Capítulo 11
Perdidos no Frio da Noite
Paulo M. Goulart, ©2008
Perdidos no Frio da Noite
Paulo M. Goulart, ©2008
O suor pingava em sua roupa, a dor insuportável não permitia que se levantasse, seu corpo exigia eu repouso absoluto.
Reuniu todas as forças que lhe restavam e levantou-se, apoiando no grosso tronco da árvore onde estava; seu braço ainda repousava sobre seu colo, agora já estava bastante inchado e os hematomas se espalharam ficando bem maiores do que antes, as veias se tornaram mais evidentes e os simples movimentos que fazia era motivo para soltar um gemido de dor.
Foi de encontro ao enorme paredão por onde tinha rolado até chegar a esta pequena clareia, com outro barranco ao lado, que parecia ter uma queda mais violenta do que a outra. Os cipós pendiam por todos os lados, a folhar mexiam inquietantemente. O sol, já chegando ao entardecer, insidia sobre as folhas, fazendo com que a iluminação ficasse um verde alaranjado. Em poucas horas o sol estaria se pondo e sabia mais do que ninguém que teria que sair da floresta antes que isso acontecesse, afinal era a noite que os animais saíam em busca de comida.
Com muito custo chegou ao imenso paredão, aqueles metros que caiu pareceu durar eternamente, e seus efeitos estavam durando até agora. Leonardo olhou para o ninho de galhos onde repousava o livro, se perguntando com o tiraria daquele lugar, estava bem próximo ao barranco e um salto para pegá-lo acarretaria em outra queda, e com certeza disso ele não precisava, já bastava uma que quase o matou.
- Será que isso é forte para agüentar o meu peso... – disse segurando um cipó que estava ao seu lado.
Era grande o suficiente para balançar até o livro e voltar para o lugar onde estava. Parecia ser firme e resistente, era a única opção que lhe restava. Subir o morro estava fora de seus planos, seu braço o impedia de tamanho esforço, e os outros cipós ou eram frágeis de mais ou eram pequenos e mal chegariam à metade do caminho.
- Eu não sou tão pesado assim... bem que estou um pouco fora de forma... – disse segurando firme com a mão direita.
Deu uma puxada bem forte na corda improvisada, esperando algo acontecer, mas nada veio a não ser pequenas folhas caindo em seu cabelo bagunçado. Puxou pela segunda vez e nada. E puxou mais uma vez, a terceira, esperando que dessa vez fosse acontecer algo, mas decididamente nada ocorreu.
- É... – disse olhando para cima, procurando onde o cipó nascia. – Parece ser seguro, dá para ir...
Desistiu de procurar, a luminosidade estava se tornando fraca, e cada vez mais o sol se aproximava do horizonte.
Leonardo sabia que todas as suas respostas sairiam daquele livro, algo em seu interior o dizia. Ele ansiava pelas respostas que não conseguia encontrar. Principalmente como os garotos em seu sonho tomaram forma e surgiram entre aquele grupo de amigos. Era a coisa mais importante para ele neste momento: desvendar todos esses mistérios que estavam acontecendo há dois dias.
Pegou o cipó e foi para o lado oposto dos galhos onde estava o livro para pegar um impulso e conseguir chegar até lá em cima, respirou fundo como se fosse um atleta de ginástica olímpica preste a executar um movimento complicadíssimo. Mas aqui não havia nenhum júri para avaliá-lo, nem platéia para vê-lo, o que estava em jogo aqui não era nenhuma nota e sua própria vida. O livro estava muito próximo da ladeira seguinte e um movimento errado seria o fim, ele cairia novamente e desta vez não sobreviveria para descobrir todo o mistério.
