Paulo News
Capítulo 8
No Rastro do Card Captor
Paulo M. Goulart, ©2008

- Senhoras e Senhores... por favor queiram se sentar... – falou um homem com um terno de linho preto no palco, com o microfone em mãos. – Agora teremos apresentação de Leonardo Ikiteney, do Instituto de Biologia, sobre a biodiversidade da Floresta de Andara. Por favor, Leonardo venha ao palco...
Leonardo surgiu de um dos lados do palco trazendo consigo uma pequena prancheta com duas ou três folhas de papel, uma caneta e um microfone na outra mão. Ia ser breve e objetivo, essa era sua tática de argumentação e convencimento. Passou dias ensaiando e se preparando para esse evento agora era hora de colocar tudo em prática.
Uma equipe de contra-regras surgiu em seguida trazendo um enorme cartaz depositando-o no centro do palco. Todo ele era ocupado por um enorme foto da floresta em seu melhor ângulo, sem dúvida captaram uma imagem perfeita e ao mesmo tempo simples, tudo com alta definição. Havia uma única frase: “Os Segredos da Floresta” desenhada em grandes letras cursivas e douradas. A equipe ainda ajeitava os detalhes finais da apresentação, corriam para todos os lados espalhando vasos de varias espécies de flores pelo auditório: ao pé do cartaz, nas mesas dos convidados e em alguns lugares visíveis aos estudantes que chegavam nesse momento.
Um grupo de contra-regras seguiu para a platéia distribuindo os panfletos da apresentação com a imagem reduzida do cartaz. O apresentador sentou-se próximo aos convidados, que se encontravam nas laterais do palco, deixando agora todo ele para o garoto com seus cabelos bagunçados e seu imenso cartaz.
- Vamos... Tem duas cadeiras vazias ali ao lado das nossas... – Renato disse ainda em pé para as garotas. – Sentem-se aqui conosco, ai ficamos todos entre... Amigos...
A última palavra saiu quase inaudível para os garotos. Renato ainda não sabia se podia chamá-los assim. Queria, mas tinha receio de que eles não o vissem dessa forma. Lukas, como um bom amigo e guardião, percebeu o que o garoto sentira naquele momento. Esperou até as garotas se sentar em seus acentos e colocou uma mão sobre seus ombros do amigo.
- Não precisa ficar assim Renato... Não tenha medo... – Lukas sorriu para o garoto. – Estamos todos juntos nessa... E eu estarei com você até o final, aja o que houver.
Renato não podia ter ficado mais vermelho do que estava. Sabia que, de alguma forma, o amigo compreendia muito bem seus sentimentos. Olhou dele para as garotas sentadas a poucos metros e pode chegar a uma conclusão que ainda tinha certa duvida, mas agora ela não existia mais. Realmente tinha bons amigos a quem confiar, e contar com eles em todos os momentos de sua vida, os bons e os ruins. Não estava mais sozinho como esteve nesses últimos anos, longe de família e velhos amigos. Sentiu-se feliz, esse era o sentimento, por ter amigos que se tornariam grandes companheiros em sua vida, e ao mesmo tempo, envergonhado, por deixar que o seu melhor amigo percebesse isso. Tentou fugir do assunto, fazendo-se de desentendido.
- Do que você está falando Lukas...? Eu... Eu...
Lukas não respondeu, saiu andando entre as filas até sua cadeira, sentou no seu lugar cruzando os braços lançando mais um olhar para Renato mostrando que estaria com ele para o que der e vier.
- Renato vem logo! A palestra já vai começar...! – Marine o chamou da cadeira. – Ou você vai assistir daí...? Anda logo! Não me enrole...!
- Tá, tá... Acham que tenho poderes mágicos para atravessar toda essa multidão...? – perguntou o garoto sentando ao lado de Lukas.
- A gente desconfia que sim... – respondeu Lana rindo – Você nunca percebeu isso...? A facilidade que tem para sair de enrascadas é incrível...
