Capítulo 6
Temporal
Paulo M. Goulart, ©2008
Temporal
Paulo M. Goulart, ©2008
Tudo aconteceu muito rápido. Em instantes a carta chegou ao patamar onde se encontravam; Marine sobre o degrau maior e Renato preparando para descer e invadir a enxurrada na tentativa de alcançar a Carta Sakura a poucos metros de onde estavam,
- Não!!! – Marine gritou para Renato no mesmo instante que segurou sua camiseta o puxando; ouviu-se um pequeno ruído e um pedaço da manga se rasgando. – Olhe... Ali... – Marine apontava a um dos postes tombado para seus fios caídos na água. – A água deve estar eletrificada, não entre aí, pode ser perigoso... Já ouvi casos de pessoas que morreram...
- Ela tem razão Renato... É muito perigoso – disse Lukas puxando a outra manga da camiseta, desta vez a rasgando completamente na parte superior.
- Mas como vamos chegar até ela, – replicou ele retirando os fiapos da camiseta – para capturá-la eu preciso chegar mais perto... Ou acham que eu vou sair voando pela rua... Ainda não sou o super-homem.
- Eu pensei que vocês sabiam o que estavam fazendo quando me contaram toda a história das cartas... Vocês são loucos... – Marine berrava com os garotos, fazendo-os recuar para trás – Isso é muito perigoso... E vocês não têm um plano... Querem nos matar...
- Não fique assim Marine – Lukas tentava acalmá-la – Renato também ficou desesperado e descontrolado no inicio... Ainda está...
Enquanto discutiam a Carta Sakura sobrevoou uma das arvores em sua volta criando uma enorme tromba d’água da enxurrado até se perder de vista no céu acinzentado; à medida que seu tamanho crescia foi se dirigindo ao lugar onde estavam. Destroçou um dos carros que encontrou em seu caminho, atirando-o a vários metros de distancia; a árvore, ainda presa, pendeu para um lado caindo no centro da rua, seus galhos foram quase todos arrancados e estavam sendo lançados a todos os lados. Uma onda começou a se formar a partir da tromba d’água e ameaçava invadir um lado da quadra, justamente onde os garotos estavam...
- AHHHH!!!! – Marine gritou, mas não tinha ninguém ali para poder socorrê-la exceto pelos garotos...
Ninguém estava na rua em meio aquela destruição em massa, era difícil de acreditar que tudo aquilo fosse causado por uma chuva. O nível da água começou a subir rapidamente, atingindo o degrau onde Lukas e Renato se encontravam. Mal tiveram tempo para subir e Lukas levou um choque quando um pouco de água envolveu seu pé. Os jardins das casas foram todos cobertos pela enchente; a água já atingia cerca de um metro de altura nem por um minuto cessava sua destruição.
A tromba d’água avançava na direção dos garotos com mais fúria que antes; por onde passava deixava somente ruínas. A Carta, girando em torno da água, sorria e se divertia com a cena e o medo que eles demonstravam.
- Lukas! Você está bem...!? – Renato socorreu o amigo que gemia de dor – Está doendo muito...?
- Não se preocupe comigo... Se preocupem com a carta... E não encostem na água... Está mais eletrificada do que eu pensei.
- E agora o que vamos fazer...? A água vai destruir tudo... – Marine estava exasperada com o que acontecia; era difícil acreditar que tudo que ela ajudou a construir, todos aqueles jardins estavam sendo destruídos.
A tromba d’água passou por um carro estacionado na porta de uma loja de doces engolindo-o na imensidão de água...
- O que está acontecendo... – Renato exclamou quando viu o carro sendo puxado e erguido pela força da água até uma altura de uma árvore. - ...o que ela vai fazer...?
A falta de luz ofuscava o vermelho do carro, podendo ver somente um borrão quando rodopiava. A carta apresentava dificuldade para manter-lo suspenso, mas fez o girar mais uma vez e o lançou para onde os garotos estavam.
Marine, Lukas e Renato não acreditavam no que estavam vendo, mas a essa altura seria tolice não acreditar em certas coisas. O carro vinha em suas direções e os ameaçava despertando medo, desespero e surpresa. O carro avançava velozmente sobre as casas e ia caído rapidamente rodopiando pelo ar.
Marine colocou a mão nos rostos e sentiu que esse seria o fim.
“VENTO!”
Renato usou a carta vento no momento mais oportuno que poderia surgir. Uma linda mulher com longos fios de cabelo verde emergiu da carta contornando todo o carro e o parando no ar. Com suavidade o levou para um canto e depositou na rua. Emanava uma brisa suave não muito fria. A outra carta percebeu a presença de Vento e começou a sugar gravetos das arvores derrubadas no meio da rua enchente. Em seguida seguiu um incessante ataque; os gravetos foram lançados da tromba d’água, todos bem afiados, lançado um após o outro, tornou-se uma penca de flechas que se preparava para acertá-los. Antes que pudesse chegar aos garotos a carta Vento sentiu que se dono estava sendo ameaçado, então aumentou sua intensidade transformando em uma ventania formando escudo envolvendo os Cards Captures e o Guardião.
Marine ao ver a carta ganhar vida na sua frente e os salvando ficou mais apreensiva e percebeu o quanto foi tola em duvidar do próprio sonho e do que os garotos contaram.
- O que é isso...? Também é uma carta...? – Marine apontou para a entidade mágica acompanhando-a com os dedos descrevendo círculos pra protegê-los.
- Essa é a Carta Vento... – Respondeu Renato com o báculo a frente e uma carta vazia na sua mão esquerda. – Linda não é...?
- É, mas... E a outra...? – Marine apontou para outra carta acima do monumento de água. – Que carta é essa!?
- É a Carta Chuva. – Respondeu Lukas a um canto ainda gemendo um pouco de dor. – É uma carta bastante poderosa, nunca a vi demonstrar tamanha fúria. Possui como elementos regente a água e o vento... Aí... – Lukas gemeu um pouco ao se levantar – Por isso está fazendo chover desse tanto...
- Nota-se... – Marine replicou. – Como vamos fazer para impedi-la...!? Ela vai destruir tudo...
- Tenho uma idéia... Vento! Aproxime da Chuva e contorne-a...! Tente impedi-la de fazer chover...! – Renato gritava ordens para sua carta que prontamente o obedeceu.
A carta começou a avançar não dissipando o circulo que fazia para proteger os garotos. À medida que Vento aproximava-se, Chuva aumentava seus ataques e alguns começaram a transpor a barreira de ar. Várias pedras se juntaram aos galhos pontiagudos sendo atirados e voando em todas as direções. Vento acelerou para capturar a carta, mas Chuva começou a apresentar resistência colocando mais força em seu ataque.
