava passar por esse caminho quando voltava sozinho a pé para casa no inicio do seu curso de química, tinha se esquecido de como aquela sensação lhe fazia tão bem e como o lugar era tão lindo e vivente. Por alguma razão não passou mais por ali; começou a tomar caminhos diferentes a cada dia procurando o mais curto e o menos cansativo. Por vezes apareciam-lhe amigos oferecendo carona e depois de um tempo sua bicicleta realizou todo o trabalho por ele.
Lana andava comentando sobre tudo que via, principalmente sobre as roupas das garotas por quem passavam. Era espantoso como observava cada detalhe e como lembrava perfeitamente bem de dos seus modelos, fazendo combinações com um e com outro. Lukas era o mais calado dos quatro, caminhava refletindo, como sempre fazia. Tinha seus momentos para se divertir r descontrair, mas eram poucos. Concordava com tudo que Lana dizia, na realidade não dava a mínima importância às palavras que saiam da boca da guardiã.
Marine, por sua vez, não falava de mais nem de menos. Comentava algumas vezes com os garotos sobre assuntos distintos e algumas vezes calava-se ferozmente, não se mostrando muita amizade. Esta era a forma como refletia as situações: séria, seca, altiva e sarcástica.
O fato de estar procurando pelo terceiro Card Captor alterava o animo e o estado dos garotos, deixando-os mais apreensivos, irritados e ansiosos. Desejavam encontrar os outros garotos o mais rápido possível para dividir a árdua tarefa que lhes foram destinados.
O observatório foi crescendo diante deles e logo chegaram à entrada. Deram a volta e avistaram atrás dele uma entrada forrada de pedras irregulares para a floresta. Alguns vestígios de que pessoas haviam passado por ali era notado: rastros de pneus, pegadas, folhas amassadas... Duas árvores se retorciam e arqueavam em seus topos se cruzando, formando um portal de ramos e folhas com aparência convidativa. Em uma delas estava incrustada uma placa com um aviso desenhado a mão: “Clube dos Contos”, que pendia para um lado, quase caindo.
Os garotos se entreolharam e momentos depois caminharam cautelosos para a entrada, pé ante pé. Estavam receosos, não sabiam se era seguro ou se havia um perigo a sua espera, pronto para atacar quando atravessassem o portal de galhos. Estavam de frente a entrada quando foram surpreendidos por um garoto moreno que passou esbarrando por eles, meio apressado.
- Ei! – Renato se virou para o garoto. – Você sabe se o Leonardo está aí dentro?
- Acho que vi ele... Mas entrem aí e procurem, não será muito difícil achá-lo... não tem muita gente. – respondeu com pressa sem ao menos parar de andar, logo depois acelerou seus passos contornando o observatório e desapareceu de vista.
- Nossa, pareceu um vulto, que passou por aqui... – Lana disse tentando quebrar o silêncio entre todos. E deu certo, por que no momento seguinte todos começaram a rir.
Caminharam sem receio em direção a floresta e logo a adentraram. As árvores em volta formavam uma espécie de corredor curto e bem largo, que davam acessos a diferentes lugares. Muitas flores enfeitavam a entrada, pequenos micos saltavam de um galho a outro, fazendo palhaçada para os visitantes que acabavam de chegar e pequenos gatos miavam em alguns cantos. Tudo parecia era bem vivo e bastante convidativo aos olhos de quem entrava pela ali pela primeira vez, tinha uma aparecia que lembrava mais um jardim, do que uma selava. Uma vós foi se atenuando, destacando-se dos ruídos, à medida que caminhavam; era de uma garota, suave e meiga, mas apresentava um ar sombrio e frio. Passava temor através de suas palavras, e em momentos inesperado ela aumentava drasticamente sua amplitude, dando um tom maior de suspense e assustando as pessoas.
Caminharam até que se viram em uma clareira bem iluminada e aconchegante. A copa das árvores permitia que um pouco de luz invadisse o lugar, dando mais conforto que poderia existir. Tocos de árvores de diversos tamanhos estavam postos em vários lugares formando um círculo em volta de uma fogueira apagada, muitos deles estavam ocupados por garotos e garotas que olhavam com atenção para a voz que emanava de uma menina loira sentada próximo a eles. Fazia uma coreografia com os braços e passava terror a cada frase que encerrava. Sem dúvida ela estava contando uma história de terror, os movimentos e as palavras assombrosas não poderiam significar outra coisa.
Sentado do lado oposto eles o viram mais uma vez. Leonardo escutava com bastante atenção na história que Lúcia contava e gesticulava, parecia encantado e ao mesmo tempo assustado. Não só ele, mas os garotos perceberam que a história causava espanto e temor em todos, exceto por eles, que acabaram de chegar.
Não demorou e o conto de Lúcia chegou ao fim, seguido de palmas e cumprimentos, uma garota não muito baixa deu um grande abraço nela e oferecendo seus parabéns. A presença do pequeno grupo ainda em na entrada da clareira chamou a atenção de todos, estavam apoiados em algumas arvores e observavam tudo com estranheza. Até que uma voz saiu do circulo e perguntou um garoto para eles.



Feliz ano novo a todos! Bom e como presente de ano novo eu trago o oitavo capítulo para o blog. Quero agradescer a todos que veem aqui ler e espero que para esse ano as coisas deem certo para mim e tomare que para esse blog também!
Esse capitulo vai para os amigos da net que gastam horas conversando comigo pelo msn.

Paulo M. Goulart



Cards Infinity
O Lago de Cristal
Capítulo 8
No Rastro do Card Captor
Paulo M. Goulart ©2007 – 2008
Finalizada em 02 de Janeiro de 2008

Cards Infinity – O Lago de Cristal
TryMax ©2008
Paulo M. Goulart ©2007 – 2008
História Original: Clamp ©1996; Japão
Alguns nomes e imagens são de autoria do Estúdio Clamp e possuem direitos autorais reservados as autoras. Os demais nomes, tipologias e símbolos são de direitos autorais do autor desta história

