Paulo News
Capítulo 10
O Desfiladeiro da Raposa
Paulo M. Goulart, ©2008

Palmas, assovios exaltados e olhares de confirmação, de que apreciaram o conto de Lana, surgiram entre eles. Os garotos presentes ficaram satisfeitos com o desempenho da garota e antes que pudessem dar os parabéns Lana ainda continuou.
- Essa história é de um antigo mag... ai. – deu um pequeno grito quando Lukas deu uma cotovelada em sua barriga. – Red... Clow Red... “ai” “ai” – exclamou bem baixo para que ninguém pudesse ouvi-la.
Renato quis rir da cena, era engraçado ver como Lukas e Lana se entendiam tão bem, cada vez se surpreendia mais com os assuntos desconexos da garota e como Lukas a controlava; e esta por sinal tinha nele um grande amigo, pois nunca brigaram pelos atos que o Guardião faz com ela. Não era por menos se conhecem a anos, teria que ser uma amizade solida e concreta. Estava compreendendo, com a ajuda dos amigos, o que era uma amizade real; essa não era sonho, existia e ficava mais forte a cada dia que se passava.
Todos ainda estavam em volta da garota perguntando-lhe varias coisas: se os garotos eram bons ou maus, se conseguiram voltar para casa, se foi real... Mas Renato tinha os olhos apenas para a pessoa sentada ao lado, atenta e entusiasmada com o que a amiga explicava: Marine. Como seus cabelos eram lindos, pensava. Como podia ser tão linda e ao mesmo tempo ter um gênio tão complicado. Não sabia ao certo o que estava acontecendo com ele, mas sentia a necessidade de estar perto, poder tocá-la, sentir seu calor, o seu perfume. O que estaria acontecendo com ele, eram as perguntas que não deixava Renato em paz. Agora, alem das Cartas Sakura, havia mais algo que prendia sua atenção, mais algo que o deixava sem sono nas noites.
Sua atenção foi logo cortada quando viu mais a frente dos garotos uma mão pegando uma das mochilas jogadas no monte. Percebeu instantaneamente que era a mochila idêntica a sua. Olhou para os lados, mas não o encontrava. Marine ainda admirava Lana explicando pela terceira vez o seu conto a uma garota que insistia em colocar defeitos e contestá-la; Lukas estava ao lado dele, porem de olhos fechados, concentrava-se em alguma coisa, nem quis atrapalhá-lo com isso.
Ao virar-se encontrou Leonardo em pé conversando com Lúcia, estavam do lado oposto à saída. Se saísse com certeza passaria por ali e seria notado por eles, pensou Renato, retornando sua atenção para Marine: contemplando-a a cada sorriso e agito nos cabelos.
Decorridos alguns minutos de discussão os garotos retornaram ao seu lugar para um novo conto começar entre eles. Lana ainda falava mal da garota que teimava em dizer que não havia sentido uma floresta em cima de um desfiladeiro e Lana replicava a tudo, sem se importar com o que pensasse dela. Para Lana aquilo era uma ofensa, se considerava uma excelente contadora de estórias, tinha encontrado ali entre esse grupo diferente o seu lugar.
- Bem pessoal, vamos continuar com os contos...? Deixem as discussões para depois, acho que nossa querida Lana irá sempre nos lisonjear com sua presença... – disse o garoto baixinho – Agora será o Leonardo... Para onde ele foi!? Ele estava aqui agra mesmo. Para onde pode ter ido...? – Disse Gabriel procurando para todos os lados.
- Ele foi embora... – respondeu Lúcia – Disse que estava com fome. Mas também né Gabriel, já passou da hora do almoço – disse consultando o relógio – é quase duas horas. E você sabe como ele é... se passar da hora de comer fica desesperado...
- É... Comida é uma das cinco necessidades do Leonardo, somando com dormir, patinar, estudar, ler e ir a um parque de diversões...
Lúcia e Gabriel discutiam sobre quem seria o próximo a contar estórias, ambos indicavam nomes diferentes e era quase impossível se entenderem, não havia nenhum consenso e muito menos acordo. Lúcia insistia que os convidados contassem mais um conto para depois vir um contador da grupo deles.