Chuva percebeu que seria encurralada, com uma atitude inesperada desfez a tromba d’água formando uma grande onda. Aproveitou esse memento para fugir e saiu o mais rápido que pode.
- Agora, Vento!!! Capture-a... Não a deixe fugir...
Chuva correu o mais rápido que pode, mas não foi o suficiente para escapar de Vento. Em segundos ela a alcançou, desfazendo o escudo e criando uma enorme bolha de ar prendendo a Carta Sakura em seu interior.
TAC!!!
Marine e Lukas escutaram o som de algo, um estampido ecoou por ali seguido de passos deslizantes sobre o soalho. Só o que puderam ver foi o corpo de Renato caído lentamente para trás. Um profundo corte surgiu sem sua cabeça, seu corpo perdeu o controle e os sentidos; suas mãos não respondiam mais; sua testa sangrando muito, manchando seu rosto com um tom vermelho brilhante. O báculo do Sol se soltou no ar, caindo em uma moita de visgos próximo a janela da floricultura. Com um grande baque seu corpo encontrou o chão molhado e frio, seus olhos se fecharam antes que pudesse exaltar qualquer exclamação de dor. Uma pedra branca, suja com um líquido vermelho, o mesmo da testa do garoto caiu ao seu lado, denunciando ser o que o atingira.
- Renato!!! – Marine e Lukas gritaram em uníssono ao mesmo tempo em que vieram socorrê-lo.
- Ele desmaiou... – Marine, parecia perita, abriu os olhos do garoto observando suas pupilas, pedindo para que o pior não acontecesse. Com uma mínima exclamação de alivio continuou: - Ele está apenas inconsciente...
Marine sentiu algo estranho, não podia deixar de reparar no suave cabelo do garoto e em seus finos desenhos que davam forma ao se rosto. “Nem percebi o quanto ele é lindo... Mas excêntrico também...”
- Acha que ele vai ficar bem... – Lukas perguntava apreensivo para a garota, seus olhos azuis se encheram de água ao ver o amigo caído e inconsciente.
- Não se preocupe... Ele vai ficar bem... – respondeu Marine não tendo muita certeza no que dizia. – É melhor sairmos um pouco de perto dele... Ele precisa respirar um pouco... – disse se levantando olhando para o alto fitando a carta presa na bolha de ar.
As gotas ornamentais presa na roupa rosa da Carta Chuva agitavam furiosamente seguindo o compasso que a carta fazia para se livrar da prisão. Vento não estava resistindo, seu dono que a mantinha existente por sua magia encontrava-se inconsciente.
- O que faremos agora Lukas...
- Agora é com você Marine, você tem que capturar a Carta Sakura...
- Você está louco... Como quer que eu capture a Carta Sakura... – Marine colocou a mão no peito e a outra apontou para o alto em direção as entidades que se debatiam... – Nem se quer tenho um báculo e...
Marine calou-se ao ver Lukas pegar o livro caído no chão e o entregar a ela. Mas a garota se recusava a pegar. Abalançava negativamente a cabeça recusando o livro.
- Marine... Pegue-o... – Lukas estendia o Livro para a garota e a olhava com ternura nos olhos procurando convencê-la.
E foi o que aconteceu. Marine pegou o livro das mãos do guardião e o abriu. Sentiu uma forte sensação passar por todo o seu corpo. Sentia que algo chamava o seu nome naqueles símbolos da capa. Várias lembranças invadiram sua mente: a garota na torre rosa, o ser com grandes asas de borboleta, as cartas que voavam... e a minúscula chave.
- Eu... Eu... Eu não posso Lukas... Sou incapaz de fazer isso... Eu não posso fazer isso... – Marine estendia de volta o livro para Lukas. – Eu nem sei o que fazer com esse livro. Nem tenho... magia...
- Está enganada...- Lukas a olhou mais fundo – Lembra de quando Renato lhe entregou o livro e você o deixou cair?
- Lembro sim, mas que importância tem isso...?
- Nenhuma... – Lukas cruzou os braços e continuou – Mas você não notou que quando ele caiu o fecho que o prendia se abriu soltando pequenas faíscas vermelhas...?
- Faíscas vermelhas...? – Marine tentou puxar pela memória, mas estava tão difícil como capturar a carta...
- Você pode não se lembra, mas eu vi isso muito bem... – Uma cara de satisfação surgia no rosto do guardião. – Isso quer dizer que você possui algum tipo de magia... caso contrario não teria aberto o livro...
Marine ficou chocada quando Lukas terminou. E então algo lhe ocorreu.
- Lukas... Então quer dizer que você...
- Sim! Sim! – respondeu ele antes do termino da pergunta. – Eu soube naquele instante que você também seria uma Card Capture e que a missão de Renato seria partilhada com você...
- Mas como Lukas...? Como...? Eu não faço nem idéia de onde começar para poder capturar essa carta... – Marine falava em sussurro e pequenas lágrimas escorreram em seu delicado rosto.
- Olhe para o livro e concentre-se... Você terá a resposta... Lukas apontou decididamente dela para o livro, sua face não demonstrava mais ternura e sim desafiava a garota.
Marine olhou fixamente para os desenhos da capa esperando que alguma coisa acontecesse, mas nada acontecia. Seus olhos ficaram mais vermelhos, sua face mais rosada, seu corpo mais fraco. Sentia que estava sendo chamada, mas não tinha forças nem voz para responder. Suas mãos seguravam firmemente o livro, uma de cada lado.
A Carta Vento estava chegando ao seu limite. Prender uma criatura como aquela era moleza, mas sem o auxilio do coração do seu dono lhe dando força, amor e coragem necessária tudo se tornara mais difícil. A Carta Chuva se debatia muito e em questão de minutos conseguiria estourar a bolha de ar e também em questão de minutos a magia de Vento se extinguiria.
Marine ainda olhava fixamente para os símbolos, seus olhos cheios de água não agüentavam mais, não suportava a espera de uma resposta que não vinha. Enquanto isso Lukas se esquecera da garota e dedicava a cuidar de seu amigo, ainda inconsciente no chão. Marine não suportava mais e então em um grito desabou em um verdadeiro choro profundo e penoso que ecoou pelo patamar invadindo a floricultura.
- Eu não consigo... Eu... Eu sou uma fraca que faz de tudo para agradar as pessoas, mas ninguém nunca me perguntou se eu queria fazê-las ou se concordava com elas... – Marine era só soluços e suspiros profundos. Seus cabelos jaziam para frente e tampavam o seu rosto todo molhado.