Brasil, 2008
Paulo News
Capítulo 7
O Manto Verde
Paulo M. Goulart, ©2008

A floresta era, sem duvida, o lugar de refugio daqueles que queriam um pouco de silêncio e um momento para refletir. A copa das árvores não deixava muita luz do sol adentrar a pequena selva; iluminava apenas o essencial para se poder caminhar, revelando entre pequenas distâncias uma nova surpresa: flores exóticas, lindos pássaros, micos de varias cores, animais silvestres, grandes árvores do tamanho de prédios e, infelizmente, ações do homem pairavam a toda volta. Freqüentemente, armadilhas eram sempre encontradas, entretanto, muitas vezes seu destino acabava sendo utilizado para fins contrários, capturando adolescentes que vinham até ali para namorar e outras vezes ferindo-os gravemente, assumindo uma posição de contraste entre beleza e perigo. Inúmeras entidades procuravam protegê-la, retirando invasores, exploradores ilegais e recolhendo as armadilhas.
No entanto havia um grave problema: sempre que um grupo de guardas florestais eram recrutados para patrulhar o perímetro acabavam se perdendo no seu interior e reaparecendo dias mais tarde com caras petrificadas de pavor e espanto. Afirmavam que a floresta de Andara era assombrada; alguns contavam que viam espíritos, outros diziam ter visto seres fantásticos, cada história mais absurda que outra. E cada grupo de guardas não se fixava no posto de protetores nem mesmo seis meses. Os cargos se tornaram indesejados por muito, ninguém queria ir para esse lugar tampouco apareciam candidatos dispostos a encarar a imensidão verde. Sem duvida a floresta possuía um tom de mistério e de segredos, isso era o suficiente para assustar a todos. Os que freqüentavam o lugar nem se atreviam a adentrá-la a noite.
Por causa disso, a floresta localizada ao sul de Andara, abria as portas para exploradores que burlavam as suas leis de proteção, retirando o que tinha de mais precioso: a vida. Grande número de piratas saqueavam flores raras, ervas medicinais, animais em extinção e vendiam por preços absurdos no mercado negro; destruindo toda a vida da floresta, e tornado-a cada vez mais sombria.
Ainda não era nem sete horas e um garoto com cabelos bagunçado espiava por entre o vidro da janela o movimento e o ruído das árvores do lado de fora. Vestia um suéter azul devido ao frio intenso daquela manhã, seu corpo estava quase todo coberto por grossas roupas. Em seu peito uma fina corrente dourada sustentava um pingente em forma de lua, subindo e descendo ao compasso de sua respiração. Seus olhos combinavam com o cabelo teimoso. E suas expressões eram de ansiedade, ternura e curiosidade.
- Porque está acordado a essa hora...? – partiu uma voz de uma cama ao lado da outra vazia. - ...ainda são seis e meia... você não disse que a palestra começa as dez?
- É... Devo ter mencionado... - disse virando-se para o irmão e dando um largo sorriso. – A floresta está linda... a chuva de ontem deu um novo animo a ela...
O garoto virou-se para o outro lado e voltou a dormir resmungando coisas indecifráveis pela sonolência.
- Leonardo eu já te disse que você é doido? – perguntou, virando-se novamente para o irmão, que ainda contemplava a imagem da floresta.
- Sim... Muitas vezes. Você faz questão de me lembrar. – Leonardo virou-se novamente para o irmão lhe dando um sorriso sincero. – Sabe... é por isso que somos irmãos. Sua loucura é tão maior quanto a minha...
- Não... Nem se compara...
- Claro que se compara... – Leonardo replicou enquanto voltava a sua cama, sentando-a. – Veja bem, quem foi que pulou de uma cachoeira só para saber o que era queda livre?
- Bem, é... Eu!
- E quem saiu correndo em meio a um estouro de touros para poder encostar em um só para saber o que é emoção...?
- É... eu...
- Quem invadiu um palco de Teatro só para conseguir o autografo de um ator...?
- Eu... também...
- E quem... – Leonardo já estava com o dedo levantado, sabatinando sem parar o irmão.
- Tá, tá... Tudo bem, você venceu...
- Isso... o que me deixa com o posto de doido número dois... – A cara de Leonardo não poderia demonstrar mais satisfação. Geralmente sempre ganhava do irmão mais novo em discussões.
- Seu poder de argumento é incrível... Parece até um promotor... – O garoto virou-se ficando de frente para o irmão – Acho que você me faria confessar até o que eu não fiz...
- Esse é um dom que eu prezo muito meu caro Marcelo... – Leonardo disse passando as mãos sobre a cabeça do irmão, fazendo um leve carinho.
Leonardo voltou-se para uma mesinha de ameixeira postada ao lado de sua cama, com uma pequena iluminaria e decorações apontavam a toda volta: miniaturas de animais de varias espécies e tamanhos; vasos com pequenas plantas bem cuidadas, era visível o quanto se sentiam bem naquele simples ambiente; alguns CDs se misturam com os livros. Em cada canto da mesinha havia um porta-retratos, um deles com uma foto sua abraçando o irmão e os pais e a outra com uma turma de amigos, sorrindo e alegres. Escorado aos pés da mesinha, uma mochila abarrotada de livros e papeis sobre fundamentos científicos, aos quais ele passara o dia anterior, em meio toda aquela chuva, escrevendo na universidade.
O garoto analisou os papeis da mochila e mais alguns que estavam na mesinha, depois de um longo período lendo e fazendo algumas correções os guardou na mochila. Organizou seus livros para que coubessem tudo que seria colocado. Em instantes a mochila havia chegado ao seu limite, fez força para conseguir fechar o zíper sem quebrá-lo. O peso tornou-se algo descomunal, fez um poço de força para colocá-la sobre cama, onde permaneceu sentado por um pequeno período lembrando-se de coisas que deixavam intrigado e preocupado.
Nesses dois dias, logo após a uma noite mal dormida por causa de um estranho sonho havia sentido estranha sensações nos dois dias que se seguiram. Primeiro em uma tarde ensolarada e depois no meio daquele temporal que o ilhou na biblioteca da universidade. Seus olhos cerraram fitando a mão aberta a sua frente. A estranha marca ainda não desaparecera, há dois estava ali nem se quer diminuíra sua intensidade. Finos traços marcavam uma Lua de forma peculiar na palma de sua mão. Possuía um circulo menor inscrito em um maior, mais ao canto desenhando uma de suas fases: crescente ou minguante. Aos extremos lados da lua outros traços desenhavam delicadas asas entreabertas, não muito grandes, mas proporcional ao objeto. Em sua base encontrava uma haste que a ligava a outra ponta disforme, com minúsculos dentes formando uma chave.
A chave era a mesma que segurou com firmeza no sonho daquela noite. Tinha uma luz azulada e vibrava em sua mão, como se sentisse feliz por ser segura por ele. Ao seu lado uma enorme criatura que lembrava um unicórnio postava-se gentilmente convidando a montar em seu lombo. No horizonte uma garota destacava em uma imensa torre rosa e do céu caiam cartas que soltavam faíscas ao tocar uma nas outras. A visão era incrível, só em um sonho para presenciar algo desta forma. Ao longe podia ver os contornos difusos de mais três pessoas com um ser diferente seu lado. Seus pensamento se perdiam à medida que recordava cada lembrança, tudo era perfeitamente nítido: os detalhes, as imagens, as cores tudo era totalmente visível ainda.
- OIII!!! Tem alguém aí...? Você ainda está nesse mundo Leo?
- Acho que viajei um pouco... – respondeu o garoto voltando para a mochila em sua cama, retirando de um dos bolsos um convite. – Já ia me esquecendo... – entregou o papel ao seu irmão, ainda na cama – você vai à palestra sobre a preservação da floresta, né?
- Ah! Vou sim, pode ter certeza... A turma do curso de Geopolítica também vai a esse evento. Pode ter certeza que estarei lá... – Marcelo replicou pegando o papel da mão do irmão.
- Parece que não é só a turma de Geopolítica que estará lá, soube que os Institutos de Química e de História estarão lá, – Leonardo fez uma careta e completou – quero até ver como vai ser...
- Não se preocupe Leo, você fez um ótimo trabalho para essa palestra, vai dar tudo certo... – replicou enquanto sentava na cama. – Eu confio em você, você também devia ter mais alto confiança...
- Isso é uma das virtudes que não tenho... – Ambos riram com a afirmação.
Leonardo era estudante de biologia, no seu segundo ano já era o mais bem visto de todo o Instituto, sendo querido e invejado por muitos. Seus amigos, poucos, eram pessoas amáveis. Seu irmão Marcelo, um ano mais velho, estudava Geopolítica na mesma universidade. Amável e carinhoso, quase nunca brigavam, um entendia o outro e se apoiavam em momentos difíceis.