- É, mas o azar é redobrado... – completou Lukas – o que foi aquilo ontem... A última pedra que a carta lançou da tromba d’água acertou sua testa... – Lukas começou a rir – isso é muita falta de sorte...
- Não tenho culpa de estar cuidando de você bem naquela que levou o choque... Engraçado parece que eu me lembro de termos mencionado que a água estava eletrificada não é mesmo Marine... – Renato voltou-se para Marine com ironia em sua pergunta.
- Eu não sei de nada... – respondeu a garota escapando da pequena discussão dos outros. – Tenho um distúrbio de memória caso vocês não saibam... Por isso não me façam perguntas difíceis...
- É mesmo... Marine tem um distúrbio de memória sim – Lana surgiu entre eles com um grande sorriso. – Hoje de manhã ela deu um grito quando me viu na outra cama do quarto dela e perguntou “Quem é você” apontando o dedo para mim. – Lana ria cada vez mais, seguida por Lukas – Deu um maior trabalho para ela se lembrar do que tinha acontecido no dia anterior... Ainda por cima teimava em acreditar que tudo tinha sido um sonho. Até que... – uma pequena pausa na fala da guardiã, em seguida continuou – Viu a carta e a chave em cima da mesinha...
- E aí...? – Renato perguntou com curiosidade
- Ela deu outro grito e se afastou mais ainda... Pisando em um objeto que estava no chão... Foi horrível... Ela caiu fazendo uma curva no ar, parecendo um arco... Vocês deviam ter visto...
- Isso Lana... – Marine disse impaciente para a garota. – Obrigado por contar isso a todo mundo... Se você não falasse eu não iria me lembrar... Eu só... esqueci quando acordei...
- Não se preocupe amiga... Eu não deixarei você esquecer esse esplêndido acontecimento...
Todos começaram a rir e logo Lukas encarou Renato com sua face desafiadora.
- Não sei por que você está rindo... Você coisa pior no dia seguinte... – Lukas olhou para frente observando os contra-regras saírem do palco – achou que eu era um ladrão... Por pouco não me acertou com um taco de golfe.
- A palestra já vai começar...! Todos vocês fiquem calados...! – Renato gritou com todos exigindo o silencio. Lukas e Lana pararam de rir no mesmo instante e Marine agradeceu ao outro com apenas um olhar. – Prestem atenção...! E parem de falar da vida dos outros...
- Não estamos falando da vida dos outros, estamos... – Lana tentou se defender, porém foi em vão. Marine lançou-lhe um olhar de esguelha exigindo silencio.
Ambos os Card Captures viram quando o rosto do garoto no palco se tornou mais nítido; todas aquelas pessoas, transitando de um lado para o outro, e os contra-regras, saindo de todas as direções do auditório invadindo todos os lugares tinham ofuscado as suas visões, e para completar o papo de Lana e Lukas os envolveram, deixando-os a par do que acontecia no palco, muito menos se importando com o garoto que subira nele.
O palco estava todo limpo e vazio, apenas o palestrante de cabelos bagunçados postava-se de ante ao enorme cartaz com a foto da floresta. As palavras em dourado refletiam a luz dos refletores causando a quem lia uma grande impressão e gravado imediatamente na memória, tudo foi cuidadosamente planejado para que nada escapasse do ponto de vista da palestra. Tudo foi feito com o objetivo de deixar uma marca permanente na memória das pessoas que estavam presentes.
Leonardo ainda estava muito tímido, mas essa seria a hora de colocar tudo o que preparou em pratica. Ia defender seu projeto com unhas e dentes e tentaria fazer de tudo para que se tornasse inesquecível. Com o microfone em mão procurava o melhor jeito de começar a falar, organizava seus pensamentos para que nada pudesse sair errado. Na sua outra mão a prancheta estava segura, os papeis descreviam seu roteiro e no final deles estava sua surpresa final para todos.