Lukas levou a mão para confortar a garota, mas parou no meio do caminho, sentiu que não seria uma boa coisa fazer. Sentiu tristeza por não poder ajudá-la, sentia medo e dor ao ver seu único amigo caído ensangüentado aos seus pés e sentia, por fim, inútil, capaz de fazer nada para poder ajudar. Seu pé ainda dolorido devido ao choque, fazia o arrastar de um lugar ao outro.
Não iam muito bem, ambos deixaram que medo e dor os envolvessem, mas algo os trouxe de volta, como se uma voz os acordasse. Uma luz Vermelha brotou do centro de onde Marine se encolhera, refletindo no piercing de Lukas e fazendo a garota se levantar com susto e surpresa. De um dos símbolos surgiu uma intensa luz vermelha e algo começou a sair dali. Um minúsculo objeto despontou da capa e agora flutuava, subindo até a altura do rosto de Marine. O objeto era, nada mais, do que a minúscula chave do seu sonho. Exatamente igual: uma chave com um planeta em tons vermelhos em sua extremidade sendo contornado por finas e delicadas elipses formando um conjunto de anéis circulando-o em duas diagonais, formando um “X”. A cara de alegria de Lukas não poderia ser maior, ainda que tudo aquilo tivesse acontecido com Renato.
- Agora Marine!!! É agora...!!! Agarre a chave...!!! – Lukas gritou para Marine.
Com um único movimento Marine a pegou no ar. Ao fazer isso sentiu um calor envolver o seu corpo, um calor muito diferente do normal, nunca sentido antes por ela. Sentiu que estava sendo envolvida por uma sensação de prazer e felicidade. Era impossível tentar descrever o que ela estava sentindo.
Do nada sentiu coisas estranhas penetrarem em sua mente. Palavras sem significados concretos surgiam e formavam pedaços de frases totalmente desconexas. Até que tudo se esclareceu e a frase se formou por inteiro. Estava pronta para ser dita pariu de onde estava...
“Chave que guarda o poder da Galáxia, mostre seus verdadeiros poderes sobre nós. E os ofereça-os a valente Marine que aceitou essa missão. LIBERTISSE!!!”
Os dentes da chave desapareceram dando lugar a uma empunhadura. As finas elipses se destacaram tornando-se maiores e mais grossas; o planeta se tornou mais vermelho com um tom berrante e brilhante; a minúscula haste que ligava as duas pontas aumentou de tamanho e de espessura, dando forma a um bastão. No alto as elipses formaram um “X” em diagonais maiores, começando a girar contornando o planeta, soltando estalos e flashes vermelhos. E com mais um movimento Marine o pegou e sentiu-se completa.
- Incrível... Realmente incrível... Eu vi um desses antes... – Lukas estava encabulado com o que acabara de presenciar, olhava fixamente para o báculo de Marine, ainda irradiando um vermelho intenso.
Marine estava mais surpresa que Lukas. Jamais, em toda sua vida, imaginara algo dessa grandeza acontecendo com ela. Analisava toda a forma do seu báculo, não deixando que nada escapasse aos seus olhos. Era bem obvio, para quem estivesse ali, o quanto Marine estava surpresa e feliz segurando o artefato mágico.
A Carta Vento, que batalhara até aqui para manter confinada a Carta Chuva se dissipou transformando em frágeis brisas. Voltando, muito fraca, para a carta vazia ao lado do corpo imóvel do seu dono.
- Ah não...! A carta Vento não resistiu... Sem o Renato aqui para lhe dar a magia e o amor necessário ela simplesmente perdeu a força. – disse Lukas observando o trajeto do que sobrou da carta fazia até chegar a eles.
- Lukas... Olhe...! – Marine apontava para o alto, a carta se aproximara mais deles e tornou a se movimentar em zig-zag, descrevendo desenhos no ar. – O que ela está fazendo...? Parece estar... dançando...
Os ornamentos na roupa da Carta Chuva cintilavam e balançaram suavemente com a ventania, da mesma forma que seus fios de cabelo esvoaçavam de um lado para outro. Por um instante a carta ficou imóvel, cessou seu zig-zag e em seguida começou a fazer círculos uniformes com muita velocidade, formando grandes nuvens acinzentadas, carregadas de água.
- Ela está preparando para atacar Marine! É isso que ela está fazendo... – Lukas exclamou ao ver os movimentos sendo executados pela carta – normalmente ela não é muito agitada, mas tê-la prendido a deixou muito irritada e agora quer descontar toda sua raiva em nós... Rápido...! Você precisa agir... Você precisa capturá-la antes que isso aconteça. Antes que ela nos... nos mate...
A última palavra que saiu da boca de Lukas fez Marine se revirar de medo. O fato é que ela sabia que a carta era capaz de fazer isso, olhou tudo em volta; pode ver toda a destruição causada e Renato ensangüentado no chão. Tudo já tinha passado dos limites, já era hora de lacrar essa carta mais uma vez.
Novamente estranhas palavras foram se amontoando em sua cabeça, formando uma nova frase pronta para ser dita. Marine ergueu o báculo sobre a cabeça e o desceu com um único golpe. “Volte a sua form...”
Antes que a frase pudesse ser encerrada por Marine a Carta fez desabar uma forte chuva do círculo onde estava, caindo com um descomunal estrondo na correnteza de água nas ruas. As gotas de água se juntaram formando um enorme jato e com um leve estalar de dedos da carta o jato partiu em direção dos garotos.
Eles estavam sem nenhuma proteção, capturar a carta naquela hora seria quase impossível, alem do mais não faria o jato desaparecer, tampouco mudar sua direção ou sua intensidade.
Marine já se preparava para gritar, esse seria o fim..., mas se conteve quando notou que algo mais estava acontecendo além do jato d’água. No livro, caído no chão, uma estranha luz emergia do mesmo lugar de onde saíra sua chave. Uma Luz vermelha incidia sobre o lugar e foi iluminando tudo a sua volta. Um par de asas se abriu a sua frente, longos cabelos em um tom vermelho escuro caíram suavemente; e por fim uma linda garota emergia completamente do livro rosa. Era bem moça e tinha a mesma estatura de Marine.
- Ruby-Moon...
A garota que acabara de materializar a frente de Marine estendeu sua mão à frente, com os olhos bem cerrados e uma posição de ataque. Um grito saiu da garota enquanto impulsionou suas duas mãos para frente sendo seguido por suas asas, fazendo uma estranha coreografia de movimentos. Uma forte rajada de vento partiu de Ruby-Moom empurrado o jato d’água para longe deles, caindo metros à frente.
A carta recomeçou a voar em círculos, formando um novo jato de água. Ruby-Moon exclamou para a Marine ao ver o báculo em suas mãos.
- Vamos...! É agora...! Capture a carta...
- Certo! – assentiu a garota com a cabeça.