O pensamento de seus pais veio a sua cabeça; sua gritando hoje logo pela manhã por causa de uma torneira quebrada, seu pai pacifico e tranqüilo. Mas o que mais ocupou seus pensamentos foi seu irmão Marcelo, queria viver, tinha que viver para poder dizer o que tinha para dizer para seu irmão. Mas tinha que ser feito, o livro tinha que ser pego o quanto antes, antes que a coité caísse e o deixasse ali sem aparo e proteção. Leonardo tinha certeza que alguma coisa o chamava, um arrepio e uma forte sensação o rondava, se somando a dor e a agonia; tinha certeza que a solução de tudo estaria ali, era só pegar o livro, como se fosse uma coisa simples.
Segurou firme, era agora... Os cortes, a roupa rasgada e o fato de estar segurando o cipó o fez sentir como um Tarzan Inglês, só restava gritar quando balançasse até pela clareira.
- É agora ou nunca... – pensou um pouco e completou. – Não gostei dessa frase, espero que a segunda opção não aconteça...
Segurou firme com uma mão apenas, o outro braço ainda estava apoiado em seu colo. Só poderia contar com uma mão e só teria uma chance de agarrá-lo, não teria forças para realizar o mesmo movimento duas vezes. Com um impulso puxou o cipó e empurrou seus pés de uma árvore, preparando para o ato de força, resistência e muita coragem. Aos poucos seus pés foram se soltando do chão, ganhando altura e velocidade.
Já estava no meio da clareira, a luz do sol vinha ao seu encontro. A velocidade estava cada vez maior. Suas forças estava se esgotando, já tinha dúvida se agüentaria até o final.
“Vamos, mais um pouco” pensava, enquanto formava a imagem do livro aberto em sua cabeça.
Já estava perto, a poucos metros de alcançá-lo e voltar para o lugar de onde saiu e poder repousar tranquilamente. A velocidade foi diminuindo e o cipó, juntamente com seu corpo preparava-se para voltar. O impulso não tinha sido o suficiente, ainda mais com o seu peso. Ele não ia conseguir alcançar o livro, e não conseguiria fazer o mesmo movimento. A corda chegou ao seu limite máximo, estando menos de um metro do ninho de galhos e folhas.
Então veio a única solução: soltar o cipó. Era uma solução extremamente arriscada, caso fizesse correria o risco de passar dos limites da clareira e cair novamente pelo outro barranco, mas não tinha saída. Não esperou que o cipó retornasse, então o soltou, se arremessando entre os galhos percorrendo o pequeno espaço que separava ele do bem que desejado.
Ele chegou mais perto ficando a centímetros de distancia, podia sentir a energia que vinha dele e uma voz ou um canto que o tranqüilizava, além das sensações que disparavam em seu corpo. Então o abraçou com os dois braços, segurando fortemente para que não houvesse o risco de soltá-lo e perde-lo na floresta. Seu corpo se arrepiou completamente com o contato e sua mão direita começou a formigar.
Leonardo não conseguia visualizar direito o que estava acontecendo, seu corpo caía por entres folhas que refletiam a fraca luz do sol e pelas flores amarelas. A única coisa que conseguiu avistar foi a clareira ficando cada vez mais próxima, mas algo estava errado.
A velocidade e o impulso foram muito maiores do que o previsto quando soltou o cipó, o garoto havia passado dos limites do pequeno lugar firme onde poderia descansar, e agora se dirigia para um novo barranco bem mais alto e com uma queda mais selvagem. “É o fim” pensou angustiado. Como um flash tudo veio a sua cabeça, sua família, seus amigos, seu irmão que amava tanto, a universidade. Tudo por causa de um sonho e um bendito livro. Se sua teimosia não fosse tanta em querer apanhá-lo agora estaria seguro, a espera de alguém que, com certeza, viria salvá-lo.
Como queria voltar atrás, mas percebeu que certas decisões não têm volta. Lembrou mais uma vez de seu irmão enquanto seu corpo despencava ainda ao ar livre, sem nenhuma rocha ou galho ralando em seu corpo, queria poder dizer aquilo que estava guardado para ele, esperando a hora certa chegar. O sol o iluminava no horizonte, agora mais próximo do crepúsculo, era como uma despedida fúnebre que o aguardava mais embaixo quando encontrasse o chão novamente.
