Paulo News
Capítulo 3
Vento

Paulo M. Goulart, ©2008

A expressão de Querberos estava mudando drasticamente. O semblante alegre e atencioso se transformou em sério e pensativo.
- Como você conseguiu abrir este livro? – olhou seriamente para Renato, proporcionando-lhe certo medo.
- Me desculpe. Mas o livro abriu sozinho soltando algumas faíscas violetas. – falou como um sussurro esperando uma bronca e uma briga.
- Sozinho...? – Querberos ficou ainda mais pensativo. – Isso quer dizer que você tem um tipo de magia, se não, não teria aberto...
- Você está enganado... Não há como eu possuir uma magia...
- Não estou enganado - agora encarando Renato, que recuou um pouco – se você conseguiu abrir esse livro e ativar uma Carta Sakura é porque deve existir alguma magia em você.
Renato estava mais pensativo do que nunca. Sua mente estava em uma profusão desordenada de idéias. Magia? Será que seria ele mesmo? Uma pessoa que nunca havia acreditado em magia, em seres mitológicos e fabulas. Agora se via diante uma situação que o punha aprova os seus conceitos. Seus olhos se intercalavam entre Querberos e a criatura que havia voltado a voar sobre suas cabeças com movimentos suaves e leves, proporcionando uma suave brisa.
Querberos não pronunciava uma palavra se quer. Perdidos em seus pensamentos nem havia notado a criatura no teto da sala. Havia escorado no sofá que estava ao seu lado. Com os olhos fixos no livro rosa notava-se sua apreensão.
- Mas e agora? Como vou encontrar todas as cartas Sakura? – suas feições demonstravam tristeza e desanimo ao falar.
- Sabe... – Renato criou coragem. E Querberos o correspondia com atenção. – Nem todas as cartas saíram voando e desapareceram... Ainda sobrou essa aí – apontou para o teto, onde a criatura deslocava em um ritmo leve.
- Ah... É mesmo... Nem tinha notado... – olhava para o alto enquanto um sorriso emergia em sua grande boca. – Essa é a Carta Vento...
- Carta Vento?
- Sim. Todas as Cartas Sakura não são simples cartas. Todas possuem vida própria, sentimentos e uma aparência. Não são apenas simples cartas mágicas, também são seres reais.
- Ah! Sim... Agora está explicado por que ela abriu os olhos dentro da carta – lembrou-se do momento em que a carta ganhou vida – Mas ela vai fica aí por muito tempo?
- Não. Você precisa aprisioná-la para voltar ao estado de carta e assinar seu nome nela para que não saia novamente e obedeça a suas ordens.
- Mas como eu faço isso? Acho que ela não vai atender o meu pedido se eu falar.
- Você precisa aprisioná-la com sua magia, usando o Báculo Mágico...
- Já lhe disse que não tenho nenhuma magia. Deve ter havido algum engano, não possuo dons ou coisa do tipo – falava com firmeza, demonstrando que estava certo de sua afirmação.
- Vou lhe provar que estou falando a verdade...
Querberos, com sua pata, empurrou o livro para o centro da sala. Começou a se concentrar, não dando atenção aos protestos de Renato. Uma aura amarela começou a emanar do corpo de Querberos. Ao mesmo tempo uma aura de cor idêntica saia do livro, colocando os dois, guardião e livro, em sincronia.
- Oh, poderosa chave que guarda os poderes do passado. Permita que este valente jovem possa usá-la para proteger o mundo das catástrofes.
De onde podia ver o desenho do sol, na capa do livro, um objeto saiu com leveza e com uma luz amarela. Flutuou até suas mãos. Na medida em que se aproximava tinha certeza do que se tratava. O objeto depositou-se em suas mãos. Não tinha mais dúvida, se tratava da chave em forma e sol que segurava em seu sonho. Ao pegá-la a marca, em sua mão, desapareceu. Tinha um calor agradável. Podia sentir aquele pequeno objeto, trazendo-lhe a sensação de magia preenchendo seu corpo. Olhava-o com muita atenção, tentando saber de que era feito aqui, mas não chegava a nenhuma conclusão. Pequenas faíscas saiam da chave, parecia ter o aceitado como portador.
- O que eu faço agora Querberos? Como eu vou aprisioná-la? – apontou para Carta Sakura no alto.
- Concentre-se. Primeiro você deve transformar a chave no Báculo do sol – suas expressões já estavam mais suavizadas. – Seu Eu interior saberá o que fazer. Basta apenas se concentrar.
Renato começou a olhar fixamente para a chave em suas mãos. Não sabia o que ia fazer, tinha quase certeza que decepcionaria Querberos. Toda sua vida tinha sido assim. Impunham - lhe objetivos que não era capaz de alcançar. Seus olhos não piscavam. Sua mão, estendida a frente, já dava sinais de cansaço. Sua concentração e o contato com a chave parecia não surtir nenhum efeito.