Marine foi para ao lugar mais perto da parede sendo observada por Lukas e Ruby-Moon. Tomou um impulso e pulou do patamar para um vaso de flores logo à frente e dele para uma fonte, ficando frente a frente à carta Sakura. Levantou o báculo até o alto e preparou para dizer às palavras, saindo de sua boca em alto e bom som...
- Volte a sua forma humilde que merece Carta Sakura!!!
Marine desceu seu báculo em direção a carta. As elipses começaram a circular o planeta e a trocarem de posições. Logo a frente do báculo surgiu uma carta vazia, soltando junto com ela uma forte rajada de vento sugando os vestígios de magia que estavam ai. A forte rajada puxou a Carta Chuva, que tentava desesperadamente fugir, mas tudo foi em vão. Em poucos segundo a carta fora aprisionada, caindo lentamente da ponta do báculo para a mão de Marine, sua dona.
- Venha comigo... - Ruby-Moon pairava no ar próximo a Marine estendendo sua mão para ela. – Soube que a água está eletrificada... Não tenha medo... Pode confiar em mim...
A nova Card Captor deu as mãos para a guardiã e saíram voando até o patamar onde Lukas as esperava. Marine aproveitou para pegar o báculo de Renato que estava perto de onde tinha parado.
- Muito... muito... obrigado... – Marine agradecia timidamente a guardiã e esta apenas sorria para ela.
- Ruby-Moon!!! – Exclamou Lukas – É você mesmo!?
- Sou eu sim... Estou de volta... Em carne, osso e. - Ruby-Moon olhou para as roupas que Lukas, Marine e Renato usavam e continuou com uma cara desgosto – e totalmente fora de moda... que tristeza...
- É... Realmente é você mesmo... Continua a mesma... – Lukas deu um largo sorriso ao terminar de falar...
O céu lentamente começou a clarear dissipando as pesadas nuvens. O nível da água ainda não baixara, o que era perigoso sair dali. O crepúsculo logo se formou no horizonte, misturando raios amarelos com vermelhos. Não demorou muito que fosse substituído pela noite, trazendo estrelas no céu e uma suave sensação de missão cumprida, o que parecia impossível mais cedo.
Olhares curiosos despontaram de janelas e das portas ao longo da rua e os garotos decidiram entrar na floricultura. Renato fora carregado por Lukas e Ruby-Moon com muito cuidado, colocando-o em um colchonete que Marine havia preparado. Minutos depois Renato acordou, ainda muito tonto, conseguiu ver apenas vultos em sua frente. Logo a imagem foi ficando clara e as lembranças lhe tornaram a mente e a dor latejou por sua cabeça.
- O que aconteceu... – Renato perguntou com garganta seca e olhando de Lukas para Ruby-Moon...
Os garotos lhe contaram tudo o que aconteceu, sendo interrompidos em intervalos regulares por exclamações, ora por Renato ora por Ruby-Moon. Contaram-lhe sobre o surgimento da chave e de Ruby-Moon do livro mágico e o feito de Marine capturando a carta Chuva.
Marine foi para o balcão e retirou de uma das gavetas uma pequena caixa branca com primeiros socorros e correu de volta para cuidar dos ferimentos de Renato. No inicio o garoto protestou uma pouco, mas concordou ser cuidado por ela, afinal era muito confortante ter as mãos de Marine tocando seu rosto.
Discutiram sobre o que fazer a respeito de Ruby-Moon e Marine colocou-se frente à situação; convencendo a todos que a guardiã ficaria em sua casa, dizendo aos seus pais ser uma grande amiga da faculdade. Após um longo debate a decidiram chamar de Lana, todos entraram em consenso que Ruby-Moon não era uma nome muito comum, chamaria muita atenção.
Assim com Lukas, Ruby-Moon escondeu suas asas e os coques em seu cabelo, tornando uma humana perfeita. Marine trouxe roupas novas, sendo recebidas de bom grado pela guardiã com muita felicidade.
- Bom, agora temos que ir... – disse Renato depois de horas de conversa. – Parece que enxurrada acabou... Rodrigo já deve estar esperando a gente Lukas...
Antes de saírem Renato se lembrou das flores que foram comprar e pediu para que Marine entregasse um grande estoque de rosas amarelas no auditório da universidade. Anotou o endereço em um papel em cima do balcão; demorou um pouco a escrever todo o conteúdo e logo abaixo do local de entrega continha finos traços formandos um seqüência de números. Quando estava na porta pronunciou meio envergonhado: “Meu telefone também está aí... se quiser me ligar... fica a vontade”. Marine rasgou a parte inferior do pedalo do papel e o segurou firme, com as mãos encostadas em seu peito. Renato não conseguiu esconder um grande sorriso de satisfação, que logo foi correspondido por Marine.
A noite surgiu definitivamente a o leste trazendo um mínimo de frio. Após ajudarem arrumar a frente da floricultura de, os garotos foram embora para sua casa; suas calças pouco rasgadas, e ambos machucados, por hora um apoiava-se no outro. Marine fechou a loja, entrando com Lana para a casa aos fundos. No mesmo momento em que entravam foram surpreendidos pelo mesmo cara estranho que passara a tarde inteira em sua casa; Lana e Marine desejaram boa noite e o homem o retribuiu olhando com estranheza para o cabelo da guardiã. Os pais de Marine receberam sua nova amiga muito bem, mais do que previra. Não demorou muito para Marine apresentar toda a família, lhe mostrar a casa e seu quarto, o qual seria o novo lar de Lana por muito tempo. No jantar comeram com voracidade, experimentaram de tudo, e em seguida tornaram exaustas para o quarto.
Havia duas camas, uma delas abarrotada com livros, revistas e CDs, que fora tudo removido por Marine para a amiga poder dormir ali. Passaram horas conversando sobre tudo: moda, tendências, garotos e principalmente sobre as Cartas Sakura. Lana estava muito intrigada com toda a história das cartas, ainda não conseguia ter explicação para o que tivesse acontecido tampouco a ligação dela com Renato.
Não agüentando mais, Lana desmontou na cama e Marine deitou-se também, cobrindo até o pescoço. Olhava com uma pequena luz no seu criado a minúscula chave e a Carta Chuva – agora com as mãos abaixadas, os olhos fechados, todo sinal de hostilidade desaparecido. Dormiu tendo a certeza que depois de uma tormenta vem sempre à calmaria.
- Não!!! – Marine gritou para Renato no mesmo instante que segurou sua camiseta o puxando; ouviu-se um pequeno ruído e um pedaço da manga se rasgando. – Olhe... Ali... – Marine apontava a um dos postes tombado para seus fios caídos na água. – A água deve estar eletrificada, não entre aí, pode ser perigoso... Já ouvi casos de pessoas que morreram...