Marine e Renato observavam de longe o garoto. Tinham certeza que já tinham o visto em algum lugar, mas não se recordavam onde, além do mais a distancia os impedia de ver perfeitamente seu rosto. Mas a forma do cabelo bagunçado era intrigante, era o que chamara mais a atenção dos dois, teimosamente despenteado e falta de interesse do garoto em concertá-lo. Um sorriso surgiu em sua boca, deixando os garotos com mais duvida do que já tinham.
Lana e Lukas olhavam distraidamente para todos os lados, às vezes para o palco, ambos não se importavam em estar ali, para eles não fazia nenhuma diferença. Em diferentes momentos pareciam ficar mais sérios e atentos, como se procurassem por algo. Os olhos cerravam-se, suas audições eram apuradas, as sensações tornaram-se mais sensíveis, mas sempre em seguida dissipavam toda a guarda não conseguindo encontrar o fator que gerava tanto incômodo aos dois.
Os momentos de vigia e busca dos Guardiões passaram despercebidos por Marine e Renato, que assistiam o começo da palestra. Marine abriu a boca para comentar algo sobre o garoto no palco, mas desistiu ao ver que o mesmo começara a falar...
- Senhoras e senhores... – o garoto iniciou com segurança e determinação, arrancando comentários de todos os lados que se olhavam.
- Nossa como ele é lindo... – uma das garotas a frente de Renato comentou com a amiga com a voz alta o suficiente para que pudesse ouvir.
- Ele é lindo mesmo Carla, tirando o cabelo bagunçado..., – respondeu a garota sentada ao lado e a frente de Lukas. – será que ele sabe o significado de pente...?
O auditório fez silêncio total. A segurança que o garoto passava e forma marcante do cartaz ao seu lado deixavam todos os alunos estupefatos e maravilhados com a cena, escutando somente em raras ocasiões e em lugares distintos alguns ruído ou comentários abafados sobre o cartaz ou sobre o garoto. No centro do palco terminou os agradecimentos e continuou se apresentando e apresentando o seu projeto.
- Meu nome é Leonardo Ikiteney... Sou estudante do Instituto de Biologia e estou aqui para apresentar a todos vocês o projeto da minha turma sobre a Floresta de Andara... – o garoto perdera toda sua timidez e se soltava no palco narrando seu trabalho com os outros alunos da turma de biologia.
A apresentação durou os 40 minutos que se seguiram, foi o tempo estimado pela comissão organizadora. O grupo não se deu ao trabalho de reservar no final da apresentação um pequeno intervalo para perguntas, as quais não surgiram. O garoto contava com uma boa explicação e um bom argumento para suprir todas as duvidas dos estudantes, deixando a ele mais tempo para expor suas idéias e seus assuntos.
- Bom é isso... A floresta tem seus segredos. Segredos que nós não conhecemos, mas nos damos ao trabalho de destruí-los, torná-los secretos para todo o sempre...
A fala final de Leonardo gerou uma salva de palmas que soou por todo o ambiente. Os convidados ao lado estavam admirados com tamanho talento e um argumento bastante convincente, os alunos tinham realmente gostado e entendido a fundo a mensagem que a equipe quis passar. As palmas não cessaram em curto prazo, durou aproximadamente cinco minutos, deixando toda turma de alunos e discentes de biologia em total clima de êxtase e alegria. Sem duvida tinham feito o melhor de si e bateram todas as palestras anteriores, fechando com chave de ouro.
O apresentador voltou ao palco assim que o enorme cartaz foi retirado. Deu aos alunos os comunicados finais e alguns avisos que segurava em sua mão.