A manhã foi normal como todas as outras, exceto pelos acidentes no banheiro: a mãe dos garotos foi lavar o rosto e quebrou a torneira da pia ao fechar, jatos de água jorraram por todos os lados; todos tentaram consertá-la, por fim decidiram chamar um bombeiro. “Eu disse, eu avisei que aquela torneira estava com defeito. Mas não, vocês não quiseram me ouvir e olha agora... Estou toda molhada...” resmungava a única mulher da casa por todos os cantos.
O relógio já marcava 9h45min, todos já haviam saído da casa deixando Leonardo sozinho. Marcelo saiu minutos antes, alegando ter um encontro com um grupo de amigos antes da palestra do irmão. O irmão sabia que o outro estava mentindo, mas não contestava, afinal, além de saber da mentira, sabia o que estaria fazendo e não o julgava por isso. Pelo contrario, o apoiava e acreditava nele. Leonardo descobriu o que o irmão fazia em uma vez que foi à floresta, e ao entrar mais em seu interior se surpreendeu ao ver o irmão mais velho próximo a uma enorme árvore. Espiou sem saber que era visto e soube o que o irmão fazia quando sumia de repente. Por um pequeno instante lembrou-se da cena enquanto voltava para mesma janela que estava hoje cedo.
A transparência do vidro o convidava a olhar para a floresta. Suas folhas mexiam e remexiam em compasso com o vento fazendo um barulho calmo e suave, passava tranqüilidade a quem o observasse. Foi mesmo sorte poder morar em um lugar como esse, pesava o garoto espiando a selva. A visão era barrada pelos grossos troncos, limitava-se um pouco além do perímetro, escondendo seus segredos.
Um galho pulou do meio da floresta e ricocheteou no ar, parecia ter ganhado vida. Outro galho surgiu entrelaçando o primeiro formando uma trança, em seguida mergulhou de volta na floresta descrevendo um arco que durou alguns segundos. Leonardo observou tudo com a boca aberta, seu cérebro trabalhava o mais rápido possível para processar todas as informações, sua expressão foi de total espanto, recuou um pouco ao perceber o que acontecia lá fora. Não acreditava no que acabara de ver, seus olhos se esforçavam o máximo para ver mais além das folhas e ultrapassar os troncos procurando pela trança de galhos. Mas não conseguiu encontrá-la, nada se mexia em seu interior, apenas as folhas se moviam executando uma canção suave.
As mãos do garoto se esforçaram para empurrar as janelas, destravando algumas fechaduras e abrindo alguns cadeados. Após aberta colocou sua cabeça para fora ainda procurando pelos galhos, mas nada além das folhas e troncos estáticos era visível. Leonardo procurava respostas em sua cabeça para compreender o que tinha visto, mas nenhuma lhe surgiu.
BIP! BIP! BIP!
O relógio acima da mesinha acionou seu alarme trazendo o garoto de volta para o quarto e fechando a janela. Seus ponteiros marcavam 10 horas em ponto. Ao perceber o horário Leonardo agarrou a pesada mochila sobre a cama colocando-as nas costas, que a principio o puxou para trás, mas logo conseguiu controlar seu peso. Saiu correndo do quarto passando pela cozinha para pegar um pedaço de bolo em uma forma sobre a mesa. Pegou seus patins próximos à porta e os calçou, fechou a porta e saiu deslizando pelas ruas comendo seu pedaço de bolo. Ia à alta velocidade para a universidade, a palestra começaria em poucos minutos.
Passou por varias ruas até avistar um grandioso prédio em meio a árvores e lagos. Ainda rolou nos seus patins até alcançar a entrada, onde uma enorme placa erguia-se sobre um pequeno campo com flores vermelhas. Na superfície plana havia grandes escritas em verde vibrante que se lia “Universidade de Ciências e Tecnologia de Andara”. Muitos outros estudantes passavam por ali; alguns andavam tranqüilamente enquanto outros corriam para todos os lados nem se importando em quem esbarrava ou até mesmo derrubava no chão.
Leonardo alcançou a portaria sem pressa seguindo para o auditório que ficava na parte leste da Instituição, em breves intervalos de tempo consultando seu relógio. Conseguira chegar a tempo de se preparar para sua apresentação que se iniciaria daqui a meia hora. Seus patins jamais o decepcionava, além do mais era um ótimo patinador, mais uma qualidade para se somar a tantas outras admiradas por seus amigos. Esses diziam que o garoto possuía gostos difusos: estuda biologia, mas gosta de história; é amante da música pop, mas toca guitarra; por fim é simples e tímido, mas é excelente em esportes radicais... E inúmeras outras coisas que citavam, formando uma pequena lista que, em certas ocasiões seus amigos mais um contraste do garoto.
Os acontecimentos na floresta que viu a pouco tempo tinham sumido de sua cabeça, não tinha tempo para pensar neles agora. Tinha algo mais importante para fazer: apresentar o seu projeto a uma multidão de acadêmicos que por sinal eram muito críticos, teria que se esforçar para fazer seu melhor...
Ao passar por um grupo de garotas que comentavam sobre a chuva de dia anterior uma voz conhecida gritou se nome, fazendo-o parar e virar-se para esperar o irmão que descia as escadas da portaria correndo.
- Achei... que não... chegaria a... tempo – Marcelo falou em grandes pausas para recuperar o ar que usava. – Desculpe eu... ter me... atrasado. Mas estou aqui.
- Não se preocupe mano, como você vê eu ainda estou do lado de fora do auditório. Isso significa que...
- Que você está encrencado Leonardo!
Uma voz feminina surgiu atrás dele, ecoando sobre o pequeno jardim à frente da entrada do Teatro.
Leonardo virou-se e avistou uma garota parada à porta com as mãos nas cinturas fazendo uma pose de desafio. Conheceu logo a silhueta que apontava o dedo para ele de cima das escadas. Era Lúcia, uma de suas melhores amigas e companheiras das horas difíceis, agia como uma mãe a todos os seus amigos. Estudava biologia na mesma turma que ele e não perdoava por descuidos do garoto.
- Leonardo você sabe que horas são...? – perguntou descendo as escadas, caminhando até o encontro dos dois irmãos. – Já são dez e vinte, sua apresentação começa em vinte minutos. Já estava quase chamando o exercito para lhe buscar...
- É Leonardo... Você tem uma amiga pior que a mamãe em questão de pontualidade. – Marcelo disse rindo para o irmão.
- Você se preocupa de mais Lúcia, eu disse que chegaria por volta desse horário. – Replicou procurando não se abalar com as investidas da amiga. – Quem já se apresentou...?
- Teve uma apresentação de uma garota da turma de Química sobre lixo tóxico. Outra da turma de História sobre o passado do país e o legado das antigas civilizações. A próxima será uma garota do Instituto de Geopolítica que falará sobre a importância da preservação para a sociedade; ela vai arrebentar com o governo, do jeito que esse povo é doido...
- Minha apresentação é depois da dela... por isso não há motivos com o que se preocupar... – Leonardo contra-argumentou – Já tenho tudo preparado, não fique nervosa Lúcia, nem é você que vai falar sobre a biodiversidade na frente de toda aquela gente.
- Eu, mas eu me preocupo sim com você Leo, não só com você, mas com todos... – Lúcia corou um pouco e continuou – Quero que tudo dê certo para todos vocês, de coração...
Leonardo decidiu não contra-argumentar mais, percebeu que isso deixava Lúcia com envergonhada de estar tão preocupada com ele daquela forma.
Subiram os três pela a escada chegando a um saguão todo iluminado por grandes lustres de cristais, o hall de entrada era forrado com um tapete verde claro e as paredes eram cercadas por quadro de grandes nomes da universidade.
- Marcelo... – Leonardo pousou a mão nas costas do irmão e continuou com um sorriso terno – Eu queria lhe dizer que eu te apoio em todas as suas...
- LEO!!! Anda logo, desse jeito vai acabar se atrasando de verdade. – gritou Lúcia na entrada da porta reservada aos palestrantes.
- É melhor você ir Leonardo... – Marcelo disse olhando de lado para ver a garota que o esperava impaciente. – Depois você me fala tudo bem...
- Mas eu precisava falar isso...
- Não... depois você me fala. É melhor ir, Lúcia tem razão, você vai acabar se atrasando de verdade. – disse entrado pelo grande portal que dava acesso ao auditório. – Verei você daqui... Faça o melhor que puder irmãozão. Entrou acenando para o outro.
Leonardo acenou para o irmão e encontrou Lúcia furiosa encostada na porta reservada para os palestrantes, seguiu por um caminho até chegar a uma pequena sala onde os demais se encontravam concentrando e repassando o que tinham que falar. Leonardo puxou uma folha meio amassada da mochila e começou a analisá-la pela última vez antes de subir ao palco.