- Ela tem razão Renato... É muito perigoso – disse Lukas puxando a outra manga da camiseta, desta vez a rasgando completamente na parte superior.
- Mas como vamos chegar até ela, – replicou ele retirando os fiapos da camiseta – para capturá-la eu preciso chegar mais perto... Ou acham que eu vou sair voando pela rua... Ainda não sou o super-homem.
- Eu pensei que vocês sabiam o que estavam fazendo quando me contaram toda a história das cartas... Vocês são loucos... – Marine berrava com os garotos, fazendo-os recuar para trás – Isso é muito perigoso... E vocês não têm um plano... Querem nos matar...
- Não fique assim Marine – Lukas tentava acalmá-la – Renato também ficou desesperado e descontrolado no inicio... Ainda está...
Enquanto discutiam a Carta Sakura sobrevoou uma das arvores em sua volta criando uma enorme tromba d’água da enxurrado até se perder de vista no céu acinzentado; à medida que seu tamanho crescia foi se dirigindo ao lugar onde estavam. Destroçou um dos carros que encontrou em seu caminho, atirando-o a vários metros de distancia; a árvore, ainda presa, pendeu para um lado caindo no centro da rua, seus galhos foram quase todos arrancados e estavam sendo lançados a todos os lados. Uma onda começou a se formar a partir da tromba d’água e ameaçava invadir um lado da quadra, justamente onde os garotos estavam...
- AHHHH!!!! – Marine gritou, mas não tinha ninguém ali para poder socorrê-la exceto pelos garotos...
Ninguém estava na rua em meio aquela destruição em massa, era difícil de acreditar que tudo aquilo fosse causado por uma chuva. O nível da água começou a subir rapidamente, atingindo o degrau onde Lukas e Renato se encontravam. Mal tiveram tempo para subir e Lukas levou um choque quando um pouco de água envolveu seu pé. Os jardins das casas foram todos cobertos pela enchente; a água já atingia cerca de um metro de altura nem por um minuto cessava sua destruição.
A tromba d’água avançava na direção dos garotos com mais fúria que antes; por onde passava deixava somente ruínas. A Carta, girando em torno da água, sorria e se divertia com a cena e o medo que eles demonstravam.
- Lukas! Você está bem...!? – Renato socorreu o amigo que gemia de dor – Está doendo muito...?
- Não se preocupe comigo... Se preocupem com a carta... E não encostem na água... Está mais eletrificada do que eu pensei.
- E agora o que vamos fazer...? A água vai destruir tudo... – Marine estava exasperada com o que acontecia; era difícil acreditar que tudo que ela ajudou a construir, todos aqueles jardins estavam sendo destruídos.
A tromba d’água passou por um carro estacionado na porta de uma loja de doces engolindo-o na imensidão de água...
- O que está acontecendo... – Renato exclamou quando viu o carro sendo puxado e erguido pela força da água até uma altura de uma árvore. - ...o que ela vai fazer...?
A falta de luz ofuscava o vermelho do carro, podendo ver somente um borrão quando rodopiava. A carta apresentava dificuldade para manter-lo suspenso, mas fez o girar mais uma vez e o lançou para onde os garotos estavam.
Marine, Lukas e Renato não acreditavam no que estavam vendo, mas a essa altura seria tolice não acreditar em certas coisas. O carro vinha em suas direções e os ameaçava despertando medo, desespero e surpresa. O carro avançava velozmente sobre as casas e ia caído rapidamente rodopiando pelo ar.
Marine colocou a mão nos rostos e sentiu que esse seria o fim.
“VENTO!”
Renato usou a carta vento no momento mais oportuno que poderia surgir. Uma linda mulher com longos fios de cabelo verde emergiu da carta contornando todo o carro e o parando no ar. Com suavidade o levou para um canto e depositou na rua. Emanava uma brisa suave não muito fria. A outra carta percebeu a presença de Vento e começou a sugar gravetos das arvores derrubadas no meio da rua enchente. Em seguida seguiu um incessante ataque; os gravetos foram lançados da tromba d’água, todos bem afiados, lançado um após o outro, tornou-se uma penca de flechas que se preparava para acertá-los. Antes que pudesse chegar aos garotos a carta Vento sentiu que se dono estava sendo ameaçado, então aumentou sua intensidade transformando em uma ventania formando escudo envolvendo os Cards Captures e o Guardião.
Marine ao ver a carta ganhar vida na sua frente e os salvando ficou mais apreensiva e percebeu o quanto foi tola em duvidar do próprio sonho e do que os garotos contaram.
- O que é isso...? Também é uma carta...? – Marine apontou para a entidade mágica acompanhando-a com os dedos descrevendo círculos pra protegê-los.
- Essa é a Carta Vento... – Respondeu Renato com o báculo a frente e uma carta vazia na sua mão esquerda. – Linda não é...?
- É, mas... E a outra...? – Marine apontou para outra carta acima do monumento de água. – Que carta é essa!?
- É a Carta Chuva. – Respondeu Lukas a um canto ainda gemendo um pouco de dor. – É uma carta bastante poderosa, nunca a vi demonstrar tamanha fúria. Possui como elementos regente a água e o vento... Aí... – Lukas gemeu um pouco ao se levantar – Por isso está fazendo chover desse tanto...
- Nota-se... – Marine replicou. – Como vamos fazer para impedi-la...!? Ela vai destruir tudo...
- Tenho uma idéia... Vento! Aproxime da Chuva e contorne-a...! Tente impedi-la de fazer chover...! – Renato gritava ordens para sua carta que prontamente o obedeceu.
A carta começou a avançar não dissipando o circulo que fazia para proteger os garotos. À medida que Vento aproximava-se, Chuva aumentava seus ataques e alguns começaram a transpor a barreira de ar. Várias pedras se juntaram aos galhos pontiagudos sendo atirados e voando em todas as direções. Vento acelerou para capturar a carta, mas Chuva começou a apresentar resistência colocando mais força em seu ataque.
Chuva percebeu que seria encurralada, com uma atitude inesperada desfez a tromba d’água formando uma grande onda. Aproveitou esse memento para fugir e saiu o mais rápido que pode.
- Agora, Vento!!! Capture-a... Não a deixe fugir...
Chuva correu o mais rápido que pode, mas não foi o suficiente para escapar de Vento. Em segundos ela a alcançou, desfazendo o escudo e criando uma enorme bolha de ar prendendo a Carta Sakura em seu interior.
TAC!!!