- Senhoras e Senhores é com muito prazer que declaro encerrada a Palestra ‘Vamos Cuidar do Verde’ que, neste ano, enfocou a Floresta de Andara. Tivemos quatro excelentes palestras... E quatros jovens que esporam suas idéias de forma esplendida – disse trazendo um dos últimos papéis para cima dos demais e continuou. – Vamos dar uma salva de palmas a Lidia Levine sobre sua posição contra as indústrias em depositar lixo tóxico na floresta destruído toda sua fauna e flora...
Uma onda de palmas e assovios emergiu do fundo, denunciando a turma de química. Uma garota loira, não muito alta, levantou-se de uma das cadeiras dos convidados e acenou com braço para a platéia. Tinha a fisionomia frágil e sua expressão de meiguice invadia os seus olhos. Os assovios e as palmas cessaram com um gesto da mão do apresentador que continuou lendo o papel em sua mão esquerda.
- Uma salva de palmas a Ricardo Portilla sobre a importância histórica da floresta e os achados arqueológicos de antigas civilizações na região.
Outra onda de assovios e palmas, não tão forte como a primeira, surgiu do lado esquerdo do auditório; ali estava a turma de História. Aos sons ecoados pelo salão um garoto alto com uma roupa descolada levantou-se ao lado da garota que acabara de se sentar. Era bem menos tímido que ela, acenou com força e vontade para a turma que gritava descontroladamente seu nome. Seu sorriso era mais do que convidativo, era uma perfeição em carisma. Com um novo aceno com a mão os estudantes se calaram esperando a próxima pessoa a ser anunciada. Os blocos de papéis revoavam de suas mãos e após minutos de tentativas perdidas conseguiu ler.
- Também nossos agradecimentos à Luíza Macine pelo excelente argumento sobre os interesses estatais em proteger a floresta e suas reservas naturais e também pela forma como abordou os interesses do Estado tanto na economia e na sociedade.
Dessa vez foi à turma da frente que começou a gritar e exaltar o nome da garota. As palmas saíram de todos os lugares das primeiras filas. Assovios ecoaram pelo palco e refrataram por todo o auditório, com exceção de Marine que fechou a cara e se quer moveu uma mão.
- Detesto essa garota... Convencida demais... E metida também.
Renato por um instante achou que seria inveja, mas a garota era pura e simples demais para sentir tal sentimento por uma pessoa. Decidiu confiar em Marine de que Luíza era realmente o que sua amiga dissera. O apresentador ainda lutava com os papeis em sua mão e por fim pediu um novo silencio a platéia e continuou com o último nome a ser anunciado.
- E por fim queremos agradecer e saudar a Leonardo Ikiteney por nos mostrar a importância da biodiversidade de nossa floresta e de nossos erros cometidos ao retirar dela as suas valiosas reservas e riquezas. – O apresentador hesitou um pouco e continuou ainda inseguro com que iria dizer. – Eu em particularmente confesso que já fui um explorador da floresta e hoje me arrependo disso. Me arrependo de ter destruído plantas, ter matado animais inocentes e colocar armadilhas no seu interior... Espero que isso sirva para todos você aqui presente. Que nenhum de vocês façam uma selvageria dessas. Espero que todos você guardem a mensagem desse garoto de como é importante guardar a sua vida e como é importante preservar para podermos viver. Por favor, palmas...
Não teve um lugar exato de onde surgiram as primeiras palmas, os primeiros gritos e os primeiro assovios. O auditório inteiro gritou em uníssono o seu nome à medida que as palmas e assovios disparavam de todos os lugares. O garoto levantou-se ao lado dos outros que se postaram de pé para saudá-lo. Em seu rosto era perceptível como estava contente, que seu trabalho tinha dado certo e como tinha acertado todos os detalhes. Definitivamente fez o que queria: impressionou e espantou a todos com sua tese.
Marine levantou seguindo os estudantes que gritavam euforicamente fazendo força para aumentar a força do choque de suas mãos e atenuar seus gritos. As saudações duraram por muito tempo, não cessando quando o apresentador fez menção de falar; todas as turmas estavam louvando o garoto como um ídolo nem se importaram mais com o seu cabelo bagunçado ou o ar de confiança e o sorriso sempre igual em seu rosto.