Estava prestes a desistir, não estava acontecendo nada. Querberos havia se enganado. Estava disposto a devolver a chave ao guardião quando alguma coisa começou a acontecer. No interior de seus pensamentos sentiu algo se formar. Palavras surgiam em sua mente formando frases. Estavam prontas para serem ditas e expulsas de sua boca com clareza.
- Chave que guarda o poder do Sol. Mostre seus verdadeiros poderes sobre nós. E ofereça-os ao valente Renato que aceitou essa missão. LIBERTE-SE!!!
A chave, antes parada em suas mãos, levantou-se acima da mesma, flutuando até atingir a altura de seus olhos. No mesmo instante a insígnia mágica tornou a aparecer sob seus pés. Desta vez o sol ocupava o centro e nas laterais estavam a estrela e a lua. A chave começou a girar em todas as direções e entrar em ressonância. Feixes de luzes e um brilhante pó saíram da insígnia que girava chegando até atingi-la, aumentando mais sua vibração.
A chave foi se alongando e as pontas do sol se tronaram maiores do que eram, fugindo da proporcionalidade. Os dentes desapareceram, dando lugar a uma empunhadura com anéis vermelhos na sua ponta. A pequena haste que ligava o sol aos dentes aumentou rapidamente de tamanho. Em segundos a chave havia deixado de existir, dando lugar a um báculo com um grande sol na ponta. Seus raios solares saiam do centro, formando projeções pontiagudas e divergiam em todas as direções, iluminando grande parte do ambiente.
O báculo seguro em suas mãos parecia um sonho se tornando realidade. Fora provado evidentemente que possuía um indicio de magia. Seu corpo entrou em um estado de tranqüilidade, parecia que havia uma ponte de ligação entre o báculo e ele.
- Agora você precisa capturá-la e assinar o seu nome nela para que lhe obedeça. Concentre-se novamente e saberá o que deve se feito.
Com os olhos fixos na carta voando ao alto, Renato concentrou-se novamente. Com mãos firmes no báculo mágico aproximou-se observando cada movimento executado pela carta. O corpo agora apresentava uma flexibilidade maior. Seus pensamentos novamente buscavam uma resposta no seu subconsciente para poder capturar a carta. Não demorou muito que viesse. Novas palavras forma formando novas frases e estavam prontas para serem expelidas novamente. Levantou o báculo acima de sua cabeça e o desceu em direção à carta.
- Volte à forma humilde que merece... Carta Sakura!
No instante seguinte uma carta vazia apareceu na ponta do báculo do sol e uma forte corrente de ar começou a puxar a carta para dentro da unidade vazia. Todas as correntes de ar, brisa e qualquer vestígio daquele ser estava sendo aprisionados na carta vazia. Não demorou muito para que toda a entidade se transformasse por completo.
Foi caindo lá de cima, agora presa. Tinha a mesma forma de antes. Como uma força mágica, a carta fez um contorno no ar caindo na palma de sua mão. A mulher estava igual à antes, entretanto tinha uma feição diferente expressando um contentamento. Tudo havia acabado. A carta havia sido capturada e os problemas terminariam. As sensações e sonhos terminariam. Pensou em varias coisas enquanto voltava indo até Querberos entregar a carta para ele.
- Aqui está, espero que esteja tudo certo. – entregou-lhe a carta com a mão e com a outra se apoiou no báculo.
- Não é minha. Agora é sua... Você a capturou! Você é quem tem o direito de usá-la. Alem do mais acho que vai precisar muito dela para capturar as outras.
Renato se detinha em contemplar a carta até ouvir o que Querberos dizia.
- O que... O que você ta dizendo? Como assim capturar as outras?
- É claro... Acha que existe só essa Carta Sakura? É claro que não. – Querberos assumiu uma posição irônica ao falar com Renato. – São, no total, 52 cartas Sakura. Agora que já capturou a primeira ainda faltam mais 51.
- Você ta louco? Como acha que vou conseguir capturar todas essas cartas? E por que eu tenho que fazer isso?
- Seria por acaso por que você as libertou...?
- Bem, mas foi um acidente e...
- Não importa. O que importa agora é que as cartas estão livres e podem fazer o que quiserem. Isso é preocupante... Existem cartas dóceis, assim como essa. E outras extremamente agressivas. – Querberos falava em um sussurro, aprofundando ainda mais o seu pensamento – Elas podem transformar o mundo em um verdadeiro caos...
- Quer dizer que eu tenho que capturá-las por que as libertei? Mas e você...? É o guardião, por que não as protegeu e deixou que escapassem?