Uma lágrima foi o que ocorreu em seguida. Uma lágrima, não de dor, mas de remorso por saber que não poderia ver novamente sua família e seus amigos, e que estaria se despedindo de vez desse mundo.
“Mamãe... Papai... Marcelo... Eu amo todos vocês” era a única coisa que pensava. De seus olhos caiam mais lágrimas de tristeza. Descia agarrado ao livro, e seu corpo próximo a encontrar o solo.
Aos poucos o vento e a velocidade da queda foi fazendo Leonardo perder a consciência, embora com o brilho fosco do sol ao entardecer tudo foi ficando escuro. As sensações estavam deixando de existir, suas dores estavam sumindo, e aos poucos seus olhos foram fechando.
Um brilho muito forte vindo de seu peito foi a única coisa que conseguiu ver, antes de sentir uma superfície macia e bem felpuda surgir por baixo, fazendo com que a velocidade diminuísse. Sentiu seu corpo sendo suavemente acolhido pela uma superfície confortável, o carregando cuidadosamente para um lugar seguro. Entretanto a dor intensa, as constantes sensações e as idéias desorganizadas em sua mente o fez desprender completamente do mundo real, afogando em seu subconsciente.
***
- Idiota!!! Eu te falei... Não devíamos ir pelo atalho, olha agora como estamos... PERDIDOS!!! – Lana gritava com Lukas, descarregando toda sua fúria em cima do pobre garoto.
- Ta bom, ta bom, me desculpe... Eu pensei ter ouvido o som da água e achei que por aqui chegaríamos ao lago mais rápido... – tentou se defender.
- Pensou!? Pensou!? Francamente... Olha o que seu pensamento e seu “achei” trouxe a gente...
Lana gritava a cada passo que davam rumo ao desconhecido. Se surgisse uma fera ali com certeza ela não os atacaria, seria coagida pela raiva e descontrole da guardiã.
Estavam perdido a quase três horas, não viam sinal de lago nem do garoto que procuravam. Embrenhavam-se cada vez mais pela mata virgem, a procura da saída ou do garoto, que supostamente seria o novo Card Captor.
Renato e Marine não falavam muito, não estavam com raiva, pelo contrario riam entre os dentes dos ataques de fúria de Lana e pelo modo que os guardiões se atarracavam.
O sol estava para se por, o crepúsculo estava em seu estágio final, em poucos minutos, a noite chegaria e eles ali, no meio daquela floresta, sem nenhum tipo de ajuda ou kit de sobrevivência; se sentiram como os quatro irmãos do Conto da Floresta, perdidos, em busca do caminho de casa, ansiando por um caminho que os levasse para fora. A busca pelo garoto havia perdido sua importância, o que prevalecia agora era sair daquela selva. Os boatos não eram sobre coisas boas, e a cada passo que davam encontravam uma armadilha. Por pouco Lukas, não pisou em uma ao se disparar na frente de todos para procurar, sem sucesso algum, o caminho certo.
Marine não dizia muita coisa, além do mais, com os gritos de Lana se tornava impossível dizer algo, mas estava preocupada com o que pudesse acontecer com eles. As cartas que tinham, Vento e Chuva, talvez não os ajudassem muito nessa situação. Manteve-se calada por muito tempo, comentou algumas coisas com Renato que agia da mesma forma. O frio estava tomando conta do seu corpo. Sentia estranhas sensações que a deixavam arrepiada.
- Será que é verdade...? – perguntou para Renato.
- O que? – respondeu de costas para a garota.
Renato estava atento a cada passo que davam, estava na frente conduzindo o grupo, mas sem nenhum sucesso, não conseguia encontrar a trilha muito menos o outro garoto. As vezes via-se como inútil, mas não sabia de onde encontrava forças para continuar.