Leonardo chegou mais para frente do palco, ficando em pé na beirada e agradeceu a todos com um simples aceno de mão; simples, mas que fez todos os estudantes retomarem suas saudações, abafando mais uma vez o apresentador.
Desta vez Renato pode ver com clareza a fisionomia e as expressões do garoto. Tinha quase certeza que poderia ser ele. Abriu a boca, decidido do que ia dizer, virando-se para Marine chamando sua atenção.
- Renato é ele!
Antes de dizer o que pensava, Marine disse a sua frente, fazendo-o abaixar a mão e fechar a boca.
- Era isso que ia te dizer... Só pode ser ele... – Renato olhou para o palco, o garoto ainda de pé, recebia os cumprimentos dos convidados de honra e dos seus colegas de apresentação. – Tem as mesmas fisionomias, as mesmas feições, e...
- O sorriso... É único... Não me enganaria... Tem que ser ele... – disse ela fixando o olhar ao garoto, que retornava ao seu lugar.
- Do que é que vocês estão falando? – perguntou Lana para Marine, mas não obteve resposta. Devolveu a pergunta para Renato, também sem sucesso.
Lukas já imaginara do que se tratara. No dia anterior Renato lhe contara mais uma vez, a seu pedido, o sonho com as Cartas Sakura. Sabia que falavam de mais um Card Captor que estava no sonho dos garotos. Correu para falar com Lana sobre a teoria, mas calou-se e se sentou como os demais haviam feito. O apresentador pedia silêncio à platéia, um pouco eufórica, e com a terrível luta que travava com os papeis em sua mão continuou os créditos finais em seu microfone.
- Bem... É só isso... – virou um dos papeis passado os olhos rapidamente. – Queremos agradecer a todos os nossos convidados, a equipe de contra-regras, a reitoria da Universidade, que apoiou a iniciativa de proteção da floresta e a todos vocês que estiveram aqui presente neste dia de hoje nesta esplendorosa palestra. ‘Vamos Cuidar do Verde’ neste ensolarado mês de Fevereiro. Agradecemos a todos e tenham um ótimo dia...
O apresentador se retirou do palco cumprimentado os convidados e os palestrantes que o seguiram à saída a direita do palco. Os demais adentraram por ali pouco tempo depois, deixando todo ambiente vazio às luzes das grandes iluminarias refletindo nas paredes azuis-turquesa que delimitavam seu espaço.
Um a um, grupos de estudantes foram deixando o local em uma fila mal organizada que se estendia até o grande arco que dava acesso ao saguão auditório. A turma de química saíra primeiro deixando engarrafados a turma de geopolítica com a de história, gerando muito tumulto. A turma de biologia estava mais ao fundo tentando forçar a barricada humana para também poder sair. Passado o momento de confusão o auditório tornou-se vazio e mais amplo do que parecia ser minutos antes; os estudantes seguiam para seus Institutos correspondentes e alguns rumaram para direções distintas: alguns para suas casas, outros para bares ou restaurantes, e outros continuaram nos pátios da universidade com grupos de amigos ou sozinhos. Marine e Renato ficaram no saguão esperando os guardiões voltarem do banheiro, observando apreensivos para aporta que dava acesso aos camarins do auditório.
Lukas se juntou a eles primeiros e também permaneceu a esperar pelo garoto que a qualquer hora teria que sair por aquela porta. Estavam muito inquietos e impacientes: Renato consultava seu relógio a curtos intervalos e Marine começou a roer suas unhas como uma tentativa de acalmar sua ansiedade. Distraíram-se um pouco com a chegada de Lana dizendo que tinha se perdido em um dos corredores, por isso demorara tanto. Mas logo a chegada da garota não trazia mais calma a eles, pelo contrario, juntaram-se quatro adolescentes postados ao saguão esperando por ele.