***


- Por que eu tinha que vir nisso aqui...? Por que não podia ficar na sua casa...? – Lana perguntava desapontada para uma garota com longos cabelos castanhos.
- Por que minha mãe acha que você é minha colega de faculdade... Você tem que vir comigo a esses lugares para que ela não desconfie... Via ser legal, não se preocupe, tem muita gente doida aqui... – Replicou Marine que procurava um lugar vazio no auditório lotado.
- Tudo bem... – Lana ficou uns minutos em silencio e continuou. – Isso me deu uma idéia... – sussurrou para si mesma. – Preciso falar isso com o Lukas...
- MARINE!!! LANA!!!
Uma voz soou da entre a multidão de alunos. Elas olharam para todas as direções procurando a voz que as chamava, mas não encontraram nada.
- AQUI!!!
Marine avistou Renato sentado próximo ao palco principal, na terceira fila, não muito longe de onde estavam. O coração da garota deu um salto de felicidade. Segurou firme no braço de Lana, arrastando entre os alunos, atravessando toda a multidão indo de encontro ao outro Card Captor. Com muito custo elas conseguiram desviar de todos os estudantes que lotavam o auditório.
Chegaram próximo ao garoto e viram Lukas sentado ao seu lado, inquieto e impaciente. Renato usava roupas azuis com um boné laranja e Lukas, ao estilo roqueiro, usava uma jaqueta de couro preta com uma calça jeans rasgada, seus piercings reluziam a luz do auditório. Ambos sorriram ao ver as garotas, Renato mais do que Lukas, concentrando-se nos olhos castanhos de Marine.
- Oi Renato, como foi sua noite depois daquela chuva... – perguntou Marine apertando sua mão. – Ou melhor, temporal...
- Minha noite foi bem... E a sua...? – devolveu a pergunta ficando um pouco corado.
- Dormi muito bem, acordei só hoje e...
- É verdade... Tivemos que acordá-la hoje... Parecia uma pedra suspirando na cama... – Lana cortou Marine. – Afinal, você devia estar sonhando com alguma coisa para estar daquele jeito... O que era...? Um príncipe encantado...?
- Cala a boca Lana! – respondeu a garota no exato momento ficando vermelha, assim como Renato estava. – Eu não estava sonhando com nada...
A atitude da garota em dar uma resposta tão rápida e alta gerou risos em Lana, por pouco não desencadeou uma crise de risos na guardiã. Lukas que olhava tudo pelo canto dos olhos levantou-se e seguiu para o encontro das garotas, juntando-se com Renato, ainda muito vermelho.
- Bom dia Marine... Como ta sendo a vida de Card Captor...? – Lukas estendeu a mão para a garota que logo a pegou.
- Como assim...? A vida...? Marine dormiu a noite toda, nem teve tempo de usar a carta ainda... – Lana respondeu na sua frente, deixando Marine um pouco irritada.
- E bom dia para você também Lana, você está muito linda... – Lukas a cumprimentou observando seu longo vestido lilás com detalhes brancos.
- Bom dia... E muito obrigada... – respondeu olhando para o próprio corpo e continuou – Foi Marine que me emprestou... Você não sabe o tanto de artifícios que essa época tem... Estou encantada...
- Se a Lana me deixar falar... – Marine lançou um olhar mortal à garota. – Bom dia Lukas... Estou bem sim... É um máximo ser uma Card Captor, ainda nem consigo acreditar direito... É... É...
- Fantástico... Essa seria a palavra... – interpôs Renato. – Me sinto assim também...
Os olhares dos dois se cruzaram, fixando-se um ao outro. O barulho a volta dos garotos parecia ter se dissipado; os assuntos sobre tendências de moda que Lana comentava com Lukas tinham desaparecido. Nada era escutado por eles, exceto os batimentos dos seus corações ritmados com as suas respirações, tornando cada vez mais pesadas. Seus corpos se aproximavam inevitavelmente a ponto de um sentir a respiração e o perfume do outro. Mas algo os tirou desse estado de êxtase trazendo de volta a realidade, trazendo-os de volta ao auditório repleto de alunos. Uma voz grave emergiu das caixas de som espalhadas por todo o ambiente, invadindo todos os cantos do teatro, recobrando a atenção dos garotos.


Espero que um dia todos tenham os seus sonhos realizados, mesmo que eles sejam impossíveis.
Esse capítulo vai para meu melhor amigo de todos os tempos, o nome dele é Leonardo. Cara, quero que saiba que tenho você como irmão, aconteça o que acontecer pode sempre contar comigo. Seremos sempre amigos!

Paulo M. Goulart



Cards Infinity
O Lago de Cristal
Capítulo 7
O Manto Verde
Paulo M. Goulart ©2007 – 2008
Finalizada em 23 de Dezembro de 2007

Cards Infinity – O Lago de Cristal
TryMax ©2008
Paulo M. Goulart ©2007 – 2008
História Original: Clamp ©1996; Japão
Alguns nomes e imagens são de autoria do Estúdio Clamp e possuem direitos autorais reservados as autoras. Os demais nomes, tipologias e símbolos são de direitos autorais do autor desta história