- Que a floresta é mal assombrada como o povo diz...? –perguntou enquanto retirava uma blusa de frio e se agasalhava com ela.
- Você acredita nisso Marine? Nessas besteiras de assombrações e espíritos atormentados que o povo conta? – devolveu a pergunta rindo.
- Bom, deixe-me pensar...
Fez um gesto como se mergulhasse em uma profunda concentração, colocou sua mão no queixo, esfregando-o. Olhou para cima, como os olhos vagos e continuou com um tom sarcástico.
- Humm! Primeiro tenho um sonho esquisito. Depois algumas coisas acontecem, como as pessoas que estavam no meu sonho começarem a surgir de repente, uma báculo e uma guardiã sair de um livro e por fim uma carta com poderes mágicos causar um temporal que quase destruiu o meu bairro... – Olhou para Renato que agora mantinha os olhos fixos nela. – É... eu acredito sim nessas histórias que o povo conta. Comparado ao que aconteceu isso é fichinha...
- Ta certo, você tem razão linda...
Renato não soube como, mas as últimas palavras escaparam de sua boca. Ficou completamente vermelho, agradeceu por estarem naquela penumbra e não poderem notá-lo.
- Depois do que aconteceu com a gente, acho que não podemos duvidar de mais nada. – acrescentou virando-se rapidamente, retomando a direção do grupo.
Continuaram a seguir a procura da trilha, mas se viam cada vez mais perdidos e encurralados pelas árvores. Todas pareciam iguais aos seus olhos, nenhum era especialista no assunto e por várias vezes passavam pelo mesmo caminho. Andavam em círculos, estavam completamente perdidos.
Não demorou e a noite surgiu, encobrindo o crepúsculo alaranjado, fazendo a penumbra dar lugar a escuridão, no céu as estrelas já haviam preenchido toda a imensidão, a lua estava um pouco fosca, parecia que nada ajudava nessa hora. Além de estarem perdidos, não havia luz para continuar andando.
Lana parou de discutir com Lukas havia algum tempo, agora estava agarrada a ele com frio. Marine comentou que a raiva da garota era passageira, não conseguia ficar com raiva de uma pessoa por muito tempo. Essa era uma das qualidades mais apreciadas da garota, “Não consegue guardar rancor” dizia Marine bem baixo, para que apenas Renato a escutasse.
Renato seguia a frente com o apoio de todos, mas nada de lago, nada de trilha e nada de saída. Marine seguia atrás dele e a frente dos guardiões que observavam tudo atentamente e se posicionavam em ataque a qualquer ruído suspeito.
- Acho que é melhor pararmos por aqui... – disse Renato. Foi a única solução que lhe veio. – A noite está bem mais escura hoje, e podemos nos perder mais...
- Está falando para a gente passar a noite aqui!? – exaltou Marine.
- Ele tem razão Marine. – Lana colocou a mão em seu ombro. – Com essa escuridão vamos só conseguir nos perder ainda mais. E ainda por cima, ficar andando por aí à noite nos tornaria uma presa muito fácil...
- Quando amanhecer nós retomaremos e sairemos bem rápido daqui, não se preocupe. – Concluiu Lukas.
- Mas será que não é perigoso ficarmos aqui...? - perguntou ela para os guardiões, ainda em dúvida sobre a proposta deles.
- Bem... Perigoso é, mas... – começou Lukas...
Mas Lana o cortou como sempre fazia, o que deixava furioso.
- Mas não se preocupe, o Lukas e eu ficaremos atentos e protegeremos vocês... temos nossos artifícios... – disse piscando para o outro guardião.
- Está bem... confio em vocês... – Marine disse sorrindo para eles, mas por dentro estava muito preocupada, não sabia que artifícios eram esses e se realmente os protegeriam dos perigos da noite.