-... Bem... É que... Sabe, já tinha muito tempo guardava as cartas e... Então eu dormi um pouco...
- Por quanto tempo você dormiu?
- Acho... que uns 30 anos...
- O que!!!? 30 anos? – Cruzou os braços e fechou a cara, lançando um olhar ameaçador. – Você dorme por 30 anos e ainda quer que eu capture todas as Cartas Sakura? Era seu trabalho guardá-las, eu não vou fazer isso...
- Já disse – Querberos levantou-se lançando um olhar feroz para Renato – Os únicos que podem libertá-las são aqueles que possuem magia. Você conseguiu, agora é seu dever aprisioná-las novamente. Quer que o mundo caia em desgraça?
- Não, me desculpe. É que sempre sou encarregado de missões que não dou conta. Não vou conseguir capturá-las. Não sozinho...
- Ei, não fique triste ou desesperado. Quem disse que você estará sozinho? Eu estarei ao seu lado ajudando-o. Não se preocupe, vou ajudá-lo a capturá-las. – Querberos estava docilmente deitado sobre as patas no chão da sala, olhando com ternura para Renato tentando lhe passar confiança. – Por falar nisso, qual é seu nome?
- É mesmo... nem me apresentei. Mas com tudo o que aconteceu não tive tempo para pensar nisso. Meu nome é Renato Kazushi, muito prazer Querberos.
- Eu também estou feliz por conhecer você. Mas agora você deve assinar seu nome na carta, para evitar que escape novamente e obedeça a suas ordens.
Renato procurou em meio à bagunça por uma caneta azul que tinha visto quando a ventania começou. Encontrou-a a um canto entre papeis e vidros quebrados. Retirou sua tampa ao pegá-la e segurou firmemente a carta, assinando o seu nome na parte inferior. Pronto, tudo havia terminado, pelo menos por hoje.
A sala estava um bagunça. Papeis e vidros espalhados por todos os lugares dificultava o trafego por ali.
- Querberos, será que você poderia me ajudar a arrumar a casa? Se o Rodrigo chegar e encontrar todo desse jeito é capaz dele entrar em coma ou me expulsar daqui...
- Claro, eu te ajudo sim. Mas quem é Rodrigo? – Perguntou olhando fixamente para Renato, que ficou meio incomodado, esperando por uma resposta.
- Eu não moro nessa casa sozinho. Divido com um amigo, o Rodrigo, que é super gente boa, mas adora pegar no pé das pessoas. Ele é muito preocupado...
Passaram o resto da tarde limpando a casa. A quantidade de bagunça ultrapassou o previsto e gastaram bem mais tempo do que o imaginado. Não foi nada fácil. Querberos tinha um certo dom para o desastre. Terminaram por volta das 7 da noite. Exaustos e sujos, descansaram no quarto de Renato.
- Pelo jeito você gosta muito de ler... – os olhos de Querberos passavam por entre os livros da estante a um canto do quaro.
- Um pouco... Sou estudante de química, então tenho que ler um pouquinho...
Uma grande duvida surgia na cabeça de Renato que o fazia tremer de pavor só em pensar.
- Querberos, como vou te esconder, você não pode ficar aqui desse jeito. Se o Rodrigo ou outras pessoas lhe ver ele vão morrer de susto e isso complicaria muito, não temos feras assim como você aqui nesse mundo. E agora...? – Falava andado de um lado para o outro no quarto procurando por soluções, mas nada lhe vinha à mente.
- Eu sei como é... Da última vez eu também não podia aparecer, então me transformava em um pequeno ser que lembrava um boneco de pelúcia. Mas acho que um boneco não ficaria bem para você, alem do mais eu posso correr muito risco estando dessa forma. – o vento que entrava pela janela aberta balançava os seus pelos – O que acha deu me transformar em um humano?
- Você pode fazer isso? – Um ar inconfundível de curiosidade estampava seu rosto. – Se puder será perfeito. Assim explico ao Rodrigo que é um amigo que veio passar um tempo aqui... Não haverá nenhum problema...
- Claro que posso...
As asas de Querberos encobriram o seu corpo, formando uma grande cúpula. Luzes douradas saiam refletindo em todos os cantos do quarto. Era surpreendente, parecia um enorme ovo que estava eclodindo em sua frente.
As asas foram se abrindo. No lugar da cabeça de fera aparecera agora a cabeça de um rapaz com cabelos loiros e um piercing na sobrancelha. Usava uma roupa que se assemelhava a de um roqueiro, toda preta com detalhes vermelhos. O corpo era bem atlético, com músculos espalhados pelo corpo. Não era tão alto, era do seu tamanho. Querberos abriu os olhos e seus olhos agora eram azuis. As enormes asas foram diminuindo de tamanho até desaparecer completamente em suas costas. A grande fera tinha desaparecido totalmente, dando lugar a um humano totalmente simétrico.