Renato ainda procurava vestígios do garoto, mas nada encontrava. Marine também fazia o mesmo, olhava em todas as direções procurando, chegou a perguntar uma garota para onde ele tinha ido e por onde tinha passado. Enquanto a garota explicava para Marine, Lukas e Lana não se importavam com o que tinha acontecido, estavam atentos e vigilantes a cada som que irrompia da floresta, viravam as cabeças constantemente procurando por algo.
Então os guardiões se levantaram ao mesmo passo que os Card Captures. Todos partiram de seus lugares encontrando todos na saída, no estreito corredor arbóreo. Lukas fazia gestos com cabeça para Lana e ela assentia e continuava a procurar por algo. Marine chegou com as respostas de Renato.
- Ele foi para casa dele... fica do outro lado da floresta...
- Mas como não o vimos sair? Estávamos todos atentos... menos a ela... – Renato disse apontando para Lana, que ainda tentava despistar a garota que ainda a contestava por causa do conto.
- Ele mora do outro lado da floresta como eu disse... Por isso ele atravessou ela pelo outro lado. Por isso não o vimos sair... preocupamos tanto com a saída e acabamos nos esquecendo do resto...
- Mas nunca íamos saber que ele ia fazer isso... – disse Lukas. – Mas será que não é perigoso atravessar essa floresta...? Parece ter muitas coisas perigosas aí dentro.
- Bem, parece que ele já está acostumado. A Garota que me contou disse que ele faz isso direto e nunca aconteceu nada...
Lana se juntou ao grupo depois de alguns minutos, estava pondo um fim na discussão com a arquiinimiga que acabara de conseguir. Renato se adiantou e contou para ela o que tinha acontecido: haviam perdido o garoto de vista mais uma vez, já era a segunda naquele mesmo dia. Lana culpou Lukas por não estar prestando atenção e a Renato por ter perdido ele de vista estão sentado do seu lado.
- Já disse... – exclamou Renato com um pouco de irritação. – Ele saiu pelo outro lado, entrou pela floresta para ir embora... O que queria que eu fizesse...? Só se tivesse olhos na cabeça...
- Mas você tem... – Marine tentou fazer uma piada, tentando dissipar aquele pesado clima entre eles. – Um par ainda... Que por sinal são bem lindos...
Renato ficou um pouco vermelho com o elogio de Marine, foi o suficiente para eliminar toda sua fúria, suas palavras e suas mãos tinham um poder fora do comum para fazer isso. O garoto abriu um sorriso tentando esconder sua face rubra e deu uma pequena gargalhada e continuou.
- É... tenho um par sim, mas na frente e não atrás... Se eu tivesse, eu seria...
- Um monstro. Com certeza um mostro... além disso iria olhar mais ainda para Marine... – Lukas entrou também na brincadeira, deixando Lana de lado ainda contrariada com eles. – Você não tira os olhos dela...
Renato teve uma ânsia de avançar no pescoço do amigo e o fazer engolir as palavras que tinha dito, mas de nada adiantaria... elas já haviam saído, deixando sua face mais avermelhada. Marine também não ficou atrás, teve um pequeno susto e em seguida seu rosto corou, mostrando que também havia ficado sem jeito com a afirmação do amigo. Já estava se tornando algo constrangedor, os olhares dos amigos caiam sobre eles com pequenas risadinhas. Renato se esforçou para mudar de assunto, procurou e sua cabeça algo banal para poderem, ele e Marine, saírem daquela situação. Lana perdeu toda sua raiva e agora se divertia junto com Lukas ao ver o estado dos dois garotos, era engraçado ver como eles ficaram atordoados com a resposta de Lukas. Marine mudou de assunto, ajudando a Renato que, até então, não havia encontrado nenhum outro para substituir aquele tão constrangedor para eles.
- Bom... a gente vai ter que voltar para casa... – disse ela, menos vermelha do que antes.
- É. Não faz mais sentido ficar aqui. – concordou Renato. – Vamos para casa, estou com fome também e cansado. Procuramos por ele na semana que vem...