- Vamos dar uma olhada aqui em volta para ver se esse lugar é realmente seguro... – disse Lukas.
- Vamos aproveitar e buscar um pouco de madeira para fazer uma fogueira. – completou Lana.
Os guardiões saíram juntos na mesma direção. Sumindo por uns instantes.
Marine se sentou próximo a uma árvore, repousando seu corpo, exausto de tanto caminhar, nela. Esticou seus pés que estavam doloridos e se abraçou ainda mais, tentando se esquentar por causa do frio. Colocou a mochila ao seu lado, retirando de dentro a Carta Sakura e a colocou sobre seu colo. Estava preparada e atenta caso algo acontecesse.
- E em mim...? Você confia...? – Renato a surpreendeu, retirando sua jaqueta e colocando-a em volta de seu corpo para poder aquecê-la mais... Olhou com os olhos fixamente aos de Marine.
- É claro que confio... que pergunta Renato... – respondeu tentando desviar do olhar do outro. Estava ficando corada com a situação, mas a escuridão impedia que ele pudesse vê-la assim.
- Não parece... – disse sem mover um centímetro, ficando frente a frente.
- Mas eu confio sim... e muito. – replicou com a voz mais suave. – Não duvide disso...
- Ta bom, não duvidarei mais. – também disse com a voz mais suave, quase sussurrando...
Renato notou que se aproximava cada vez mais, ficando frente a frente, fitando os olhos e sua face da garota. Ficou mais vermelho que antes, a aproximação deles sempre causava isso. Deixava se levar em uma viajem que parecia não ter fim, rumo ao desconhecido; perdido no mais profundo subconsciente, desconectando-se do tempo real e perdendo-se no seu olhar castanho, meigo e enigmático da garota. Seu corpo dissipava sensações estranhas, seu rosto corava e seu coração disparava de ansiedade.
Saiu de perto dela o mais rápido que pode, encobrindo seu rosto na vasta escuridão da noite. Nos momentos seguintes ficou a analisar o céu estrelado e as nuvens que vagavam ao desconhecido, guiadas pelo vento. Como queria estar sendo guiado para longe dali, de volta para sua casa, longe da presença de Marine... Ela o deixava completamente desconcertado e não tinha nenhuma explicação para isso.
- Acha que encontraremos a saída pela manhã...? – perguntou Marine, afastando-o de seus pensamentos desconexos. – E se nos perdermos mais...
- Não se preocupe Marine... – Renato virou-se sorrindo para a garota. – Amanhã todos nós estaremos descansados e inteiros de novo... E com as energias recuperadas será mais fácil sair daqui.
- Estamos totalmente presos nessa floresta, é como uma prisão de folhas. Irônico né?
- Eu diria que somos reféns dela. Não sei por que, mas parece que ela quer nos impedir de sair daqui. E mais...
- O que? – perguntou curiosa, fitando-o com surpresa.
- Parece que... Tem algo mais... Alguma coisa que ta nos impedindo de sair. Eu não sei bem o que é, mas posso sentir... – olhou para o céu meio estrelado, um pouco confuso. – Deu para entender?
- Deu sim... Eu... Também estou tendo a mesma sensação...
- Mas não se preocupe... Amanhã você estará em casa, cuidando das suas flores. Eu te garanto! – disse sorrindo, fechando o punho e virando-se novamente para a garota, deixando de lado o céu meio fosco.
Marine concordou com a cabeça, sorrindo da forma encantadora que sempre fazia, passando as mãos pelos cabelos e agitando-os suavemente. “Como ela é linda...” era uma das poucas coisas que a cabeça de Renato conseguia captar em um momento daqueles.
Marine fechou os olhos e escorou sua cabeça no troco da árvore e descansou um pouco, o dia havia sido bem desgastante e estava demorando a terminar. Pensava em sua família, com certeza seus pais estariam preocupados com ela, disse que voltaria mais tarde, mas não tão tarde como já estava agora.