- E aí? Ficou bom? – Perguntava um garroto loiro a sua frente. Tinha a aparência de um rapaz descolado, roqueiro e muito bonito.
- Cara Ficou um máximo... Como você conseguiu fazer isso!? - A cara de espanto de Renato não podia ser maior.
- Nem adianta eu lhe contar... Você não entenderá mesmo. É pura magia... – falava o garoto com uma voz suave, diferente da que era antes.
- É incrível, mudou praticamente tudo. Literalmente.
- Então quer dizer que vai dar para me disfarçar no meio dos humanos...
- Claro... Agora temos que ver um nome... Querberos não é um nome muito comum por aqui...
- É verdade... A antiga Card Captor também me disse isso, então ela me chamou de Kero.
- Kero... Não combina com você agora. Pelo que me contou da outra vez se assemelhava a um boneco de pelúcia. Desta vez você é um humano, não pode ter um nome desses, alem do mais não combina com sua aparência.
Renato pensou um pouco, caminhado um pouco, olhando alguns livros que estavam em sua estante. Por um instante ficou parado frente à janela, contemplando a visão lá fora. Querberos o acompanhava com os olhos para todos os lados. O sol já se punha lá fora, dando lugar as primeiras estrelas que apareciam no céu.
- Já sei... Que tal ser chamado de Lukas? É um nome bem comum e combina com você.
- Hum... Lukas... Gostei, parece muito bom.
- Então ta certo, de agora em diante será Lukas. Falou enquanto dirigia sua mão a ele, que foi apertada selando ali uma grande amizade que duraria por longos anos.
Ficaram conversando até altas horas da noite. Lukas queria saber o que havia acontecido durante todo o tempo que esteve dormindo e guardando as cartas. O papo rendia muito, já estavam completamente íntimos. Conversaram até que chegaram no limite da exaustão. Renato arrumou uma cama em seu quarto para que Lukas pudesse dormir. Já o via como um grande amigo.
- Amanhã falamos com o Rodrigo. Hoje ele tem aula até tarde, não faço idéia de que horas ele chega. - Dizia já deitado em sua cama, preparando para dormir. A coberta já cobria grande parte do seu corpo. – É melhor você se cobrir, a noite aqui é muito fria.
- Tem razão. Agora que falou, está começando a fazer frio mesmo.
Ainda foram conversando até que o sono atingiu completamente Lukas. Este dormiu com uma das mãos sobre o travesseiro. Suas feições estavam calmas e delicadas. Era muito difícil acreditar que antes era uma enorme fera.
Renato lembrou-se do cereal que deixou em cima da mesa...
“Quero ver se ele não irá fazer café amanhã?”
Pela última vez, naquele dia olhava para o livro e Carta Sakura em cima da sua escrivaninha. A chave estava ao seu lado do livro, cuidadosamente colocada a um canto.
Lembrou-se de seu sonho. Da enorme torre rosa, com a garota em seu centro e as cartas que cai do seu. Sabia que capturar todas as cartas não seria uma tarefa fácil, mas ia se empenhar o máximo possível para conseguir. Mas algo muito curioso o pertubava. Agora tinha tempo para raciocinar melhor. Em seu sonho havia três pessoas além dele, as quais a garota havia chamada de Card Captures. Querberos, agora Lukas, também o chamou de Card Captor. Isso significava que haviam outros três capturadores de cartas em algum lugar, esperando o momento de receberem a mesma missão que fora destinado. Pela primeira vez percebeu que aquele sonho da noite anterior não pertencia somente a ele. Mais três pessoas, se estivesse certo, também haviam sonhado. Mas quem seriam eles? Levantou-se rapidamente, sentando na cama para falar com Lukas, mas este já estava completamente perdido em seu sono. “Amanhã falo com ele.” Pensou deitando novamente. Adormeceu, não se esquecendo da duvida que o perturbava.



A primeira Carta Sakura apareceu! Essa é apenas a primeira das muitas que virão! Nossa, realmente, to exausto com tanto vestibular, estudar é preciso para se tornar cada vez melhor.
Esse capítulo vai para Lidiane, Renata, Dayanne e Hugo, colegas do cursinho: estudiosos, amigos e acima de tudo companheiros.

Paulo M. Goulart



Cards Infinity
O Lago de Cristal
Capítulo 3
Vento
Paulo M. Goulart ©2007 – 2008
Finalizada em 08 de Dezembro de 2007

Cards Infinity – O Lago de Cristal
TryMax ©2008
Paulo M. Goulart ©2007 – 2008
História Original: Clamp ©1996; Japão
Alguns nomes e imagens são de autoria do Estúdio Clamp e possuem direitos autorais reservados as autoras. Os demais nomes, tipologias e símbolos são de direitos autorais do autor desta história

Brasil, 2008