Marine e Lukas escutaram o som de algo, um estampido ecoou por ali seguido de passos deslizantes sobre o soalho. Só o que puderam ver foi o corpo de Renato caído lentamente para trás. Um profundo corte surgiu sem sua cabeça, seu corpo perdeu o controle e os sentidos; suas mãos não respondiam mais; sua testa sangrando muito, manchando seu rosto com um tom vermelho brilhante. O báculo do Sol se soltou no ar, caindo em uma moita de visgos próximo a janela da floricultura. Com um grande baque seu corpo encontrou o chão molhado e frio, seus olhos se fecharam antes que pudesse exaltar qualquer exclamação de dor. Uma pedra branca, suja com um líquido vermelho, o mesmo da testa do garoto caiu ao seu lado, denunciando ser o que o atingira.
- Renato!!! – Marine e Lukas gritaram em uníssono ao mesmo tempo em que vieram socorrê-lo.
- Ele desmaiou... – Marine, parecia perita, abriu os olhos do garoto observando suas pupilas, pedindo para que o pior não acontecesse. Com uma mínima exclamação de alivio continuou: - Ele está apenas inconsciente...
Marine sentiu algo estranho, não podia deixar de reparar no suave cabelo do garoto e em seus finos desenhos que davam forma ao se rosto. “Nem percebi o quanto ele é lindo... Mas excêntrico também...”
- Acha que ele vai ficar bem... – Lukas perguntava apreensivo para a garota, seus olhos azuis se encheram de água ao ver o amigo caído e inconsciente.
- Não se preocupe... Ele vai ficar bem... – respondeu Marine não tendo muita certeza no que dizia. – É melhor sairmos um pouco de perto dele... Ele precisa respirar um pouco... – disse se levantando olhando para o alto fitando a carta presa na bolha de ar.
As gotas ornamentais presa na roupa rosa da Carta Chuva agitavam furiosamente seguindo o compasso que a carta fazia para se livrar da prisão. Vento não estava resistindo, seu dono que a mantinha existente por sua magia encontrava-se inconsciente.
- O que faremos agora Lukas...
- Agora é com você Marine, você tem que capturar a Carta Sakura...
- Você está louco... Como quer que eu capture a Carta Sakura... – Marine colocou a mão no peito e a outra apontou para o alto em direção as entidades que se debatiam... – Nem se quer tenho um báculo e...
Marine calou-se ao ver Lukas pegar o livro caído no chão e o entregar a ela. Mas a garota se recusava a pegar. Abalançava negativamente a cabeça recusando o livro.
- Marine... Pegue-o... – Lukas estendia o Livro para a garota e a olhava com ternura nos olhos procurando convencê-la.
E foi o que aconteceu. Marine pegou o livro das mãos do guardião e o abriu. Sentiu uma forte sensação passar por todo o seu corpo. Sentia que algo chamava o seu nome naqueles símbolos da capa. Várias lembranças invadiram sua mente: a garota na torre rosa, o ser com grandes asas de borboleta, as cartas que voavam... e a minúscula chave.
- Eu... Eu... Eu não posso Lukas... Sou incapaz de fazer isso... Eu não posso fazer isso... – Marine estendia de volta o livro para Lukas. – Eu nem sei o que fazer com esse livro. Nem tenho... magia...
- Está enganada...- Lukas a olhou mais fundo – Lembra de quando Renato lhe entregou o livro e você o deixou cair?
- Lembro sim, mas que importância tem isso...?
- Nenhuma... – Lukas cruzou os braços e continuou – Mas você não notou que quando ele caiu o fecho que o prendia se abriu soltando pequenas faíscas vermelhas...?
- Faíscas vermelhas...? – Marine tentou puxar pela memória, mas estava tão difícil como capturar a carta...
- Você pode não se lembra, mas eu vi isso muito bem... – Uma cara de satisfação surgia no rosto do guardião. – Isso quer dizer que você possui algum tipo de magia... caso contrario não teria aberto o livro...
Marine ficou chocada quando Lukas terminou. E então algo lhe ocorreu.
- Lukas... Então quer dizer que você...
- Sim! Sim! – respondeu ele antes do termino da pergunta. – Eu soube naquele instante que você também seria uma Card Capture e que a missão de Renato seria partilhada com você...
- Mas como Lukas...? Como...? Eu não faço nem idéia de onde começar para poder capturar essa carta... – Marine falava em sussurro e pequenas lágrimas escorreram em seu delicado rosto.
- Olhe para o livro e concentre-se... Você terá a resposta... Lukas apontou decididamente dela para o livro, sua face não demonstrava mais ternura e sim desafiava a garota.
Marine olhou fixamente para os desenhos da capa esperando que alguma coisa acontecesse, mas nada acontecia. Seus olhos ficaram mais vermelhos, sua face mais rosada, seu corpo mais fraco. Sentia que estava sendo chamada, mas não tinha forças nem voz para responder. Suas mãos seguravam firmemente o livro, uma de cada lado.
A Carta Vento estava chegando ao seu limite. Prender uma criatura como aquela era moleza, mas sem o auxilio do coração do seu dono lhe dando força, amor e coragem necessária tudo se tornara mais difícil. A Carta Chuva se debatia muito e em questão de minutos conseguiria estourar a bolha de ar e também em questão de minutos a magia de Vento se extinguiria.
Marine ainda olhava fixamente para os símbolos, seus olhos cheios de água não agüentavam mais, não suportava a espera de uma resposta que não vinha. Enquanto isso Lukas se esquecera da garota e dedicava a cuidar de seu amigo, ainda inconsciente no chão. Marine não suportava mais e então em um grito desabou em um verdadeiro choro profundo e penoso que ecoou pelo patamar invadindo a floricultura.
- Eu não consigo... Eu... Eu sou uma fraca que faz de tudo para agradar as pessoas, mas ninguém nunca me perguntou se eu queria fazê-las ou se concordava com elas... – Marine era só soluços e suspiros profundos. Seus cabelos jaziam para frente e tampavam o seu rosto todo molhado.
Lukas levou a mão para confortar a garota, mas parou no meio do caminho, sentiu que não seria uma boa coisa fazer. Sentiu tristeza por não poder ajudá-la, sentia medo e dor ao ver seu único amigo caído ensangüentado aos seus pés e sentia, por fim, inútil, capaz de fazer nada para poder ajudar. Seu pé ainda dolorido devido ao choque, fazia o arrastar de um lugar ao outro.
Não iam muito bem, ambos deixaram que medo e dor os envolvessem, mas algo os trouxe de volta, como se uma voz os acordasse. Uma luz Vermelha brotou do centro de onde Marine se encolhera, refletindo no piercing de Lukas e fazendo a garota se levantar com susto e surpresa. De um dos símbolos surgiu uma intensa luz vermelha e algo começou a sair dali. Um minúsculo objeto despontou da capa e agora flutuava, subindo até a altura do rosto de Marine. O objeto era, nada mais, do que a minúscula chave do seu sonho. Exatamente igual: uma chave com um planeta em tons vermelhos em sua extremidade sendo contornado por finas e delicadas elipses formando um conjunto de anéis circulando-o em duas diagonais, formando um “X”. A cara de alegria de Lukas não poderia ser maior, ainda que tudo aquilo tivesse acontecido com Renato.