- E o Leonardo...? Como vamos encontrá-lo agora? – Perguntou com os olhos ainda cerrados. - Ele já deve estar em casa...
- E com o livro ainda por cima... – respondeu Renato, enquanto procurava por algo na pequena clareira.
Demarcou com um círculo um espaço no chão, em seguida colocou algumas pedras em volta.
- Mas acho que o encontraremos logo, estamos com a mochila dele, com certeza ele deve precisar de alguns papeis que está lá dentro. – disse continuando a mexer nas pedras. – Acho que amanhã mesmo falamos com ele, meu celular está lá dentro e com o número da minha casa, ele deve ligar...
- Falando em celular... Que falta de sorte o meu ter acabado a bateria na palestra hoje cedo, e também esse garoto não tem nenhum dentro da mochila... Que mundo será que ele vive...? – disse rindo. Observava Renato recolher aquelas pedras e colocá-las no circulo. – O que você está fazendo!?
- É para a fogueira... Se outros voltarem com madeira... Não tenho muita certeza...
- Não conte com os ovos que a galinha ainda não botou! – disse Lana surgindo do nada no meio das árvores, com um ar de vitória.
Carregava em suas mãos alguns galhos que serviam como lenha para uma fogueira, tinha alguns cortes, mas eram apenas superficiais. Lukas surgiu logo atrás carregando alguns galhos, bem mais do que a garota tinha nos braços. Estava mais soado e seu fôlego escasso, seu peito subia e descia velozmente...
- Eu escutei o que você disse Renato! E está aqui a madeira... – exclamou Lana, enquanto as depositava no lugar indicado por Renato.
- O que houve Lukas? Parece muito cansado e abatido... – Perguntou Renato, um pouco preocupado, nem deu importância ao comentário que Lana fazia com Marine.
- Não foi nada... Aquela louca me passou um susto e me fez correr como um condenado. – exclamou apontando para Lana, que falava algo para Marine entre pequenas risadinhas. – Na certa está contando tudo para ela.
Renato tentou esconder a risada, afinal o estado do garoto era deplorável: cansado, soado e tremendo. Tentava imaginar a cena, nos gritos que Lukas deve ter dado e nos tombos que levou.
- Não tem graça... – disse Lukas fechando a cara para o amigo. – Acho que você teria feito coisa pior se fosse com você, assustado do jeito que é...
O guardião não terminou de dizer a frase, suas expressões mudaram completamente, e rapidamente ficou em posição de guarda. Seus olhos não se concentravam mais em um lugar fixo. Lukas olhava para todos os lados, com uma cara séria, e os olhos cerrados a procura de algo. Renato ficou se perguntando o que teria acontecido, por que o amigo estava agindo daquela forma. Mas a resposta veio sem ele precisa perguntar. Seu corpo sentiu aquela estranha sensação que já havia sentindo duas vezes. A sensação de que alguma coisa estava perto, e que os olhava, vigiava. Seu corpo se arrepiou todo e assim como Lukas também se pôs de guarda, procurando atentamente para todos os lados.
Do outro lado da fogueira, onde estavam as meninas, não se ouvia mais nenhuma gargalhada e nenhuma conversa. Lana também já estava em posição, à procura. Marine já estava de pé novamente, mesmo que para ela isso fosse novo já entendia muito bem o que estava acontecendo. Procurava atentamente para os cantos onde estavam e Lana olhava para o céu.
- É uma Carta Sakura? – perguntou Marine, ainda na dúvida, apesar de que a sensação que estava sentindo foi a mesma de quando viu pela primeira vez a carta da chuva.
- Isso mesmo! – respondeu Lana, com uma firmeza e seriedade desconhecida até então por Marine. – Está por aqui... Em algum lugar...
- Mas será que dá para saber qual é? – replicou a garota, procurando sem saber ao certo do que se tratava por uma bifurcação a sua direita.