Passaram-se minutos de espera e então viram quando irromperam as primeiras pessoas pela porta. Os convidados saíram em pequenos grupos dirigindo-se ao saguão, instantes depois uma garota saiu andando suavemente entre as paredes como se conduzisse uma dança. Renato conheceu ser Luíza Macine, a garota que Marine tinha certa aversão. Seus cabelos lisos e negros chegavam às sua cintura e dançavam uniformemente com o vento. Ao passar por Marine seus olhos queimara de fúria e suas mãos fecharam com imensa força, por um momento pensou que a amiga fosse atacar a garota. Mas esta passou em silêncio, lançando um olhar desafiador a Marine, que correspondeu com o mesmo.
Os outros palestrantes saíram segundos depois conversando com alguns amigos e contra-regras que vinham ao seu encalço. Mas nada do garoto que eles esperavam. Lukas sentou-se no chão e foi seguido pelos outros que se tornaram mais e mais impacientes.
- Será que ele já não foi embora e não vimos... – perguntou Lukas depois de um tempo. – Talvez tenha sido enquanto estávamos tentando sair...
- Concordo... Acho que estamos fazendo papel de bobos aqui, talvez ele já esteja na casa dele. – concordou Marine.
Ficaram em silêncio ao ver a porta se abrir novamente eu ma garota carregando uns papéis e deixando cair por onde passava alguns panfletos que todos conheceram ser o da apresentação de Leonardo. Renato decidiu perguntar para a garota se Leonardo ainda estava no auditório. Lançou um olhar para Marine e a amiga levantou-se e barrou a garota, perguntando a ela...
- É... Por favor, você sabe se Leonardo Ikiteney ainda está lá dentro? – Marine perguntou agachando ajudando a pegar os papeis que caiam...
- Leonardo... – se calou por um tempo tentando ajeitar os papeis e prosseguiu. – Não, ele já foi... Acho que deve ter sido um dos primeiros a sair, entrou correndo pela sala pegando sua mochila dizendo que ia para a floresta com uma turma do nosso curso. Parecia um relâmpago... Mal deu para perguntar se...
- Desculpa, mas – Lana a interrompeu – você sabe se já tem muito tempo que ele saiu?
- Como eu acabei de falar ele foi um dos primeiros a sair... Deve ter mais ou menos uma hora. – respondeu a garota com um ar desconfiado.
- E como chegamos a essa floresta que ele foi? – Renato interrogou-a dessa vez
- É a floresta de Andara... Vocês devem saber como chegar lá. Ele foi para a clareira da parte do observatório. – respondeu ela novamente, mas com ar desconfiado, fitando todos os garotos que a circulavam. – Posso saber o que vocês querem com ele...? É algo que eu possa ajudar...?
- Não é só com ele, lamento... É que nós queremos... – Marine se embaraçou no que ia falar.
- Perguntar algo a ele sobre a palestra. – Lana respondeu, aliviando Marine que olhava para ela agradecida. – Sabe, ele deixou um furo em seu texto e queríamos que ele nos esclarecesse uma dúvida nossa...
Lana falou as palavras certas. A face de garota mostrou-se muito animadora e lisonjeada. Era importante que pessoas discutissem sobre a tese da turma, sinal de que estavam realmente interessados.
- Bom... É melhor vocês irem... Acho que ele foi se reunir com contadores de histórias... Ele adora isso...
Os garotos a interromperam, agradecendo rápido e saindo às pressas pelo pátio. Subiram dois a dois os degraus da escada, logo estavam na portaria e em seguida para a avenida de acesso a universidade.
- Precisamos correr... Quanto mais cedo ele souber sobre as cartas, mais rápidos as encontraremos... – disse a garota.
- Mas e se não for ele... – perguntou Renato a Marine. – E se estivermos enganados. Talvez estejamos imaginando coisas...
- Não acho... O sorriso era... era...