- Mas por que na semana que vem!? Ainda estamos na quinta- feira. Precisamos reunir os Card Captures para fazer um busca mais meticulosa pelas Cartas Sakura... – disse Lana se exaltado novamente.
- Mas não há como... – respondeu Renato. – Não sabemos onde ele mora... e na semana que vem começa as aulas na Universidade, dia 10 de fevereiro. Essas palestras e esses trabalhos iniciais são trabalhos de férias e a abertura do ano letivo, – explicou percebendo a expressão intrigada da garota. – de fato as aulas ainda não começaram. E quando começar teremos mais chances de vê-lo pelos pátios do instituto.
- É mesmo, ele tem razão. – reforçou Marine. – É melhor irmos embora. Preciso tomar um banho e comer alguma coisa... Estou morrendo de fome.
Lana e Lukas não discutiram após os argumentos dos garotos, apenas deixaram se levar pela mesma vontade que os seguiam, a fome.
Marine e Lukas foram até a grande pilha de mochilas e pegou a sua e Lukas pegou a do Renato, que estava um pouco pesada. Levaram até eles e se dirigiram para mais perto da saída.
- O que você leva aqui dentro Renato...? tem uma coleção de pedras na sua mochila? Está muito pesada, que isso...? – disse atirando-a para o garoto.
- E olha que hoje eu nem trouxe todos os meus livros, apenas os da palestra de química, para poder acompanhar o que eles diziam... – disse ao garoto, mas curvou-se um pouco quando a segurou. – Nossa... Está pesada mesmo... Não me lembro de estar assim quando eu saí. Acho que coloquei menos livros.
Renato abriu com curiosidade sua mochila para se certificar que era a sua. Puxou o zíper que guardava o compartimento de livros. Havia inúmeros livros com papeis amassados e alguns panfletos que haviam sido empurrados a força para caberem ali dentro. Suas suspeitas se confirmaram, Lukas pegou a outra mochila do monte e não a sua...
- Essa não é minha mochila Lukas... Você deve ter confundido, tem outra igual aminha lá, eu vi quando eu entrei e deixei lá.
- Você deve estar enganado... Só tinha essa lá. Não tinha nenhuma outra igual a sua... – replicou Lukas. – E Marine ainda me viu revirando todas elas, por que a sua estava bem no fundo...
- Mas eu a deixei por cima de todas... Não foi Marine...?
- Foi... – respondeu ela – Eu achei estranho estar no fundo porque tinha visto você deixá-la perto da minha...
- É bem simples... – disse Lana pegando a mochila das mãos de Renato, estremecendo um pouco com o peso. – Vamos perguntar de quem é, talvez o dono dela esteja aqui e tenha pegado a sua por engano...
- É mesmo... pergunta aí Lana – disse Lukas já mostrando um pouco de preocupação na voz.
Lana voltou mais para dentro do circulo de garotos, onde um novo conto havia se iniciado. Uma menina meio redonda estava em pé contando um conto que parecia ser sobre vampiros. Lana colocou sua mão em seus ombros, pedindo sua atenção.
- Me desculpe... Posso lhe atrapalhar um pouquinho? Vai ser bem rápido... – pediu Lana.
A garota confirmou com um sim, balançando a cabeça e sorrindo sinceramente para ela.
- Me desculpem todos vocês... Mas, quem tem uma mochila igual a essa? – perguntou estendendo a mochila, com um pouco de força, na frente dos garotos.
Todos ficaram em silencio, mas curiosos...
- É que havia outra igual a essa ali no monte. O dono dessa aqui – disse apontando para o objeto – deve ter se enganado e pegado a outra, a que pertence ao meu amigo.
- Perai!? – Gritou uma voz no meio da roda. Eu conheço essa mochila... – Lúcia chegou mais perto de Lana – É do Leonardo...
- Como é...!? Do Leonardo...? – Uma voz surgiu atrás deles, Renato emergiu subitamente pela trilha, trazendo, colado logo atrás, Marine e Lukas. – Então ele deve estar com a minha...