Brasil, 2008
Paulo News
Capítulo 6
Temporal
Paulo M. Goulart, ©2008

Tudo aconteceu muito rápido. Em instantes a carta chegou ao patamar onde se encontravam; Marine sobre o degrau maior e Renato preparando para descer e invadir a enxurrada na tentativa de alcançar a Carta Sakura a poucos metros de onde estavam,
- Não!!! – Marine gritou para Renato no mesmo instante que segurou sua camiseta o puxando; ouviu-se um pequeno ruído e um pedaço da manga se rasgando. – Olhe... Ali... – Marine apontava a um dos postes tombado para seus fios caídos na água. – A água deve estar eletrificada, não entre aí, pode ser perigoso... Já ouvi casos de pessoas que morreram...
- Ela tem razão Renato... É muito perigoso – disse Lukas puxando a outra manga da camiseta, desta vez a rasgando completamente na parte superior.
- Mas como vamos chegar até ela, – replicou ele retirando os fiapos da camiseta – para capturá-la eu preciso chegar mais perto... Ou acham que eu vou sair voando pela rua... Ainda não sou o super-homem.
- Eu pensei que vocês sabiam o que estavam fazendo quando me contaram toda a história das cartas... Vocês são loucos... – Marine berrava com os garotos, fazendo-os recuar para trás – Isso é muito perigoso... E vocês não têm um plano... Querem nos matar...
- Não fique assim Marine – Lukas tentava acalmá-la – Renato também ficou desesperado e descontrolado no inicio... Ainda está...
Enquanto discutiam a Carta Sakura sobrevoou uma das arvores em sua volta criando uma enorme tromba d’água da enxurrado até se perder de vista no céu acinzentado; à medida que seu tamanho crescia foi se dirigindo ao lugar onde estavam. Destroçou um dos carros que encontrou em seu caminho, atirando-o a vários metros de distancia; a árvore, ainda presa, pendeu para um lado caindo no centro da rua, seus galhos foram quase todos arrancados e estavam sendo lançados a todos os lados. Uma onda começou a se formar a partir da tromba d’água e ameaçava invadir um lado da quadra, justamente onde os garotos estavam...
- AHHHH!!!! – Marine gritou, mas não tinha ninguém ali para poder socorrê-la exceto pelos garotos...
Ninguém estava na rua em meio aquela destruição em massa, era difícil de acreditar que tudo aquilo fosse causado por uma chuva. O nível da água começou a subir rapidamente, atingindo o degrau onde Lukas e Renato se encontravam. Mal tiveram tempo para subir e Lukas levou um choque quando um pouco de água envolveu seu pé. Os jardins das casas foram todos cobertos pela enchente; a água já atingia cerca de um metro de altura nem por um minuto cessava sua destruição.
A tromba d’água avançava na direção dos garotos com mais fúria que antes; por onde passava deixava somente ruínas. A Carta, girando em torno da água, sorria e se divertia com a cena e o medo que eles demonstravam.
- Lukas! Você está bem...!? – Renato socorreu o amigo que gemia de dor – Está doendo muito...?
- Não se preocupe comigo... Se preocupem com a carta... E não encostem na água... Está mais eletrificada do que eu pensei.
- E agora o que vamos fazer...? A água vai destruir tudo... – Marine estava exasperada com o que acontecia; era difícil acreditar que tudo que ela ajudou a construir, todos aqueles jardins estavam sendo destruídos.
A tromba d’água passou por um carro estacionado na porta de uma loja de doces engolindo-o na imensidão de água...
- O que está acontecendo... – Renato exclamou quando viu o carro sendo puxado e erguido pela força da água até uma altura de uma árvore. - ...o que ela vai fazer...?
A falta de luz ofuscava o vermelho do carro, podendo ver somente um borrão quando rodopiava. A carta apresentava dificuldade para manter-lo suspenso, mas fez o girar mais uma vez e o lançou para onde os garotos estavam.
Marine, Lukas e Renato não acreditavam no que estavam vendo, mas a essa altura seria tolice não acreditar em certas coisas. O carro vinha em suas direções e os ameaçava despertando medo, desespero e surpresa. O carro avançava velozmente sobre as casas e ia caído rapidamente rodopiando pelo ar.
Marine colocou a mão nos rostos e sentiu que esse seria o fim.
“VENTO!”
Renato usou a carta vento no momento mais oportuno que poderia surgir. Uma linda mulher com longos fios de cabelo verde emergiu da carta contornando todo o carro e o parando no ar. Com suavidade o levou para um canto e depositou na rua. Emanava uma brisa suave não muito fria. A outra carta percebeu a presença de Vento e começou a sugar gravetos das arvores derrubadas no meio da rua enchente. Em seguida seguiu um incessante ataque; os gravetos foram lançados da tromba d’água, todos bem afiados, lançado um após o outro, tornou-se uma penca de flechas que se preparava para acertá-los. Antes que pudesse chegar aos garotos a carta Vento sentiu que se dono estava sendo ameaçado, então aumentou sua intensidade transformando em uma ventania formando escudo envolvendo os Cards Captures e o Guardião.
Marine ao ver a carta ganhar vida na sua frente e os salvando ficou mais apreensiva e percebeu o quanto foi tola em duvidar do próprio sonho e do que os garotos contaram.
- O que é isso...? Também é uma carta...? – Marine apontou para a entidade mágica acompanhando-a com os dedos descrevendo círculos pra protegê-los.
- Essa é a Carta Vento... – Respondeu Renato com o báculo a frente e uma carta vazia na sua mão esquerda. – Linda não é...?
- É, mas... E a outra...? – Marine apontou para outra carta acima do monumento de água. – Que carta é essa!?
- É a Carta Chuva. – Respondeu Lukas a um canto ainda gemendo um pouco de dor. – É uma carta bastante poderosa, nunca a vi demonstrar tamanha fúria. Possui como elementos regente a água e o vento... Aí... – Lukas gemeu um pouco ao se levantar – Por isso está fazendo chover desse tanto...
- Nota-se... – Marine replicou. – Como vamos fazer para impedi-la...!? Ela vai destruir tudo...
- Tenho uma idéia... Vento! Aproxime da Chuva e contorne-a...! Tente impedi-la de fazer chover...! – Renato gritava ordens para sua carta que prontamente o obedeceu.
A carta começou a avançar não dissipando o circulo que fazia para proteger os garotos. À medida que Vento aproximava-se, Chuva aumentava seus ataques e alguns começaram a transpor a barreira de ar. Várias pedras se juntaram aos galhos pontiagudos sendo atirados e voando em todas as direções. Vento acelerou para capturar a carta, mas Chuva começou a apresentar resistência colocando mais força em seu ataque.
Chuva percebeu que seria encurralada, com uma atitude inesperada desfez a tromba d’água formando uma grande onda. Aproveitou esse memento para fugir e saiu o mais rápido que pode.
- Agora, Vento!!! Capture-a... Não a deixe fugir...
Chuva correu o mais rápido que pode, mas não foi o suficiente para escapar de Vento. Em segundos ela a alcançou, desfazendo o escudo e criando uma enorme bolha de ar prendendo a Carta Sakura em seu interior.
TAC!!!
Marine e Lukas escutaram o som de algo, um estampido ecoou por ali seguido de passos deslizantes sobre o soalho. Só o que puderam ver foi o corpo de Renato caído lentamente para trás. Um profundo corte surgiu sem sua cabeça, seu corpo perdeu o controle e os sentidos; suas mãos não respondiam mais; sua testa sangrando muito, manchando seu rosto com um tom vermelho brilhante. O báculo do Sol se soltou no ar, caindo em uma moita de visgos próximo a janela da floricultura. Com um grande baque seu corpo encontrou o chão molhado e frio, seus olhos se fecharam antes que pudesse exaltar qualquer exclamação de dor. Uma pedra branca, suja com um líquido vermelho, o mesmo da testa do garoto caiu ao seu lado, denunciando ser o que o atingira.
- Renato!!! – Marine e Lukas gritaram em uníssono ao mesmo tempo em que vieram socorrê-lo.
- Ele desmaiou... – Marine, parecia perita, abriu os olhos do garoto observando suas pupilas, pedindo para que o pior não acontecesse. Com uma mínima exclamação de alivio continuou: - Ele está apenas inconsciente...
Marine sentiu algo estranho, não podia deixar de reparar no suave cabelo do garoto e em seus finos desenhos que davam forma ao se rosto. “Nem percebi o quanto ele é lindo... Mas excêntrico também...”
- Acha que ele vai ficar bem... – Lukas perguntava apreensivo para a garota, seus olhos azuis se encheram de água ao ver o amigo caído e inconsciente.
- Não se preocupe... Ele vai ficar bem... – respondeu Marine não tendo muita certeza no que dizia. – É melhor sairmos um pouco de perto dele... Ele precisa respirar um pouco... – disse se levantando olhando para o alto fitando a carta presa na bolha de ar.
As gotas ornamentais presa na roupa rosa da Carta Chuva agitavam furiosamente seguindo o compasso que a carta fazia para se livrar da prisão. Vento não estava resistindo, seu dono que a mantinha existente por sua magia encontrava-se inconsciente.
- O que faremos agora Lukas...
- Agora é com você Marine, você tem que capturar a Carta Sakura...
- Você está louco... Como quer que eu capture a Carta Sakura... – Marine colocou a mão no peito e a outra apontou para o alto em direção as entidades que se debatiam... – Nem se quer tenho um báculo e...
Marine calou-se ao ver Lukas pegar o livro caído no chão e o entregar a ela. Mas a garota se recusava a pegar. Abalançava negativamente a cabeça recusando o livro.
- Marine... Pegue-o... – Lukas estendia o Livro para a garota e a olhava com ternura nos olhos procurando convencê-la.
E foi o que aconteceu. Marine pegou o livro das mãos do guardião e o abriu. Sentiu uma forte sensação passar por todo o seu corpo. Sentia que algo chamava o seu nome naqueles símbolos da capa. Várias lembranças invadiram sua mente: a garota na torre rosa, o ser com grandes asas de borboleta, as cartas que voavam... e a minúscula chave.
- Eu... Eu... Eu não posso Lukas... Sou incapaz de fazer isso... Eu não posso fazer isso... – Marine estendia de volta o livro para Lukas. – Eu nem sei o que fazer com esse livro. Nem tenho... magia...
- Está enganada...- Lukas a olhou mais fundo – Lembra de quando Renato lhe entregou o livro e você o deixou cair?
- Lembro sim, mas que importância tem isso...?
- Nenhuma... – Lukas cruzou os braços e continuou – Mas você não notou que quando ele caiu o fecho que o prendia se abriu soltando pequenas faíscas vermelhas...?
- Faíscas vermelhas...? – Marine tentou puxar pela memória, mas estava tão difícil como capturar a carta...
- Você pode não se lembra, mas eu vi isso muito bem... – Uma cara de satisfação surgia no rosto do guardião. – Isso quer dizer que você possui algum tipo de magia... caso contrario não teria aberto o livro...
Marine ficou chocada quando Lukas terminou. E então algo lhe ocorreu.
- Lukas... Então quer dizer que você...
- Sim! Sim! – respondeu ele antes do termino da pergunta. – Eu soube naquele instante que você também seria uma Card Capture e que a missão de Renato seria partilhada com você...
- Mas como Lukas...? Como...? Eu não faço nem idéia de onde começar para poder capturar essa carta... – Marine falava em sussurro e pequenas lágrimas escorreram em seu delicado rosto.
- Olhe para o livro e concentre-se... Você terá a resposta... Lukas apontou decididamente dela para o livro, sua face não demonstrava mais ternura e sim desafiava a garota.
Marine olhou fixamente para os desenhos da capa esperando que alguma coisa acontecesse, mas nada acontecia. Seus olhos ficaram mais vermelhos, sua face mais rosada, seu corpo mais fraco. Sentia que estava sendo chamada, mas não tinha forças nem voz para responder. Suas mãos seguravam firmemente o livro, uma de cada lado.
A Carta Vento estava chegando ao seu limite. Prender uma criatura como aquela era moleza, mas sem o auxilio do coração do seu dono lhe dando força, amor e coragem necessária tudo se tornara mais difícil. A Carta Chuva se debatia muito e em questão de minutos conseguiria estourar a bolha de ar e também em questão de minutos a magia de Vento se extinguiria.
Marine ainda olhava fixamente para os símbolos, seus olhos cheios de água não agüentavam mais, não suportava a espera de uma resposta que não vinha. Enquanto isso Lukas se esquecera da garota e dedicava a cuidar de seu amigo, ainda inconsciente no chão. Marine não suportava mais e então em um grito desabou em um verdadeiro choro profundo e penoso que ecoou pelo patamar invadindo a floricultura.
- Eu não consigo... Eu... Eu sou uma fraca que faz de tudo para agradar as pessoas, mas ninguém nunca me perguntou se eu queria fazê-las ou se concordava com elas... – Marine era só soluços e suspiros profundos. Seus cabelos jaziam para frente e tampavam o seu rosto todo molhado.
