Paulo News
Capítulo 9
O Conto da Floresta
Paulo M. Goulart, ©2008

- E aí... Tudo bem com vocês...? – O garoto se levantou e seguiu em direção aos garotos que se endireitaram.
- Ah... sim, obrigado. – respondeu Lukas
- Sejam bem vindo a casa dos contos... Apesar de ser uma floresta...
Dizendo isso o garoto abriu os braços e girou em torno de si mesmo contemplando a abobada de folhas. Ficou em um momento de transe, deixando os garotos aturdidos e sem reação. Por sorte uma garota com o uniforme do curso de filosofia também veio ao encontro deles, apertando a mão de todos e com um largo sorriso os convidou para sentarem ao seu lado, e que aceitaram prontamente. Explicou mais uma vez com seriedade onde eles estavam, e, um a um, apresentou os membros que compunham a roda de adolescentes.
- Deixem suas mochilas aqui... – disse ela ao passarem por uma montanha de mochilas, bolsas e pertences. – Não faz sentindo vocês ficarem com elas em suas costas...
Os garotos não as retiraram e se entreolharam com desconfiança, o que foi percebido pela garota.
- Mas se quiserem continuar com elas nas costas, sem problemas... Só queria ajudar... – disse se sentando em um toco perto deles.
Renato e Marine perceberam que a garota se ofendera e retiraram rapidamente suas mochilas, depositando sobre o monte tentando concertar a situação. Renato notou uma mochila cruelmente idêntica a sua, com todos os detalhes e até o zíper era igual. Pensou de quem seria, mas não se importou com isso, realmente era algo banal demais para se preocupar.
- Bom... – falou um garoto baixinho usando óculos com uma armação prateada – Temos uma tradição... Para todos os novos integrantes ou visitantes...
- É verdade... – confirmou um outro garoto ao lado do primeiro. – Mas não se preocupem... Não é nenhum tipo de brincadeira ou prova que vocês terão que fazer...
- Isso mesmo – o de óculos retornou. – Não somos a favor de baixarias como essas...
- Então o que quer de nós...? – perguntou Marine desconfiada.
- Queremos algo muito simples... – Leonardo irrompeu com sua voz.
Agora que estavam pertos, Marine e Renato puderam o estudar atentamente e chegaram à conclusão que era ele. Marine e Renato o Fitaram e este fez o mesmo. Leonardo teve um choque de susto se engasgando um pouco com sua própria saliva e curvando-se para o lado.
- Algum problema... – perguntou uma menina ao lado dele. – Parece que se engasgou...
- Não... Não foi nada... – Mentiu olhando para eles. – Não foi nada...
- Queremos que vocês contem-nos um conto... – disse Stevem, um garoto sentado ao lado de Lúcia.
- Um conto...? – os quatro jovens perguntaram quase em uníssono.
- É... – disse Lúcia. – pode ser de fadas, terror, com uma moral ou romântico... tanto faz, dede que seja um conto...
Os garotos se entreolharam mais uma vez. Já estava virando rotina essa troca tão repentina de olhares, parecia ser combinado, mas tudo obra do acaso. Nem Marine nem Renato demonstraram afeição pela idéia. Para dizer a verdade eles não sabiam o que fazer nesse momento. Ambos, aturdidos, mergulharam em suas cabeças procurando, escondido em suas memórias um conto qualquer, mas nada além de lembranças inúteis nesta hora surgiram a eles.
Leonardo esta a poucos metros de distancia, mas agora não era o momento de falar, não naquele aglomerado de pessoas. Teria que ser a sós, em particular, esperavam o momento que fosse embora para poderem surpreendê-lo. Mas agora com essa idéia de contar um conto tudo parecia estar indo pelos ares. Sem o tal não poderiam permanecer no local, os garotos não deixariam, e acabariam perdendo Leonardo de vista mais uma vez. Quanto mais rápido pudessem contá-lo sobre todos os segredos envolvendo os Card Captors, mais rápido teriam um aliado na busca pelas cartas e quem sabe mais um amigo.
Lana olhou de esguelha para Lukas esperando uma resposta, que veio rapidamente. Lukas temeu o que poderia acontecer, mas era a única saída: deixar Lana tagarelar como sempre faz.
- Eu tenho um... – disse euforicamente como braço erguido, chamando a atenção.
Todos olharam surpresos para ela, esperando que fosse uma brincadeira ou apenas para quebrar o silêncio. Mas ela não mudou sua expressão, levando a crer que realmente tinha uma história para contar...
- Chama... O conto da floresta...
Renato, Marine e Lukas suplicavam esperançosos para Lana, pedindo que não enrolasse muito. Toda a atenção foi direcionada a garota, que agora estava de pé se preparando para contar sua estória.