- Mas acho que dá tempo de você o alcançar... – Ele disse que passaria em um lago que fica na próxima clareira para pegar uma espécie de planta para estudar. Acho que ele deve estar chegando lá e até encontrar a planta vocês terão tempo de alcançá-lo.
- Por onde ele foi? – perguntou Marine.
- Por esse caminho aqui... - Lúcia apontou para uma trilha não muito usada, mas havia sinal de invasão por ali, pequeno e quase imperceptível. – É só vocês segurem essa pequena trilha que o alcançarão no lago.
- Vamos...? – Lana perguntou.
- Vamos, - respondeu Marine – temos que alcançá-lo antes de sair do lago. É melhor corrermos...
- Além tem algo que está lá dentro que... – Renato não concluiu e seguiu até a pequena trilha. – Vamos logo... – acenou com o braço chamando a todos.
Todos o seguiram até a entrada. Lana foi a última a sair de onde estavam, agradeceu Lúcia pela informação e está retribuiu com um convite à garota.
- Volte mais vezes Lana... Você é uma ótima contadora de Estórias...
- Obrigado... Eu gostei muito daqui e de todos vocês... Voltarei assim que puder... – Lana sorriu e apertou a mão de Lúcia. – Bom, agora tenho que ir. Até mais...
Lana entrou pela rilha, encontrando seus amigos logo a frente discutindo sobre a mochila que estava no poder de Leonardo. Pegou a conversa pela metade, mas soube do que se tratava.
- ...tem o que dentro dela? – perguntou Marine, arrancando um pouco de galhos que enganchavam em seu cabelo.
- Lá está o livro mágico... – respondeu ajudando a garota a retirar os galhos. Por sorte a Carta Vento e a chave estão comigo.
- Também... A chave e Carta Chuva estão comigo também... Lana me aconselhou levá-los para todos os lugares, talvez uma carta surja do nada... Também disse para eu escrever meu nome nela para obedecer só a mim, senão se libertaria de novo e... Não quero nem pensar, já bastou por ontem...
- Bem lembrado Lana. Esqueci de dizer isso ontem, ainda bem que você se lembrou...
Lana lançou um olhar mortal a Lukas, qualquer ser que pudesse ver ficaria com medo, até mesmo o mais feroz dos animais. Em seguida fechou o seu punho e bateu com força na cabeça de Lukas, fazendo cambalear para o lado clamando de dor.
- O que pensa que eu sou!? – disse exaltada. – Uma retardada...? Sou uma guardiã assim como você... É lógico que eu sei que a dono tem que escrever o nome na carta, para poder obedecê-lo, não sou lezada... Imbecil...
- Calma, calma... me desculpe... Eu só agradeci por você ter dito a ela... – Lukas respondeu com as mão na cabeça. – Não quis dizer que você não sabia...
- Mas disse!!! – gritou Lana
- Ei, ei, ei... Parem vocês dois. Temos que alcançar o Leonardo antes que ele saia da careira e vá embora... – Marine interveio
- Ela tem razão... se perdermos ele hoje as coisas ficarão mais encrencada do que já estão... – Renato também se colocara no meio, ajudando a conter o gênio difícil desses dois guardiões.
- Ta bom. Vocês têm razão... – Lana a baixou seu tom de voz e seguiu a frente de todos. – Mas pense antes de dizer besteiras Lukas... Era só o que me faltava... – continuou resmungando até virar a uma curva a direta deixando os outros para trás...
- Ei espere pela gente... –disse Renato.
Todos seguiram a garota, ainda emburrada, pela pequena trilha, atravessando uma selva que parecia não ter fim. Invadiram mais a fundo, a sombras ficaram mais densas, os ruídos silvestres se atenuaram e escutavam os sons dos grilos, pássaros, , rugidos, galhos se quebrando, folhas se mexendo e caindo... As vozes dos contadores de contos desapareceram atrás deles...


***


- Bromelus cuniatus... Onde vou achar isso...? – Coçou a cabeça fazendo uma cara de descrença. – Será que tem aqui nesse lago...