- Único, eu sei...
- De toda forma vamos correr, temos que descobrir logo quem são os outros dois garotos que estavam no sonho. – afirmou ela.
O grupo seguiu pela avenida com passos acelerados em direção ao observatório, que não se encontrava muito distante; pertencia a universidade e era usado por diversos Institutos que envolviam ciências espaciais, mas quase sempre estava vazio. Renato decidiu acompanhar o grupo a pé, já que as garotas estavam sem bicicleta e Lukas andava com uma que fora encostada por Rodrigo a algum tempo.
Os carros passavam devagar por ser um perímetro com muito trafego de pessoas. As casas ao redor da universidade eram simples e na maioria delas havia uma placa com o recado “aluga-se quartos para universitários”, já outras havia o aviso “lotado” abaixo das placas. O movimento de carros e pessoas estavam muito intenso, isso devia-se ao fato de ser o horário de almoço. Muitas pessoas entravam e saiam de bares e restaurante trazendo consigo pratos com grandes refeições, outros comiam pastéis em lanchonetes, já outros lanchavam pelos cantos da rua.
Não demoraram muito e avistaram os primeiros vestígios da floresta toda viva com seu verde vibrante. Ao longe parecia uma enorme catedral; as árvores maiores formavam uma cúpula e sua altura se atenuava a medida que se chegava ao centro., formando uma abobada de folhas que chacoalhavam com vento. De longe escutava o barulho que elas faziam, balançando como uma leve coreografia. O sol que insidia nas folhas refletia para todos os lugares deixando-as mais brilhantes com um verde muito intenso.
Correu a Renato uma sensação de calor, de conforto e de liberdade à medida que se aproximavam. Lembrou-se que costumava passar por esse caminho quando voltava sozinho a pé para casa no inicio do seu curso de química, tinha se esquecido de como aquela sensação lhe fazia tão bem e como o lugar era tão lindo e vivente. Por alguma razão não passou mais por ali; começou a tomar caminhos diferentes a cada dia procurando o mais curto e o menos cansativo. Por vezes apareciam-lhe amigos oferecendo carona e depois de um tempo sua bicicleta realizou todo o trabalho por ele.
Lana andava comentando sobre tudo que via, principalmente sobre as roupas das garotas por quem passavam. Era espantoso como observava cada detalhe e como lembrava perfeitamente bem de dos seus modelos, fazendo combinações com um e com outro. Lukas era o mais calado dos quatro, caminhava refletindo, como sempre fazia. Tinha seus momentos para se divertir r descontrair, mas eram poucos. Concordava com tudo que Lana dizia, na realidade não dava a mínima importância às palavras que saiam da boca da guardiã.
Marine, por sua vez, não falava de mais nem de menos. Comentava algumas vezes com os garotos sobre assuntos distintos e algumas vezes calava-se ferozmente, não se mostrando muita amizade. Esta era a forma como refletia as situações: séria, seca, altiva e sarcástica.
O fato de estar procurando pelo terceiro Card Captor alterava o animo e o estado dos garotos, deixando-os mais apreensivos, irritados e ansiosos. Desejavam encontrar os outros garotos o mais rápido possível para dividir a árdua tarefa que lhes foram destinados.
O observatório foi crescendo diante deles e logo chegaram à entrada. Deram a volta e avistaram atrás dele uma entrada forrada de pedras irregulares para a floresta. Alguns vestígios de que pessoas haviam passado por ali era notado: rastros de pneus, pegadas, folhas amassadas... Duas árvores se retorciam e arqueavam em seus topos se cruzando, formando um portal de ramos e folhas com aparência convidativa. Em uma delas estava incrustada uma placa com um aviso desenhado a mão: “Clube dos Contos”, que pendia para um lado, quase caindo.