- Agora Marine!!! É agora...!!! Agarre a chave...!!! – Lukas gritou para Marine.
Com um único movimento Marine a pegou no ar. Ao fazer isso sentiu um calor envolver o seu corpo, um calor muito diferente do normal, nunca sentido antes por ela. Sentiu que estava sendo envolvida por uma sensação de prazer e felicidade. Era impossível tentar descrever o que ela estava sentindo.
Do nada sentiu coisas estranhas penetrarem em sua mente. Palavras sem significados concretos surgiam e formavam pedaços de frases totalmente desconexas. Até que tudo se esclareceu e a frase se formou por inteiro. Estava pronta para ser dita pariu de onde estava...
“Chave que guarda o poder da Galáxia, mostre seus verdadeiros poderes sobre nós. E os ofereça-os a valente Marine que aceitou essa missão. LIBERTISSE!!!”
Os dentes da chave desapareceram dando lugar a uma empunhadura. As finas elipses se destacaram tornando-se maiores e mais grossas; o planeta se tornou mais vermelho com um tom berrante e brilhante; a minúscula haste que ligava as duas pontas aumentou de tamanho e de espessura, dando forma a um bastão. No alto as elipses formaram um “X” em diagonais maiores, começando a girar contornando o planeta, soltando estalos e flashes vermelhos. E com mais um movimento Marine o pegou e sentiu-se completa.
- Incrível... Realmente incrível... Eu vi um desses antes... – Lukas estava encabulado com o que acabara de presenciar, olhava fixamente para o báculo de Marine, ainda irradiando um vermelho intenso.
Marine estava mais surpresa que Lukas. Jamais, em toda sua vida, imaginara algo dessa grandeza acontecendo com ela. Analisava toda a forma do seu báculo, não deixando que nada escapasse aos seus olhos. Era bem obvio, para quem estivesse ali, o quanto Marine estava surpresa e feliz segurando o artefato mágico.
A Carta Vento, que batalhara até aqui para manter confinada a Carta Chuva se dissipou transformando em frágeis brisas. Voltando, muito fraca, para a carta vazia ao lado do corpo imóvel do seu dono.
- Ah não...! A carta Vento não resistiu... Sem o Renato aqui para lhe dar a magia e o amor necessário ela simplesmente perdeu a força. – disse Lukas observando o trajeto do que sobrou da carta fazia até chegar a eles.
- Lukas... Olhe...! – Marine apontava para o alto, a carta se aproximara mais deles e tornou a se movimentar em zig-zag, descrevendo desenhos no ar. – O que ela está fazendo...? Parece estar... dançando...
Os ornamentos na roupa da Carta Chuva cintilavam e balançaram suavemente com a ventania, da mesma forma que seus fios de cabelo esvoaçavam de um lado para outro. Por um instante a carta ficou imóvel, cessou seu zig-zag e em seguida começou a fazer círculos uniformes com muita velocidade, formando grandes nuvens acinzentadas, carregadas de água.
- Ela está preparando para atacar Marine! É isso que ela está fazendo... – Lukas exclamou ao ver os movimentos sendo executados pela carta – normalmente ela não é muito agitada, mas tê-la prendido a deixou muito irritada e agora quer descontar toda sua raiva em nós... Rápido...! Você precisa agir... Você precisa capturá-la antes que isso aconteça. Antes que ela nos... nos mate...
A última palavra que saiu da boca de Lukas fez Marine se revirar de medo. O fato é que ela sabia que a carta era capaz de fazer isso, olhou tudo em volta; pode ver toda a destruição causada e Renato ensangüentado no chão. Tudo já tinha passado dos limites, já era hora de lacrar essa carta mais uma vez.
Novamente estranhas palavras foram se amontoando em sua cabeça, formando uma nova frase pronta para ser dita. Marine ergueu o báculo sobre a cabeça e o desceu com um único golpe. “Volte a sua form...”
Antes que a frase pudesse ser encerrada por Marine a Carta fez desabar uma forte chuva do círculo onde estava, caindo com um descomunal estrondo na correnteza de água nas ruas. As gotas de água se juntaram formando um enorme jato e com um leve estalar de dedos da carta o jato partiu em direção dos garotos.
Eles estavam sem nenhuma proteção, capturar a carta naquela hora seria quase impossível, alem do mais não faria o jato desaparecer, tampouco mudar sua direção ou sua intensidade.
Marine já se preparava para gritar, esse seria o fim..., mas se conteve quando notou que algo mais estava acontecendo além do jato d’água. No livro, caído no chão, uma estranha luz emergia do mesmo lugar de onde saíra sua chave. Uma Luz vermelha incidia sobre o lugar e foi iluminando tudo a sua volta. Um par de asas se abriu a sua frente, longos cabelos em um tom vermelho escuro caíram suavemente; e por fim uma linda garota emergia completamente do livro rosa. Era bem moça e tinha a mesma estatura de Marine.
- Ruby-Moon...
A garota que acabara de materializar a frente de Marine estendeu sua mão à frente, com os olhos bem cerrados e uma posição de ataque. Um grito saiu da garota enquanto impulsionou suas duas mãos para frente sendo seguido por suas asas, fazendo uma estranha coreografia de movimentos. Uma forte rajada de vento partiu de Ruby-Moom empurrado o jato d’água para longe deles, caindo metros à frente.
A carta recomeçou a voar em círculos, formando um novo jato de água. Ruby-Moon exclamou para a Marine ao ver o báculo em suas mãos.
- Vamos...! É agora...! Capture a carta...
- Certo! – assentiu a garota com a cabeça.
Marine foi para ao lugar mais perto da parede sendo observada por Lukas e Ruby-Moon. Tomou um impulso e pulou do patamar para um vaso de flores logo à frente e dele para uma fonte, ficando frente a frente à carta Sakura. Levantou o báculo até o alto e preparou para dizer às palavras, saindo de sua boca em alto e bom som...
- Volte a sua forma humilde que merece Carta Sakura!!!
Marine desceu seu báculo em direção a carta. As elipses começaram a circular o planeta e a trocarem de posições. Logo a frente do báculo surgiu uma carta vazia, soltando junto com ela uma forte rajada de vento sugando os vestígios de magia que estavam ai. A forte rajada puxou a Carta Chuva, que tentava desesperadamente fugir, mas tudo foi em vão. Em poucos segundo a carta fora aprisionada, caindo lentamente da ponta do báculo para a mão de Marine, sua dona.