Leonardo havia chegado a algum tempo no lago, cruzou por um pequeno atalho para que chegasse mais rápido. Colocou sua mochila perto de uma árvore, sentando ao seu lado. Do bolso, entreaberto, tirou uma folha de papel com uma lista de plantas que pegaria para seu estudo de Botânica nesse semestre.
Ainda estranhava o fato de sua mochila estar tão leve, mas concordou em ser apenas impressão, também considerou o fato de entregar alguns livros para Lúcia antes de sair. Porém, o que mais achou estranho foi ela estar por cima das outras. Pelo que lembra foi um dos primeiros a colocá-la naquele monte, mas talvez pudessem ter revirado, e assim ela talvez tenha ficado por cima das outras. Eram as respostas que despendiam rapidamente de sua cabeça. Para tudo era assim, procurava uma resposta para cada nova questão que lhe surgia na cabeça, era muito difícil deixar uma com meias palavras.
Contornou o lago reparando em sua água, meio esverdeada, mas era possível ver no fundo alguns peixes e outros animais aquáticos que não soube o que era. Ficou um bom tempo contemplando essas espécies enquanto circulava o perímetro a procura da Bromelus cuniatus. Sua atenção foi desviada pelas vitórias-régias mais ao centro, algumas eram enormes; “Acho que me agüenta”, pensou. Seguindo em frente se deparou com um arbusto bem florido encrespado no topo de uma ladeira, seus espinhos, grandes e secos, saltavam para todos os lados, as folhas tinham o formato de estrelas e suas bordas serrilhadas. Leonardo olhou em sua lista e para planta. E um vislumbro de alivio aflorou em sua face.
- Achei!!! – gritou alto – Nem pensei que conseguiria... Pensei que tivessem me zuando quando me disseram que tinha isso aqui – disse contente por encontrar o que procurava...
Colocou a mão livre em seu bolso traseiro procurando um saco plástico para que pudesse recolher uma muda da espécie, mas nada alem de papel de balas e lembretes inúteis estavam ali. Sua mochila, do outro lado do lago foi imediatamente fitada pelo garoto. Contornou de volta o lago até a árvore, observando sua mochila estranhamente mais leve, suas alças foram erguidas e ele a colocou em suas costas, olhando mais uma vez a lista e a pequena imagem da planta após o lago e no topo de um barranco.
Pela terceira vez fez o mesmo trajeto contornado o lago e seguindo mais adiante. As vitórias-régias haviam se deslocado mais para a margem. Leonardo teve que se segurar para não pular em cima de uma delas, tinha que tirar sua dúvida: agüentaria seu peso?
A planta novamente se refez aos seus olhos. Ao chegar mais perto percebeu que seus espinhos eram mais pontiagudos do que vira ao longe, e suas folhas mais serrilhadas e mais estreladas. Suas flores eram amarelas e agora que estava percebeu que exalava um perfume enjoativo, mas lhe fazia arrepiar até o último fio de cabelo. “Não dá para perceber as coisas de longe”, pensou observando como tudo era mais especial e exótico do que viu antes.
- Pelo visto você é uma das agressivas. – passou o dedo por uma folha, reconhecendo sua face peluda e as serras na borá bem afiadas. – E parece ser afrodisíaca também, com esse cheiro... – riu, mas logo fechou a cara, o perfume se intensificou mais.
Percorreu os arredores do arbusto procurando por um lugar de onde pudesse ser retirada uma muda, mas estava difícil. A todo lugar que se olhava estava infestado de espinhos ou então não servia para ser retirada, morreria logo em seguida. Circulou-a mais de três vezes até que encontrou um lugar, bem no centro, que daria uma ótima muda. Voltou para sua mochila; os sacos que não estavam em seu bolso traseiro deviam estar nos bolsos laterais da mochila.
Virou-a trazendo para frente, encostando-se a seu peito. O zíper, laranja, estava meio emperrado.
- Esse zíper nunca deu problema... – disse puxando com impaciência – Por que agora vai dar...
O zíper finalmente abriu, mas os sacos que procurava não estavam ali dentro. Havia papeis de pesquisa, lapiseiras, canetas douradas e prateadas usadas como marcadores e uma tabela com uma lista de símbolos que logo reconheceu serem elementos químicos. Tinha também um telefone celular, meio arranhado e grandes marcas de danos em alguns pontos, no visor, alem da data, hora, transmissão e menu tinha no auto o nome do seu dono.