Lukas levou a mão para confortar a garota, mas parou no meio do caminho, sentiu que não seria uma boa coisa fazer. Sentiu tristeza por não poder ajudá-la, sentia medo e dor ao ver seu único amigo caído ensangüentado aos seus pés e sentia, por fim, inútil, capaz de fazer nada para poder ajudar. Seu pé ainda dolorido devido ao choque, fazia o arrastar de um lugar ao outro.
Não iam muito bem, ambos deixaram que medo e dor os envolvessem, mas algo os trouxe de volta, como se uma voz os acordasse. Uma luz Vermelha brotou do centro de onde Marine se encolhera, refletindo no piercing de Lukas e fazendo a garota se levantar com susto e surpresa. De um dos símbolos surgiu uma intensa luz vermelha e algo começou a sair dali. Um minúsculo objeto despontou da capa e agora flutuava, subindo até a altura do rosto de Marine. O objeto era, nada mais, do que a minúscula chave do seu sonho. Exatamente igual: uma chave com um planeta em tons vermelhos em sua extremidade sendo contornado por finas e delicadas elipses formando um conjunto de anéis circulando-o em duas diagonais, formando um “X”. A cara de alegria de Lukas não poderia ser maior, ainda que tudo aquilo tivesse acontecido com Renato.
- Agora Marine!!! É agora...!!! Agarre a chave...!!! – Lukas gritou para Marine.
Com um único movimento Marine a pegou no ar. Ao fazer isso sentiu um calor envolver o seu corpo, um calor muito diferente do normal, nunca sentido antes por ela. Sentiu que estava sendo envolvida por uma sensação de prazer e felicidade. Era impossível tentar descrever o que ela estava sentindo.
Do nada sentiu coisas estranhas penetrarem em sua mente. Palavras sem significados concretos surgiam e formavam pedaços de frases totalmente desconexas. Até que tudo se esclareceu e a frase se formou por inteiro. Estava pronta para ser dita pariu de onde estava...
“Chave que guarda o poder da Galáxia, mostre seus verdadeiros poderes sobre nós. E os ofereça-os a valente Marine que aceitou essa missão. LIBERTISSE!!!”
Os dentes da chave desapareceram dando lugar a uma empunhadura. As finas elipses se destacaram tornando-se maiores e mais grossas; o planeta se tornou mais vermelho com um tom berrante e brilhante; a minúscula haste que ligava as duas pontas aumentou de tamanho e de espessura, dando forma a um bastão. No alto as elipses formaram um “X” em diagonais maiores, começando a girar contornando o planeta, soltando estalos e flashes vermelhos. E com mais um movimento Marine o pegou e sentiu-se completa.
- Incrível... Realmente incrível... Eu vi um desses antes... – Lukas estava encabulado com o que acabara de presenciar, olhava fixamente para o báculo de Marine, ainda irradiando um vermelho intenso.
Marine estava mais surpresa que Lukas. Jamais, em toda sua vida, imaginara algo dessa grandeza acontecendo com ela. Analisava toda a forma do seu báculo, não deixando que nada escapasse aos seus olhos. Era bem obvio, para quem estivesse ali, o quanto Marine estava surpresa e feliz segurando o artefato mágico.
A Carta Vento, que batalhara até aqui para manter confinada a Carta Chuva se dissipou transformando em frágeis brisas. Voltando, muito fraca, para a carta vazia ao lado do corpo imóvel do seu dono.
- Ah não...! A carta Vento não resistiu... Sem o Renato aqui para lhe dar a magia e o amor necessário ela simplesmente perdeu a força. – disse Lukas observando o trajeto do que sobrou da carta fazia até chegar a eles.
- Lukas... Olhe...! – Marine apontava para o alto, a carta se aproximara mais deles e tornou a se movimentar em zig-zag, descrevendo desenhos no ar. – O que ela está fazendo...? Parece estar... dançando...
Os ornamentos na roupa da Carta Chuva cintilavam e balançaram suavemente com a ventania, da mesma forma que seus fios de cabelo esvoaçavam de um lado para outro. Por um instante a carta ficou imóvel, cessou seu zig-zag e em seguida começou a fazer círculos uniformes com muita velocidade, formando grandes nuvens acinzentadas, carregadas de água.
- Ela está preparando para atacar Marine! É isso que ela está fazendo... – Lukas exclamou ao ver os movimentos sendo executados pela carta – normalmente ela não é muito agitada, mas tê-la prendido a deixou muito irritada e agora quer descontar toda sua raiva em nós... Rápido...! Você precisa agir... Você precisa capturá-la antes que isso aconteça. Antes que ela nos... nos mate...
A última palavra que saiu da boca de Lukas fez Marine se revirar de medo. O fato é que ela sabia que a carta era capaz de fazer isso, olhou tudo em volta; pode ver toda a destruição causada e Renato ensangüentado no chão. Tudo já tinha passado dos limites, já era hora de lacrar essa carta mais uma vez.
Novamente estranhas palavras foram se amontoando em sua cabeça, formando uma nova frase pronta para ser dita. Marine ergueu o báculo sobre a cabeça e o desceu com um único golpe. “Volte a sua form...”
Antes que a frase pudesse ser encerrada por Marine a Carta fez desabar uma forte chuva do círculo onde estava, caindo com um descomunal estrondo na correnteza de água nas ruas. As gotas de água se juntaram formando um enorme jato e com um leve estalar de dedos da carta o jato partiu em direção dos garotos.
Eles estavam sem nenhuma proteção, capturar a carta naquela hora seria quase impossível, alem do mais não faria o jato desaparecer, tampouco mudar sua direção ou sua intensidade.
Marine já se preparava para gritar, esse seria o fim..., mas se conteve quando notou que algo mais estava acontecendo além do jato d’água. No livro, caído no chão, uma estranha luz emergia do mesmo lugar de onde saíra sua chave. Uma Luz vermelha incidia sobre o lugar e foi iluminando tudo a sua volta. Um par de asas se abriu a sua frente, longos cabelos em um tom vermelho escuro caíram suavemente; e por fim uma linda garota emergia completamente do livro rosa. Era bem moça e tinha a mesma estatura de Marine.
- Ruby-Moon...
A garota que acabara de materializar a frente de Marine estendeu sua mão à frente, com os olhos bem cerrados e uma posição de ataque. Um grito saiu da garota enquanto impulsionou suas duas mãos para frente sendo seguido por suas asas, fazendo uma estranha coreografia de movimentos. Uma forte rajada de vento partiu de Ruby-Moom empurrado o jato d’água para longe deles, caindo metros à frente.
A carta recomeçou a voar em círculos, formando um novo jato de água. Ruby-Moon exclamou para a Marine ao ver o báculo em suas mãos.
- Vamos...! É agora...! Capture a carta...
- Certo! – assentiu a garota com a cabeça.
Marine foi para ao lugar mais perto da parede sendo observada por Lukas e Ruby-Moon. Tomou um impulso e pulou do patamar para um vaso de flores logo à frente e dele para uma fonte, ficando frente a frente à carta Sakura. Levantou o báculo até o alto e preparou para dizer às palavras, saindo de sua boca em alto e bom som...
- Volte a sua forma humilde que merece Carta Sakura!!!
Marine desceu seu báculo em direção a carta. As elipses começaram a circular o planeta e a trocarem de posições. Logo a frente do báculo surgiu uma carta vazia, soltando junto com ela uma forte rajada de vento sugando os vestígios de magia que estavam ai. A forte rajada puxou a Carta Chuva, que tentava desesperadamente fugir, mas tudo foi em vão. Em poucos segundo a carta fora aprisionada, caindo lentamente da ponta do báculo para a mão de Marine, sua dona.
- Venha comigo... - Ruby-Moon pairava no ar próximo a Marine estendendo sua mão para ela. – Soube que a água está eletrificada... Não tenha medo... Pode confiar em mim...
A nova Card Captor deu as mãos para a guardiã e saíram voando até o patamar onde Lukas as esperava. Marine aproveitou para pegar o báculo de Renato que estava perto de onde tinha parado.
- Muito... muito... obrigado... – Marine agradecia timidamente a guardiã e esta apenas sorria para ela.
- Ruby-Moon!!! – Exclamou Lukas – É você mesmo!?
- Sou eu sim... Estou de volta... Em carne, osso e. - Ruby-Moon olhou para as roupas que Lukas, Marine e Renato usavam e continuou com uma cara desgosto – e totalmente fora de moda... que tristeza...
- É... Realmente é você mesmo... Continua a mesma... – Lukas deu um largo sorriso ao terminar de falar...
O céu lentamente começou a clarear dissipando as pesadas nuvens. O nível da água ainda não baixara, o que era perigoso sair dali. O crepúsculo logo se formou no horizonte, misturando raios amarelos com vermelhos. Não demorou muito que fosse substituído pela noite, trazendo estrelas no céu e uma suave sensação de missão cumprida, o que parecia impossível mais cedo.
Olhares curiosos despontaram de janelas e das portas ao longo da rua e os garotos decidiram entrar na floricultura. Renato fora carregado por Lukas e Ruby-Moon com muito cuidado, colocando-o em um colchonete que Marine havia preparado. Minutos depois Renato acordou, ainda muito tonto, conseguiu ver apenas vultos em sua frente. Logo a imagem foi ficando clara e as lembranças lhe tornaram a mente e a dor latejou por sua cabeça.
- O que aconteceu... – Renato perguntou com garganta seca e olhando de Lukas para Ruby-Moon...
Os garotos lhe contaram tudo o que aconteceu, sendo interrompidos em intervalos regulares por exclamações, ora por Renato ora por Ruby-Moon. Contaram-lhe sobre o surgimento da chave e de Ruby-Moon do livro mágico e o feito de Marine capturando a carta Chuva.
Marine foi para o balcão e retirou de uma das gavetas uma pequena caixa branca com primeiros socorros e correu de volta para cuidar dos ferimentos de Renato. No inicio o garoto protestou uma pouco, mas concordou ser cuidado por ela, afinal era muito confortante ter as mãos de Marine tocando seu rosto.
Discutiram sobre o que fazer a respeito de Ruby-Moon e Marine colocou-se frente à situação; convencendo a todos que a guardiã ficaria em sua casa, dizendo aos seus pais ser uma grande amiga da faculdade. Após um longo debate a decidiram chamar de Lana, todos entraram em consenso que Ruby-Moon não era uma nome muito comum, chamaria muita atenção.
Assim com Lukas, Ruby-Moon escondeu suas asas e os coques em seu cabelo, tornando uma humana perfeita. Marine trouxe roupas novas, sendo recebidas de bom grado pela guardiã com muita felicidade.
- Bom, agora temos que ir... – disse Renato depois de horas de conversa. – Parece que enxurrada acabou... Rodrigo já deve estar esperando a gente Lukas...
Antes de saírem Renato se lembrou das flores que foram comprar e pediu para que Marine entregasse um grande estoque de rosas amarelas no auditório da universidade. Anotou o endereço em um papel em cima do balcão; demorou um pouco a escrever todo o conteúdo e logo abaixo do local de entrega continha finos traços formandos um seqüência de números. Quando estava na porta pronunciou meio envergonhado: “Meu telefone também está aí... se quiser me ligar... fica a vontade”. Marine rasgou a parte inferior do pedalo do papel e o segurou firme, com as mãos encostadas em seu peito. Renato não conseguiu esconder um grande sorriso de satisfação, que logo foi correspondido por Marine.
A noite surgiu definitivamente a o leste trazendo um mínimo de frio. Após ajudarem arrumar a frente da floricultura de, os garotos foram embora para sua casa; suas calças pouco rasgadas, e ambos machucados, por hora um apoiava-se no outro. Marine fechou a loja, entrando com Lana para a casa aos fundos. No mesmo momento em que entravam foram surpreendidos pelo mesmo cara estranho que passara a tarde inteira em sua casa; Lana e Marine desejaram boa noite e o homem o retribuiu olhando com estranheza para o cabelo da guardiã. Os pais de Marine receberam sua nova amiga muito bem, mais do que previra. Não demorou muito para Marine apresentar toda a família, lhe mostrar a casa e seu quarto, o qual seria o novo lar de Lana por muito tempo. No jantar comeram com voracidade, experimentaram de tudo, e em seguida tornaram exaustas para o quarto.
Havia duas camas, uma delas abarrotada com livros, revistas e CDs, que fora tudo removido por Marine para a amiga poder dormir ali. Passaram horas conversando sobre tudo: moda, tendências, garotos e principalmente sobre as Cartas Sakura. Lana estava muito intrigada com toda a história das cartas, ainda não conseguia ter explicação para o que tivesse acontecido tampouco a ligação dela com Renato.
Não agüentando mais, Lana desmontou na cama e Marine deitou-se também, cobrindo até o pescoço. Olhava com uma pequena luz no seu criado a minúscula chave e a Carta Chuva – agora com as mãos abaixadas, os olhos fechados, todo sinal de hostilidade desaparecido. Dormiu tendo a certeza que depois de uma tormenta vem sempre à calmaria.