- Venha comigo... - Ruby-Moon pairava no ar próximo a Marine estendendo sua mão para ela. – Soube que a água está eletrificada... Não tenha medo... Pode confiar em mim...
A nova Card Captor deu as mãos para a guardiã e saíram voando até o patamar onde Lukas as esperava. Marine aproveitou para pegar o báculo de Renato que estava perto de onde tinha parado.
- Muito... muito... obrigado... – Marine agradecia timidamente a guardiã e esta apenas sorria para ela.
- Ruby-Moon!!! – Exclamou Lukas – É você mesmo!?
- Sou eu sim... Estou de volta... Em carne, osso e. - Ruby-Moon olhou para as roupas que Lukas, Marine e Renato usavam e continuou com uma cara desgosto – e totalmente fora de moda... que tristeza...
- É... Realmente é você mesmo... Continua a mesma... – Lukas deu um largo sorriso ao terminar de falar...
O céu lentamente começou a clarear dissipando as pesadas nuvens. O nível da água ainda não baixara, o que era perigoso sair dali. O crepúsculo logo se formou no horizonte, misturando raios amarelos com vermelhos. Não demorou muito que fosse substituído pela noite, trazendo estrelas no céu e uma suave sensação de missão cumprida, o que parecia impossível mais cedo.
Olhares curiosos despontaram de janelas e das portas ao longo da rua e os garotos decidiram entrar na floricultura. Renato fora carregado por Lukas e Ruby-Moon com muito cuidado, colocando-o em um colchonete que Marine havia preparado. Minutos depois Renato acordou, ainda muito tonto, conseguiu ver apenas vultos em sua frente. Logo a imagem foi ficando clara e as lembranças lhe tornaram a mente e a dor latejou por sua cabeça.
- O que aconteceu... – Renato perguntou com garganta seca e olhando de Lukas para Ruby-Moon...
Os garotos lhe contaram tudo o que aconteceu, sendo interrompidos em intervalos regulares por exclamações, ora por Renato ora por Ruby-Moon. Contaram-lhe sobre o surgimento da chave e de Ruby-Moon do livro mágico e o feito de Marine capturando a carta Chuva.
Marine foi para o balcão e retirou de uma das gavetas uma pequena caixa branca com primeiros socorros e correu de volta para cuidar dos ferimentos de Renato. No inicio o garoto protestou uma pouco, mas concordou ser cuidado por ela, afinal era muito confortante ter as mãos de Marine tocando seu rosto.
Discutiram sobre o que fazer a respeito de Ruby-Moon e Marine colocou-se frente à situação; convencendo a todos que a guardiã ficaria em sua casa, dizendo aos seus pais ser uma grande amiga da faculdade. Após um longo debate a decidiram chamar de Lana, todos entraram em consenso que Ruby-Moon não era uma nome muito comum, chamaria muita atenção.
Assim com Lukas, Ruby-Moon escondeu suas asas e os coques em seu cabelo, tornando uma humana perfeita. Marine trouxe roupas novas, sendo recebidas de bom grado pela guardiã com muita felicidade.
- Bom, agora temos que ir... – disse Renato depois de horas de conversa. – Parece que enxurrada acabou... Rodrigo já deve estar esperando a gente Lukas...
Antes de saírem Renato se lembrou das flores que foram comprar e pediu para que Marine entregasse um grande estoque de rosas amarelas no auditório da universidade. Anotou o endereço em um papel em cima do balcão; demorou um pouco a escrever todo o conteúdo e logo abaixo do local de entrega continha finos traços formandos um seqüência de números. Quando estava na porta pronunciou meio envergonhado: “Meu telefone também está aí... se quiser me ligar... fica a vontade”. Marine rasgou a parte inferior do pedalo do papel e o segurou firme, com as mãos encostadas em seu peito. Renato não conseguiu esconder um grande sorriso de satisfação, que logo foi correspondido por Marine.
A noite surgiu definitivamente a o leste trazendo um mínimo de frio. Após ajudarem arrumar a frente da floricultura de, os garotos foram embora para sua casa; suas calças pouco rasgadas, e ambos machucados, por hora um apoiava-se no outro. Marine fechou a loja, entrando com Lana para a casa aos fundos. No mesmo momento em que entravam foram surpreendidos pelo mesmo cara estranho que passara a tarde inteira em sua casa; Lana e Marine desejaram boa noite e o homem o retribuiu olhando com estranheza para o cabelo da guardiã. Os pais de Marine receberam sua nova amiga muito bem, mais do que previra. Não demorou muito para Marine apresentar toda a família, lhe mostrar a casa e seu quarto, o qual seria o novo lar de Lana por muito tempo. No jantar comeram com voracidade, experimentaram de tudo, e em seguida tornaram exaustas para o quarto.
Havia duas camas, uma delas abarrotada com livros, revistas e CDs, que fora tudo removido por Marine para a amiga poder dormir ali. Passaram horas conversando sobre tudo: moda, tendências, garotos e principalmente sobre as Cartas Sakura. Lana estava muito intrigada com toda a história das cartas, ainda não conseguia ter explicação para o que tivesse acontecido tampouco a ligação dela com Renato.
Não agüentando mais, Lana desmontou na cama e Marine deitou-se também, cobrindo até o pescoço. Olhava com uma pequena luz no seu criado a minúscula chave e a Carta Chuva – agora com as mãos abaixadas, os olhos fechados, todo sinal de hostilidade desaparecido. Dormiu tendo a certeza que depois de uma tormenta vem sempre à calmaria.
Esse capítulo vai para os antigos amigos que ficaram no interior, espero que vocês não tenham se esquecido de mim, eu não esqueci de vocês...
Paulo M. Goulart
Cards Infinity
O Lago de Cristal
Capítulo 6
Temporal
Paulo M. Goulart ©2007 – 2008
Finalizada em 19 de Dezembro de 2007
Cards Infinity – O Lago de Cristal
TryMax ©2008
Paulo M. Goulart ©2007 – 2008
História Original: Clamp ©1996; Japão
Alguns nomes e imagens são de autoria do Estúdio Clamp e possuem direitos autorais reservados as autoras. Os demais nomes, tipologias e símbolos são de direitos autorais do autor desta história
Brasil, 2008
O Lago de Cristal
Capítulo 6
Temporal
Paulo M. Goulart ©2007 – 2008
Finalizada em 19 de Dezembro de 2007
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História Original: Clamp ©1996; Japão
Alguns nomes e imagens são de autoria do Estúdio Clamp e possuem direitos autorais reservados as autoras. Os demais nomes, tipologias e símbolos são de direitos autorais do autor desta história
Brasil, 2008