- Renato Kazushi? Mas quem é esse...? Não conseguia se recordar de nenhum amigo com esse nome.
Recolocou o celular no bolso e voltou a observar o arbusto, girou em sua volta até ficar de costas para o barranco, lá embaixo havia apenas mais mato e mato.
Abriu o zíper principal para ter certeza do que imaginava, e assim foi. Não encontrou nenhum dos seus livros, tampouco seu papeis com anotações e rabiscos. Sua mochila tinha sido trocada, e ele na pressa de ir embora nem percebeu a troca.
Outros livros estavam guardados no interior da bolsa, estavam mais organizados que os seus e os papeis com anotações estavam dispostos de forma a facilitar a sua busca. Foi retirando uma a um os livros do interior.
- Pelo visto o dono dessa mochila estuda química, só tem livros disso aqui... – disse analisando os primeiros livros tirados.
Devolveu ao seus lugares de origem e retirou mais uma remessa, novamente com o mesmo assunto, geral: química. Eram na maioria cálculo químico e poucos tratavam de assuntos adversos, como a química orgânica e a eletrosfera.
- Será que o dono dessa mochila não tem nenhum saquinho aqui dentro...? Assim eu poupo meu trabalho de voltar depois... – disse revirando tudo, tornando bem o seu estilo meio desorganizado.
Passando os dedos sobre os papeis e os livros notou a presença de mais um escondido entre vários papeis, preso no tecido que forrava a parte de trás da mochila. Os entalhos na sua lateral aparentavam ser de capa dura e os detalhes revelavam grande luxo. Sua capa rosa e seu formato lembravam um caderno de anotações. “Um diário”, pensou ele. Mas não tiraria suas conclusões antes que pudesse vê-lo e, se de fato, fosse mesmo um diário não ousaria abri-lo.
No primeiro toque firme Leonardo sentiu um forte arrepio percorrer todo seu corpo, suas mãos adormeceram, seu olhos começaram a arder e do livro que mal segurava houve a liberação de faíscas vermelhas e um pequeno barulho saiu de dentro da mochila, onde o livro estava.
Olhou para os lados tentado disfarçar a sensação que sentia e tentar confundir o próprio corpo que tudo estava em ordem. Voltou os olhos para o livro, ainda preso em muitos papeis, e segurou mais firme dessa vez. A marca em sua mão ardeu instantaneamente quando começou a puxá-lo, por um momento pensou ser um brinquedo eletrônico: desses que davam choques em quem pegava. Foi erguendo devagar, revelando as figuras e formas que estampavam a capa rosada e luxuosa. Mais faíscas soltaram do mesmo lugar de antes, dessa vez Leonardo pode ver de onde elas saiam: do pequeno feicho que lacrava o livro. Seguindo de mais um estalo, soltando, por completo, o feicho que lacrava o livro.
O barulho da mochila caindo no chão não foi ouvido por ninguém, nem mesmo a pequena exclamação que soltou. O livro na altura de seus ombros lhe mostrava a imagem de quatro insígnias: o sol, o planeta, a lua e a estrela. Passou os olhos por todos, mas sua atenção se deteve apenas na lua, azul e com uma inscrição kanji na lateral; formada por duas circunferências dispostas uma dentro da outra, em extrema lateral.
Sua mão que soltou a mochila devido ao grande choque, pegou o livro, deixando a outra livre. Com os olhos atentos olhou do livro e para sua mão direita aberta na mesma altura do livro, da mão para o livro, do livro para a mão... Os símbolos eram fidedignos nem mesmo a inscrição se alterava em um traço.
Ajeitou em suas mãos segurando mais firme do que antes e não se importou com seus princípios de não mexer em coisas que não lhe pertenciam, havia algo mais em jogo, não se tratava apenas de mistérios a serem resolvidos, mas algo também o chamava, convidando a abrir o livro.