Os garotos se entreolharam e momentos depois caminharam cautelosos para a entrada, pé ante pé. Estavam receosos, não sabiam se era seguro ou se havia um perigo a sua espera, pronto para atacar quando atravessassem o portal de galhos. Estavam de frente a entrada quando foram surpreendidos por um garoto moreno que passou esbarrando por eles, meio apressado.
- Ei! – Renato se virou para o garoto. – Você sabe se o Leonardo está aí dentro?
- Acho que vi ele... Mas entrem aí e procurem, não será muito difícil achá-lo... não tem muita gente. – respondeu com pressa sem ao menos parar de andar, logo depois acelerou seus passos contornando o observatório e desapareceu de vista.
- Nossa, pareceu um vulto, que passou por aqui... – Lana disse tentando quebrar o silêncio entre todos. E deu certo, por que no momento seguinte todos começaram a rir.
Caminharam sem receio em direção a floresta e logo a adentraram. As árvores em volta formavam uma espécie de corredor curto e bem largo, que davam acessos a diferentes lugares. Muitas flores enfeitavam a entrada, pequenos micos saltavam de um galho a outro, fazendo palhaçada para os visitantes que acabavam de chegar e pequenos gatos miavam em alguns cantos. Tudo parecia era bem vivo e bastante convidativo aos olhos de quem entrava pela ali pela primeira vez, tinha uma aparecia que lembrava mais um jardim, do que uma selava. Uma vós foi se atenuando, destacando-se dos ruídos, à medida que caminhavam; era de uma garota, suave e meiga, mas apresentava um ar sombrio e frio. Passava temor através de suas palavras, e em momentos inesperado ela aumentava drasticamente sua amplitude, dando um tom maior de suspense e assustando as pessoas.
Caminharam até que se viram em uma clareira bem iluminada e aconchegante. A copa das árvores permitia que um pouco de luz invadisse o lugar, dando mais conforto que poderia existir. Tocos de árvores de diversos tamanhos estavam postos em vários lugares formando um círculo em volta de uma fogueira apagada, muitos deles estavam ocupados por garotos e garotas que olhavam com atenção para a voz que emanava de uma menina loira sentada próximo a eles. Fazia uma coreografia com os braços e passava terror a cada frase que encerrava. Sem dúvida ela estava contando uma história de terror, os movimentos e as palavras assombrosas não poderiam significar outra coisa.
Sentado do lado oposto eles o viram mais uma vez. Leonardo escutava com bastante atenção na história que Lúcia contava e gesticulava, parecia encantado e ao mesmo tempo assustado. Não só ele, mas os garotos perceberam que a história causava espanto e temor em todos, exceto por eles, que acabaram de chegar.
Não demorou e o conto de Lúcia chegou ao fim, seguido de palmas e cumprimentos, uma garota não muito baixa deu um grande abraço nela e oferecendo seus parabéns. A presença do pequeno grupo ainda em na entrada da clareira chamou a atenção de todos, estavam apoiados em algumas arvores e observavam tudo com estranheza. Até que uma voz saiu do circulo e perguntou um garoto para eles.



Feliz ano novo a todos! Bom e como presente de ano novo eu trago o oitavo capítulo para o blog. Quero agradescer a todos que veem aqui ler e espero que para esse ano as coisas deem certo para mim e tomare que para esse blog também!
Esse capitulo vai para os amigos da net que gastam horas conversando comigo pelo msn.

Paulo M. Goulart



Cards Infinity
O Lago de Cristal
Capítulo 8
No Rastro do Card Captor
Paulo M. Goulart ©2007 – 2008
Finalizada em 02 de Janeiro de 2008

Cards Infinity – O Lago de Cristal
TryMax ©2008
Paulo M. Goulart ©2007 – 2008
História Original: Clamp ©1996; Japão
Alguns nomes e imagens são de autoria do Estúdio Clamp e possuem direitos autorais reservados as autoras. Os demais nomes, tipologias e símbolos são de direitos autorais do autor desta história

Brasil, 2008