Estamos chegando perto do natal... Tempos de festejar e nos tornarmos mais amaveis e amigos. Sempre passamos natais com a familia que parece ser bom, mas será que é bom mesmo?
Esse capítulo vai para os antigos amigos que ficaram no interior, espero que vocês não tenham se esquecido de mim, eu não esqueci de vocês...

Paulo M. Goulart



Cards Infinity
O Lago de Cristal
Capítulo 6
Temporal
Paulo M. Goulart ©2007 – 2008
Finalizada em 19 de Dezembro de 2007

Cards Infinity – O Lago de Cristal
TryMax ©2008
Paulo M. Goulart ©2007 – 2008
História Original: Clamp ©1996; Japão
Alguns nomes e imagens são de autoria do Estúdio Clamp e possuem direitos autorais reservados as autoras. Os demais nomes, tipologias e símbolos são de direitos autorais do autor desta história

Brasil, 2008
Paulo News
Capítulo 5
A Prova Final

Paulo M. Goulart, ©2008

O barulho causado pelas vozes de Renato e Marine ao mesmo tempo assustaram um Lukas distraído fazendo-o soltar uma grande exclamação e derrubar um pequeno vaso de azaléia, que por sorte não se quebrou ao cair no chão.
- O que...!? Quem...!? Quando...!? Onde...!? É uma Carta Sakura...!? Onde ela está...!?
Marine e Renato nem deram atenção ao que Lukas tinha feito e ao que perguntava.
- Você é a garota que estava em meu sonho...
- Não... Você é que é o garoto que estava em meu sonho.
Ambos ficaram mais confusos do que já estavam. Calaram-se um pouco para poderem organizar suas perguntas. Passaram-se minutos de silencio, a única coisa que se ouvia eram os pingos de chuva batendo na porta e no telhado. Agora Lulas os observavam com muita atenção para não perder nada da cena. Marine então pronunciou primeiro.
- Você também teve aquele sonho com uma garota em cima de uma torre rosa? – Marine pronunciava as palavras com uma grande velocidade, que elas saiam quase emendadas.
- Sim tive... E você... E você... Estava lá...
- Você Também estava no meu sonho, – Marine pensou mais um pouco e completou – você e mais uma grande fera vermelha.
Renato olhou imediatamente para o guardião, agora bastante atento a toda conversa. Pela primeira vez Lukas falou, quebrando o dialogo eufórico dos adolescentes.
- Do que vocês estão falando? – perguntou Lukas, fazendo expressões de ansiedade se revelar em seu rosto claro.
Lukas fitava Renato e Marine tentando arrancar alguma informação dos dois garotos. Mas nada acontecia... Apenas recebia um olhar indagador de Renato e o confuso de Marine.
Renato quebrou o silencio que se formou entre eles. O som da chuva se tornara cada vez mais forte, agora misturado com o barulho das arvores remexendo lá fora.
- Lukas... Eu tive um sonho antes de tudo isso acontecer... – Renato tentava procurar as palavras para explicar tudo ao guardião que esperava impaciente por respostas. – Um sonho com uma garota em uma grande torre rosa...
- Tinham cartas que caiam do seu... – Marine o interrompeu – você também viu isso...?
Renato não respondeu, apenas lembrou-se da carta vento e do livro guardados em sua mochila as suas costas. Voltou-se novamente para Lukas, tentando terminar de lhe dizer sobre o sonho.
- Você estava nesse sonho... – olhou fixamente para Lukas, e este retribuía com um olhar serio e concentrado. – Você, mais três garotos e mais três guardiões...
- Renato!!! Isso é uma coisa muita séria... No passado a antiga Card Captor também tinha sonhos que serviam como premonições. – Lukas começou a levantar o seu tom de voz, fitando seriamente o outro – Você devia tem me contado isso, não devia ter escondido...
- Eu ia lhe contar, mas esqueci... Ontem você já dormia quando eu lembrei e hoje teve os trabalhos da faculdade e o Rodrigo... Desculpe-me Lukas... Prometo que não se repetirá novamente, contarei qualquer informação que possam ajudar a localizar as cartas...
- Devia ter me acordado... Qualquer pista que tivermos será de vital importância... Precisamos capturar as 51 Cartas Sakura que faltam, antes que elas causem algum acidente nesse mundo...
Marine escutava tudo com muita atenção, sem nem piscar para não ter o risco de perder nada. Mas decididamente não estava entendo o que estavam falando. O som da conversa dos garotos estava ficando quase inaudível à medida que o som da chuva crescia sobre o telhado. O frio agora era maior que antes e a ventania havia aumentado drasticamente. Todos ali da floricultura nem notaram o instante que uma das árvores do outro lado da rua tinha caído e estava sendo arrastada pela enorme correnteza que se tornara a enxurrada, a essa altura já ocupando toda a dimensão da rua.
- Me desculpe, mas... – Marine interrompeu, procurava por respostas. A discussão sobre contar ou não contar dos garotos já havia lhe enchido a paciência. – Do que vocês estão falando...!? – Falou um pouco alto para que pudessem escutá-la – Ainda estão nesse mundo, ou enlouqueceram de vez...?
Lukas e Renato, agora em consenso, se viraram a encarar Marine, que segurava uma das flores rosa que estava postada sobre o balcão. Lukas não pode deixar de reparar em seus grandes cabelos negros e os tons azuis de sua roupa. Lembrou-se de como a garota a sua frente se parecia com uma velha conhecida, outro dos quatro guardiões. Renato não tirava os olhos de Lukas, esperando que o amigo lhe ajudasse, a sensação de silencio já estava se tornando insuportável.
- Muito bem... – Disse Lukas pensativo – Mas antes me contem com detalhe o que vocês dois – apontou de Marine a Renato – sonharam na noite passada. Quero ter certeza dos fatos e confirmar o que eu suspeito.
Os dois garotos começaram a contar o sonho para o Guardião com muita ansiedade, às vezes um cortando o que o outro falava. Demoraram um pouco até conseguirem entrar em acordo. Marine não deixava que Renato esquecesse um fato se quer, sua memória era perfeita, parecia um computador humano. Os minutos iam se passando e eles ainda descreviam minuciosamente o sonho, que era ouvido com atenção redobrada pelo loiro. Não pararam de falar nem mesmo quando um forte baque se fez ao longe. Mais uma arvore naquela rua havia caído e estava sendo arrastada pelo rio que fora formado pela chuva. Incessantes e detalhistas, chegaram ao fim do sonho com suas observações particulares e uma delas em comum.
- Tinha um garoto escorado em um poste de sustentação de algo que eu não lembro o que era...
- Um jardim suspenso... – atropelou Marine – Era nisso que ele estava escorado
- É... É mesmo. Estava escorado em um poste de um jardim suspenso e o ser ao seu lado se parecia com um anjo. Tinha uns cabelos prateados que lembrava a luz lua.
- Yue... – Foi o que Lukas conseguiu pronunciar, mas não foi ouvido pelos outros dois.
- O mais estranho é que todo mundo ali parecia bem eufórico e surpreso com aquilo tudo que estava acontecendo. Era muito incrível... – Marine falava como se revisse novamente aquele momento. – Mas esse garoto nem demonstrava alegria e satisfação, estava em outro mundo... O sonho já é outro mundo... Ah sei lá... – Marine perdera um pouco de controle ao falar – Para dizer a verdade nem sei o que estou fazendo... Contando um sonho que eu tive a duas pessoas que eu nem conheço.
- Então Lukas...? O que acha...? – Renato agora estava impaciente – Dá para descobrir algo através disso...?
- Pouco provável... O que vocês me contaram não ajuda a encontrar as Cartas Sakura... Isso foi apenas um sonho, mas encarem-no como uma premonição... – Lukas olhava fixamente para Marine, que retribuiu a expressão – De alguma forma vocês tem algum elo que os une a uma coisa em comum... Vocês e mais dois garotos.
Fechou os olhos suavemente, depois os abriu encontrando as Azaléias bem colocadas a um estante. Tinha confirmando o que suspeitava: não havia só um Card Captor, mas sim quatro. Onde eles estariam, onde...? Onde...?
- E quanto aos outros guardiões? Quem são eles...? – Perguntou Renato que não agüentava de tanta curiosidade, tirando o guardião das suas reflexões, trazendo de volta ao mundo real.
- Pela descrição que me deram devem ser Spinel, Ruby e...
- E quem...? – Marine o atropelou com a pergunta. – Você não sabe quem é o outro...?
- Yue...
- Spinel... Ruby... E Yue... Onde eles estão...?
- Ta bom... Já escutei asneiras de mais... Só posso ter ficado louca. Bem que minha mãe me disse para não ficar lendo muito sobre essas plantas orientais... Isso é o que dá... Agora me aparecem dois estranhos dizendo um monte de coisa sem lógica... Eu realmente devo estar ficando louca...
- Você não está louca... Qual é mesmo o nome que você disse que se chamava...? – perguntou Lukas, disposto a esclarecer suas duvidas.
- Eu não disse... Nem me apresentei, vocês não deram tempo. Chegaram já falando do sonho e depois de umas cartas e guardiões... Como queria que eu me apresentasse...? Telepaticamente...?
- Então Marine, você não está louca... Você teve um sonho que na verdade é uma espécie de premonição lhe avisando sobre a missão que você teria a cumprir. E não foi só você que sonhou isso. Se eu estiver certo mais quatro pessoas também sonharam e receberam a missão de capturar as Cartas Sakura.
- Mas que coisa... Vocês dois estão a horas falando sobre essas tais Cartas Sakura... O que têm elas? E como assim, têm que ser capturadas. – Marine já totalmente irritada, com umas das veias em sua testa já visível. – Afinal que coisas são essas...? Isso só pode ser uma brincadeira que armaram para mim.
- Não é palhaçada nenhuma Marine. – Renato tomou a frente e começou a explicar para ela. – Lembra as cartas que estavam caindo do céu naquele sonho?
- Lembro sim, e daí...?
- Bem essas cartas... - Renato olhou para Lukas pedindo ajuda, tentando fazer o amigo lhe confirmar com a cabeça se poderia dizer tudo a Marine.
- Não vejo problema em contar tudo a ela. Acho que de um jeito ou de outro ela acabará sabendo e descobrindo tudo sobre as Cartas e seus poderes. É melhor que contemos agora para evitar que caia de susto assim como você... – Lukas deu uma leve risada ao terminar a ultima frase. Renato olhou com um olhar mortal, assim como cedo, teriam disparado lazers um ao outro.
Renato tomou um pouco de fôlego criando coragem e contou tudo o que aconteceu para Marine. O dia anterior não fora nada agradável, ainda tremia um pouco em se lembrar da sensação da biblioteca. Descreveu como encontrou o livro e como, por acidente, libertou todas as cartas que estavam presas em seu interior. Às vezes era ajudado por Lukas, pois Renato esquecia alguns detalhes que mereciam atenção. Marine ouviu tudo perplexa. Não sabia se acreditava ou não, mas tendia a não acreditar. Tudo era muita fantasia para ela. Ficou petrificada quando Renato lhe contou sobre a carta vento e como que a capturou. Cada vez mais Marine duvidava da realidade dos fatos. Já estava pensando que tudo isso não se passara de uma pegadinha. Mas como podia ser/ ela mesmo não contou seu sonho a ninguém. Não havia possibilidade de estarem brincando com ela. Por fim Renato chegou ao final de sua mini aventura, contando também sobre a chave que se tornara um báculo mágico que serviu para capturar a carta que fugiu. Isso foi o fim para Marine, já não sabia mais o que pensar... Tinha quase certeza que só podiam estar brincando com ela.
BAM!
Mais um estrondo foi ouvido na rua, dessa vez não muito longe. Uma terceira árvore havia caído próximo a floricultura com a força da chuva. As fiações da avenida estavam se danificando com a enorme ventania, causando constantes curtos-circuitos e pequenas explosões na em alguns postes de energia. Decididamente a chuva estava ultrapassando os limites e perdera o controle. Destruía tudo a fora, não era algo normal, a simples chuva já se tornara uma tormenta. Não era ouvidos trovões e nem raios eram vistos, apenas água e vento agiam. As ruas se tornaram grandes rios, as vazões que se encontravam próximo as esquinas eram insuficientes para suportar todo aquele volume de água que passava, ficando intransitáveis. Não demorou muito que água alcançasse as casas, invadindo-as e destruído os lindos jardins das suas frentes. Nada era percebido pelos garotos dentro da Floricultura, que estava em um nível maior que as demais casas, por isso a água ainda não chegara a invadir o estabelecimento.
TAC! TAC! TAC! BAM!