Como uma explosão, seu sonho de três noites atrás tornou a sua cabeça mais nítido do que poderia se lembrar. As perguntas que estavam dispersas em sua mente procurando por respostas começaram a encontrá-las. As estranhas faces que lhe pareceu família no clube dos contos viream a tona, se tratavam das mesmas pessoas que estavam em seu sonho; a cor do livro era a mesma da torre rosa e as figuras do verso tinham certa semelhança com os seres que surgiram ao lado dos garotos.
- Mas como é possível...?
Muitas perguntas tiveram suas respostas concedidas, porem outras tantas eram formadas em pouco tempo, deixando todas desorganizadas. Agora, mais do que nunca tinha que encontrar o garoto que se sentou ao seu lado naquela roda de adolescentes e pedir a ele explicações, tinha que encontrar a menina que estavam com eles também, ela era peça fundamental desse quebra-cabeça que se formava.
Tinha que abrir o livro, sua consciência pedia isso, mas um pequeno medo ainda o prendia na metade do caminho, com a mão em cima do livro. Mas esse logo foi vencido e então puxou bem devagar a capa do livro receando com o que pudesse conter ali dentro.
Mais um susto abalou seu corpo e sua mente. Dentro do livro não havia nada. Continha apenas um compartimento, mas esse também estava vazio. Sua paginas eram de um rosa bem leve e confortante, mas estavam em branca, nenhuma letra estava escrita, nenhum rabisco, desenho ou símbolo havia naquelas páginas. Ao lado. Porém havia uma mensagem deixada a mão, com um fina caligrafia. Leonardo leu atenciosamente, se afastando um pouco do arbusto, que agora o espetava com um dos seus enormes espinhos.
- Clow Red...? – perguntou para si, mas nada sabia ou conhecia a respeito desse nome. – E essas cartas que ele menciona aqui, o que devem ser...? Será que são...
Novamente seu sonho veio à tona, enfocando a visão das cartas caído do céu semi-nublado da noite. Várias cartas despendiam do nada e caiam profusamente, seguindo as direções do vento. Varias imagens de pessoas e criaturas eram vistas no interior delas. Leonardo leu mais uma vez o recado na capa do livro, e releu, e releu, se afastando cada vez mais do arbusto. Não notou que o espinho não o espetava mais, mas mesmo assim deu dois passos para trás.
No último passo ele não sentiu seu pé firmar no chão. Um grande calafrio invadiu seu corpo e ele se viu caindo e rolando por entre galhos e pedras do barranco, que estava as suas costas. A queda se tornava mais íngreme e mais tortuosa na mediada que descia desgovernado ladeira abaixo. Vários galhos passavam rasgando sua roupa e seu corpo, por onde passava deixava rastros de tecidos desfiados presos nos galhos. Seu corpo foi se enchendo de ferimentos, já estava dolorido com tantas pancadas de pedras em que batia.
A ladeira foi se foi se distanciando mais e mais do barranco, era bem maior do que parecia ser. Vista de cima era tão inofensiva, mas a queda não perdoava, seu corpo estava pedindo socorro, não suportava mais os ferimentos e as batidas. Seus olhos foram se fechando e aos poucos foi perdendo a consciência. A queda suavizou no momento certo, o terreno ficou mais plano, e alguns galhos o seguraram, impedindo de continuasse a descer.
Demorou muito para que, finalmente abrisse seus olhos. Seu corpo estava todo machucado e vermelho, sangrava de todas as partes e era difícil decidir qual doía mais ou estava mais feio.
Mexeu. Tentou se virar, mas um grito muito forte saiu de sua boca, ecoou por todos os lugares, mas ninguém o escutou para vir ao seu socorro. Seu braço esquerdo permaneceu imóvel e ensangüentado, caindo sobre os galhos que o detiveram. Tentou levantá-lo novamente, mas mais u grito veio. Uma dor descomunal invadiu seu corpo surgindo daquele lugar. Seu braço havia se quebrado, no lugar onde foi fraturado houve a formação de um grande hematoma. A dor era a maior que já tinha sentindo, e qualquer movimento aumentava ainda mais.