- Não há como, todas possuem a mesma magia do criador. Apesar de assumir diferentes entidades, a magia delas tem a mesma essência.
- Tomara que não seja uma carta monstro ou fantasma...
- Não... – Lana sorriu. – Não existem cartas desse tipo... Alguma coisa Lukas? Conseguiu ver alguma coisa por aí?
- Não... Até agora nada... – Disse se afastando um pouco de Renato para poder checar uma entrada logo adiante. – Mas está perto... E se aproximando...
O silêncio agora tomava conta de todo o ambiente, nada se escutava além dos estalos dos gravetos que foram lançados à fogueira. E esta, por sua vez se esmaecia a cada segundo, ofuscando ainda mais a visão de todos, mergulhando a clareira em um breu profundo.
- Parece que está vindo dessa direção, – apontou Lukas para a entrada que olhava – vou dar uma olhada...
- Tome cuidado Lukas... – disse Marine, ainda um pouco confusa. – Qualquer coisa chame a gente...
- Não se preocupe Marine, ele sabe se virar. – replicou Lana ainda de costas para a garota procurando pela carta.
Lukas adentrou pela floresta em busca do que procurava, e a cada passo que avançava era mais forte a presença da Carta Sakura, vindo logo à frente. Lukas escutava ainda bem audível os comentários de Marine e Lana a respeito de qual carta poderia ser. Particularmente ele achava que não seria muito agressiva.
- As cartas agressivas tem hábitos diurnos...
Disse, mas ninguém o escutou, disse para si mesmo. Era um hábito de Lukas, desde a última caça pelas cartas possuía essa estranha mania de falar sozinho.
- Pessoal, venham por aqui, ela está por aqui, eu tenho certeza, está bem próximo agora...
Lukas sentiu-se estranho, seus pés soltaram do chão, sua visão se escureceu totalmente e seu corpo começou a ser envolvido por alguma coisa que nunca sentiu antes. Era frio e ao mesmo tempo sufocante, sentiu o ar faltando aos seus pulmões e uma dor seguiu em seguida em sua cabeça.
- Mas o que é isso...!
A “coisa” estava o aprisionando em uma espécie de esfera negra, fria e viscosa. Quanto mais tentava se solta mais preso ficava, como uma vespa tentando se soltar da violenta ação da seiva de uma árvore, era assim que se sentia: indefeso e inevitavelmente refém da massa negra.
Lukas não estava conseguindo resistir mais, então, como último ato, reuniu todas as forças que tinha para expulsar o pouco de ar que restava em seus pulmões na forma de palavras.
- Pessoal!!! Aqui!!! Eu a encontrei, está aqui...! Rápido!!! É a carta da...
Lukas não conseguiu terminar a frase. A massa negra o cobriu completamente, tirando todas as suas forças, estava totalmente preso e o pior, nada que fizesse conseguiria sair dali, pelo contrario iria se prender mais.
Bem... Depois que começou a facu fiquei sem tempo... Você não tem vida, tem faculdade...
Tudo bem, aqui está a continuação do arco 4, que promete muita ação... aguardem novidades...
Esse capítulo não poderia deixar de ir para três pessoas em especiais: Fernando, Leandro e Victor. Os três caras com quem eu falei primeiro na univerisdade.
Paulo M. Goulart
Cards Infinity
O Lago de Cristal
Capítulo 11
Perdidos no Frio da Noite
Paulo M. Goulart ©2007 – 2008
Finalizada em 04 de Maio de 2008
Cards Infinity – O Lago de Cristal
TryMax ©2008
Paulo M. Goulart ©2007 – 2008
História Original: Clamp ©1996; Japão
Alguns nomes e imagens são de autoria do Estúdio Clamp e possuem direitos autorais reservados as autoras. Os demais nomes, tipologias e símbolos são de direitos autorais do autor desta história
Brasil, 2008