Os fios de um dos postes entraram em contato causando um grande curto-circuito, em seguida originando uma explosão. Vários fios de alta tensão se soltaram dos pinos que os prendiam e outros simplesmente arrebentaram caindo na água. O fato foi o suficiente para deixar a rua toda sem energia, mas isso não era o mais grave. Os fios que caíram na grande enxurrada causaram mais curtos e em conseqüência a tornaram eletrificada. Todos que se encontravam ali estavam totalmente ilhados.
- Vocês estão loucos... E ainda por cima querem me deixar também... – Marine falava com ironia em sua voz. Saiu decidida do caixa e foi em direção aos garotos para ficarem frente a frente. A flor rosa que segurava caiu no meio do pequeno percurso. – Não esperam que eu acredite nisso, esperem!? Já está virando uma brincadeira sem graça, é melhor vocês pararem, não está me fazendo muito bem. Se ao menos pudessem me comprovar tudo isso... Ah céus...! O que estou dizendo...? É claro que eles não podem comprovar isso...
- Não é uma brincadeira... Estamos falando sério... Custa você acreditar...!? Renato já se alterara e não tentava esconder sua ira.
- Para dizer a verdade, sim! Sim, me custa acreditar nisso tudo...
- E temos como provar – desta vez foi Renato que cortou o que Marine falava. – O que você me diz disso aqui!?
Renato retirou de dentro da camisa a pequena chave em forma de sol presa à delicada corrente e mostrou à Marine. A garota não fez nenhum sinal de surpresa, apenas chegou mais perto e apanhou o objeto ainda preso no pescoço de seu dono.
- O que é isso...!? Que estranho... Se parece com uma chave que segurei em meu sonho... Mas a minha era diferente...
- É claro... – Lukas agora tomava a frente. – Existem quatro tipos de chaves diferentes e conseqüentemente quatro báculos diferentes...
Marine olhou na palma de sua mão vendo a pequena marca. As finas elipses entravam em harmonia com um circulo, formando um lindo desenho.
- Mas o que isso tem haver? Isso é só uma chave... Você pode tê-la pegado em algum lugar e agora está afirmando que é a mesma do seu sonho... Não vai conseguir me enganar com isso...
- Tem razão... A chave não servirá de nada para fazer você acreditar, só eu vi no meu sonho, assim como você só viu a sua. – Renato replicou colocando-a novamente dentro da camiseta. – Mas tem outra coisa... Acho que isso será o suficiente...
Renato retirou a mochila presa às suas costas, abriu o zíper começando a procurar um conteúdo que tinha colocado ali mais cedo. Entre vários papéis e canetas encontrou um grosso livro rosa. Protegendo, dentro dele, uma única Carta Sakura. Entregou-o a Marine, agora muito ansiosa para pegar o livro das mãos do garoto.
- Reconhece alguns dos símbolos?
O coração da garota falhou uma batida ao ver entalhado na capa o mesmo símbolo que tinha na ponta da sua chave e a marca na sua mão. Passou os delicados dedos sobre a figura, contornando toda sua forma e contemplando a imagem. Uma estranha sensação passou pelo corpo da garota, calafrios e arrepios a invadiram fazendo soltar o livro, deixando cair no mármore perto a um vaso de bromélia. Ao encontrar a superfície lisa e fria do chão a capa se soltou do feixe que a prendia, soltando pequenas faíscas vermelhas, revelando o conteúdo em seu interior. Marine viu do alto a única carta guardada. Abaixou-se para examinar com mais cuidado o artefato mágico. Encaminhou sua mão tremula até a carta e a pegou. Tudo veio como um furacão em sua cabeça...
- Essa carta... Foi a que passou perto do meu rosto, a mesma que eu tentei pegar...
- Então... Agora acredita? – Renato a olhava com ternura e pedia a difícil compreensão da garota. – Estamos falando a verdade... E para a carta e o livro não existe nenhum contra-argumento que você possa usar.
Os garotos estavam certos. Não havia como contra-argumentar. O fato era que ela estava segurando a carta que tentou agarrar na noite passada e no livro havia o mesmo sinal da palma da sua mão esquerda. Mas ainda era muito estranho tudo o que estava acontecendo...
Marine foi se mergulhado em uma tempestade de pensamentos e teorias. A ciência convencional e física lhe impedia de acreditar nisso tudo, mas seu coração e sua alma lhe forçava a acreditar e aceitar essa verdade como parte da sua vida. Mas por quê? Por que ela? Perguntava-se o que eu tinha a ver com isso. Por mais que tentasse as respostas não lhe surgiam, foi uma das poucas vezes que não soube o que dizer.
- Marine... – Lukas colocou a mão sobre o ombro da garota, tentando ajudá-la a compreender. – Essas não são simples cartas. Cada uma delas possui uma magia diferente que se baseia em diferentes entidades da natureza...
- Por favor... – Marine disse com os olhos cheios de lágrimas – Vão embora, isso não tem mais graça... Eu não sei como vocês descobriram tudo isso... Mas agora já perdeu a graça... – Marine se desabou no choro, colocando suas mãos sobre o rosto.
- É melhor irmos embora Lukas, já não há nada que possamos fazer... Nossa presença aqui está fazendo mal a ela. – Remato disse se agachando e pegando o livro e a carta nas mãos de Marine, guardando tudo novamente dentro da mochila.
Marine se levantou e enxugou o rosto com uma manga da sua camiseta azul claro. Ainda não conseguia digerir toda essa história. A confusão dentro da sua cabeça era tanta que nem notou que mais uma árvore, a quarta, fora tombada na rua e, assim como as outras, estava sendo levado pela correnteza. O coração de Marine pedia para que acreditasse em toda essa história, mas estava sendo muito difícil, pedia apenas mais uma, uma única prova concreta de que tudo o que Renato contara com a carta vento fosse verdade. Pareceu, por um pequeno instante, que Lukas pudesse ter lido os pensamentos de Marine. Sua boca abriu, cortando mais uma vez o silencio formado por aquele pequeno grupo.
- Você precisa de mais uma prova Marine...? É isso que você quer? Mais uma prova...? – perguntou para a garota com um tom meigo.
Marine não respondeu nada, apenas assentiu com a cabeça. Seus olhos, agora secos, suplicavam por mais uma prova.
- Não há nada que podemos fazer Lukas, vamos embora... Não vamos perder tempo aqui. – Renato já se dirigia para porta, quando foi parado pela voz de Lukas:
- Espere Renato... – Lukas segurou em um dos braços do garoto e o puxou de volta – Na verdade ainda há uma coisa a fazer...
- O que!?
- Mostre a ela...
- Mostrar o que...?
- Use o báculo e carta vento.
Uma esperança saltou do fundo da barriga de Renato. Tinha mesmo uma prova a mostrar e com certeza bastante convincente.
- É CLARO!!! Como não pensei nisso antes, me esqueci completamente... – Virou-se para Marine – Agora você vai acreditar, não tem nem como fugir ou inventar alguma desculpa.
Marine viu Renato tirar novamente o livro de dentro da mochila. Com cuidado pegou a carta vento dentro dele, ia usar a magia para comprovar toda a história para Marine. Deixou os objetos mágicos aos cuidados do amigo e com suas mãos livres tirou a chave de dentro da camisa.
Renato ia começar a pronunciar as palavras mágicas para transformar a chave em báculo, mas um forte estrondo chamou a atenção de todos ali dentro. Um dos postes da rua tombou sobre um carro estacionado na calçada. Os fios se romperam, causando mais curtos e mais explosões. Assim como no outro poste de energia, os fios caíram na água, tornando-a mais eletrificada.
- O que foi isso...? – Marine perguntou assustada, esperando que alguém soubesse lhe responder. – Parece que foi lá fora...
Marine foi em direção a porta da floricultura e a abriu com dificuldade. Ao olhar o lado de fora ficou perplexa e muito surpresa.
- Meu Deus... O que está acontecendo aqui...
Com o espanto e as palavras de Marine fizeram com que Lukas e Renato fossem ao seu encontro. Ao chegarem à porta e ver toda a rua alagada, arvores e postes caídos as suas expressões se igualaram a de Marine.
- Nossa!!! O que aconteceu aqui... – Renato falou enquanto via algumas latas de lixo serem levadas pela correnteza. – Como vamos embora.
- Essa chuva parece mais um dilúvio...
Lukas nem completou o que ia dizer quando sentiu uma estranha sensação. Não foi só ele, pois logo em seguida Renato e Marine também sentiram o mesmo.
- Lukas... É uma... – Renato olhou surpreso para Lukas e este retribuiu.
- Sim... Eu também senti a presença de uma Carta Sakura aqui por perto.
- Uma carta aqui...? – perguntou Marine saindo da loja, ficando no ultimo degrau da escada, onde o nível da água ainda não havia alcançado. – Onde... Não estou vendo nada... Querem se aproveitar dessa chuva para voltar novamente a esse assunto das cartas...
Renato e Lukas a seguiram, ficando os três no mesmo lugar. A tenda presa na parede não deixava que se molhassem. Dava para notar com o nível da água subia rapidamente, invadindo casas e destruído os jardins...
- AHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!
Marine deu um enorme grito fazendo Lukas dar um salto de susto e Renato se afastar para trás...
- Meu... meu... meu jardim... Meu jardim... – Marine estava quase sem fala, ficando cada vez mais muda – Todo... todo... des... des...truído...
A cena do seu jardim sendo destruído pela enxurrada quase a deixou em estado de choque. Ficou paralisada por alguns instantes e mal conseguia pronunciar uma palavra se quer.
- Meu jardim... destruído... Eu não acredito... o quanto eu cuidei dele, e agora todo... destruído.
- Sentimos muito Marine... – Renato sentiu a necessidade de consolá-la, chegou mais perto. – ajudaremos você a construir outro e não fique triste por que...
- O que é aquilo!? – Marine nem deu ouvidos ao que o outro falava. Levantou abruptamente o braço, batendo as costas da mão no nariz de Renato, golpeando seu rosto.
Renato se afastou um pouco e levou a mão ao seu nariz. Umas gotas de sangue começaram a cair em sua roupa. Ainda meio tonto com a pancada falou alguma coisa entre exclamações e pequenos gemidos...
- Você me acertou legal...
Marine ainda olhava fixamente para o céu, apontando para um pequeno ponto que se aproximava em zig-zag. Ia de um lado para o outro e cada vez que mudava de posição a intensidade da chuva se alterava, ora mais forte ora mais fraca. Ao se aproximar os contornos se tornaram visíveis dando forma a uma garota toda vestida de rosa, com grandes gotas ornamentadas em sua roupa e um gorro dançando nas gotas da chuva.
- Isso é... – Marine tremia dos pés a cabeça ao ver àquela cena bizarra – É uma... Uma garota...? Mas como... Como uma garota pode estar...
- Isso não é uma simples garota...! É uma... É uma carta Sakura...!!! – Lukas elevou o seu tom de voz, trazendo de volta a realidade um Renato ainda choroso com as mãos no nariz ensangüentado. – ... Renato, rápido... A chave... Pegue a chave...
Renato ainda estava meio confuso com tudo o que acontecia; seu nariz doía muito e não parava de sangrar, sentiu uma pequena poça se formar na sua mão que aparava as gotas que a caiam. Com a outra mão livre invadiu sua camiseta procurando a minúscula chave com muita pressa para poder transformá-la em báculo. As palavras saíram quase em um murmúrio de sua boca:
“Chave que guarda o poder do Sol, mostre seus verdadeiros poderes sobre nós. E os ofereça-os ao valente Renato que aceitou essa missão... Liberte-se!”
Marine viu, a sua frente, a minúscula chave desaparecer dando lugar a um magnífico báculo com um sol na sua ponta. A carta se aproximava dançando pelas gotas da chuva e a estranha sensação que sentia tornou-se mais forte. Ficou completamente aterrorizada e estarrecida. Percebeu como Renato tinha certa familiarização com o artefato e como o manuseava com destreza. Sentiu-se encurralada em seus próprios conceitos sobre ciência e física, muitos que havia dedicado anos de sua vida os organizado em sua cabeça. Agora não havia como duvidar da veracidade dos fatos. Realmente existiam as tais cartas Sakura e realmente a chave que Renato lhe mostrou tornara um báculo com raios saindo em todas as direções da sua ponta...



Quinto capítulo! Bom, agora que ando mais livre vou sempre postar, isso se eu não achar outra coisa para fazer... rsrs
Esse capítulo vai para uma amiga muito especial, Luana te adoro de mais sua doida!

Paulo M. Goulart



Cards Infinity
O Lago de Cristal
Capítulo 5
A Prova Final
Paulo M. Goulart ©2007 – 2008
Finalizada em 15 de Dezembro de 2007

Cards Infinity – O Lago de Cristal
TryMax ©2008
Paulo M. Goulart ©2007 – 2008
História Original: Clamp ©1996; Japão
Alguns nomes e imagens são de autoria do Estúdio Clamp e possuem direitos autorais reservados as autoras. Os demais nomes, tipologias e símbolos são de direitos autorais do autor desta história

Brasil, 2008