Juntou todas as suas forças para poder se levantar, os galho que o seguravam se agitavam; segurou um que viu ao alto e com um impulso se levantou. Cambaleou para os lados, a queda ainda o deixava tonto, teve que se segurar com bastante firmeza aos galhos para que não caísse novamente. Seus olhos ainda estavam embaçados, mal conseguia visualizar de onde despencou. Gotas de sangue e suor percorriam seu corpo e a cada movimento uma dor nova surgia em algum lugar. O suo não contribuía nada, além de deixá-lo com uma horrível sensação contribuía para deixá-lo desnorteado a cada gota que invadia os seus olhos.
Aos poucos as imagens a sua volta foi se formando, a colina da qual caiu ganhou forma diante dos seus olhos, a selva mais densa se formou a sua volta. Conseguiu ver a roupa toda rasgada e manchada com o seu sangue. Viu o seu braço esquerdo, quebrado, escorado inconscientemente sob seu corpo. As imagens se tornaram mais claras e recobrou completamente os sentidos.
Ainda estava muito confuso com o que tinha acontecido. Tudo foi muito rápido, em segundos estava no alto lendo a mensagem de Clow Red, segundos depois havia despencado por dez metros indo parar onde estava agora.
Com um olhar quase clinico reconheceu seu braço quebrado e os vários cortes em todos os lugares. A mão ainda estava dormente e mais uma forte sensação de estar sendo chamada e observado se juntava a tudo o que estava passando.
Seus olhos, agora mais secos, olhavam para marca na mão direita, nesses últimos minutos ela ficou mais forte e mais evidente, assim como a imagem do livro.
- Ah... Onde foi parar o livro...? Será que eu deixei ele lá em cima...?
Seus olhos reviraram toda a clareira onde estava, mas nada alem das folhas amassadas e galhos quebrados pode ver. Não desistiu muito fácil, queria ter certeza se ele havia ficado na margem do lago, próximo ao barranco ou se havia despencado junto com ele.
Leonardo não o viu em lugar algum já estava convicto que ele ficara no exato lugar de onde despencara dez metros de altura.
Desistindo de procurá-lo sentou-se escorado em uma das inúmeras árvores que o circulava, escorou sua cabeça em seus joelhos e com a mão direita segurou, com bastante cuidado o braço, imóvel e quebrado, depositando em seu colo. A dor era muito forte, nunca sentiu algo assim, pode concluir que quebrar um osso não era lá uma experiência muito boa.
A dor abria um novo caminho para o medo, seus ouvidos ficaram atentos a cada som que denunciasse alguma fera. Algo o chamou de seu profundo pensamento e sua atenção se perdeu dando lugar ao som que pairava por todo o lugar. Um canto, uma lamuria triste vinha do alto encontrá-lo em seu estado de agonia. Ao olhar para cima procurando o causador do barulho um tanto irritante encontrou um pássaro vermelho, que pousara em um dos galhos não muito altos. Porém o pássaro foi ignorado, Leonardo se interessou mais pelo que havia ao lado dele. Preso entre alguns galhos, o livro era sustentado, fora ali que ela tinha ficado; nem na margem do lago, nem na clareira, estava a poucos metros de distancia muito bem preso, aninhado entre as folhas.
- Mas essa agora... Como vou conseguir tirá-lo dali.


Começa agora o arco 4... Muitas aventuras estarão por vir...
Esse capítulo vai para todos os companheiros do cursinho que fizeram o vestibular para Letras, todos aprovados... 'É NOIS LÁ!

Paulo M. Goulart


Cards Infinity
O Lago de Cristal
Capítulo 10
O Desfiladeiro da Raposa
Paulo M. Goulart ©2007 – 2008
Finalizada em 05 de Fevereiro de 2008

Cards Infinity – O Lago de Cristal
TryMax ©2008
Paulo M. Goulart ©2007 – 2008
História Original: Clamp ©1996; Japão
Alguns nomes e imagens são de autoria do Estúdio Clamp e possuem direitos autorais reservados as autoras. Os demais nomes, tipologias e símbolos são de direitos autorais do autor desta história

Brasil, 2008