- “Tudo começa com a surpreendente jornada de quatro irmãos, que destemiam o mundo, procurando todos os seus mistérios, segredos e aventuras. Eles moravam em uma aldeia estruturada por crenças, mitos e lendas. Algumas florestas, aldeias vizinhas, rios e lagos, campos e montanhas a rodeava, dando uma visão encantadora do lugar onde viviam. Era sem dúvida um lugar aconchegante e perfeito para se viver. Mas, próximo às montanhas uma floresta com aparência repulsiva e fechada se erguia; os moradores da pequenina aldeia jamais ousavam violá-la, evitavam até a aproximação da região por onde ela se estendia. Diziam que espíritos agourentos estavam presente naquele lugar, e, uma vez dentro, jamais sairiam”
“No entanto, em uma noite de lua cheia, parcialmente coberta por nuvens carregadas de chuva esses irmãos adentraram por esta floresta. Riam e cantarolavam por entre as árvores; os animais, assustados com tanta gritaria, escondiam-se em seus ninhos protegendo seus filhotes e tentavam não serem vistos por aquele enfadonho grupo.”
“Depois de tanto andarem sem direção e sem destino eles se deram conta de que haviam se perdido no coração da floresta. Começaram a procurar desesperadamente a saída, e sem sorte alguma não a encontraram. O frio foi se tornado mais intenso e a fome desmoronou sobre eles. O grupo que antes ria e cantarolava, agora estava triste e com fome. Nem por causa disso pararam de caminhar, e, após horas e horas andando por entre as folhas e gravetos, depararam com uma cena jamais vista por outra pessoa antes.”
“Uma imensa arvore prateada crescia no interior da floresta, seus galhos jorravam luz para todos os lados e suas folhes cintilavam a cada movimento. Ao chegarem mais perto perceberam que além de galhos e folhas brilhantes havia quatro frutos dourados do tamanho de uma bola de gude. Os quatro irmãos, como muita fome e sede, correram desenfreados até chegar a iluminada árvore e com brutalidade arrancaram os seus frutos.”
“Uma mulher se materializou entre eles assim que o último dos irmãos arrancou o último fruto. Ela usava um grande vestido branco, seus cabelos eram negros como a noite e por onde passava nascia pequenas árvores. Ela caminhou em volta da árvore prateada e viu que os irmãos tinham lhe arrancado os seus frutos. Horrorizada e perplexa resolveu falar com eles, suplicar pelo que tinham levado.”
“A mulher emanou uma voz doce e suave pedindo aos irmãos que devolvessem os pomos para a árvore da vida. Com muita humildade e serenidade explicou a todos eles que aquela era a árvore que dava sustentação a toda a vida da selva onde estavam. E implorou para que devolvessem de bom coração para a árvore que tinham tirado a força.”
“Sem esses pomos a floresta não poderia existir. O primeiro representava a harmonia entre os seres; o segundo representava a o nascimento naquele solo fértil e amplo; já o terceiro simbolizava a mutualidade entre os seres, um ajudando o outro a sobreviver; e o ultimo marcava o espaço e o tempo, onde e quando as árvores deviam nascer e quando deveriam deixar de existir. Os quatro agem como irmãos inseparáveis e se um deles se perder os outros não darão conta de desempenhar sua tarefa e assim tudo estaria perdido. Desta forma a mulher explicou e suplicou pelos pomos mais uma vez.”
“O irmão mais velho ficou comovido com história e devolveu de bom grado o que segurava. A mulher disse que por causa de sua compreensão ela lhe daria o que quisesse pedir. Ele pensou apenas por instante e pediu para que ela lhes indicassem saída daquela floresta, para que pudessem retornar sãos e salvos para casa. Falando isto, um caminho surgiu frente à eles, rodeado por grossos troncos e o mais sombrio possível. Não era nem um pouco convidativo, mas era a única opção que ela lhes ofereceu.”
“O segundo irmão também fez o mesmo, devolveu-lhe com todo o carinho e entendimento o pomo que segurava. E da mesma forma que a mulher ofereceu um desejo ao irmão anterior ofereceu a este também. Nem precisou pensar no que iria pedir, seu estomago a muito tempo pedia por comida e viu que os seus irmãos também ansiavam por isso. Desejou que a mulher lhes fornecessem comida até a sua casa, onde poderiam descansar e nunca mais perturbar o coração da floresta. Da mesma forma que surgiu o caminho sombrio, varias árvores, desse mesmo caminho, brotaram grandes frutas, vermelhas e suculentas, com aparência vistosa.”
“O terceiro também repetiu o ato dos irmãos mais velhos e devolveu o pomo à mão da mulher. Também foi concedido a esse um único desejo, já que os anteriores foram presenteados pelo mesmo ato. Como o primeiro irmão pediu uma saída da floresta e o segundo comida para todos eles, ele refletiu no que mais precisavam e a conclusão chegou logo que sua boca engoliu a poça saliva que tinha, deixando-a mais seca. Pediu que ela lhes dessem água para tomarem, pois a sede era grande, além do mais depois de comer isso se atenuaria. Dessa forma, com um leve movimento dos braços da mulher, uma fonte de água pura e cristaliza surgiu em uma das paredes arbóreas do caminho que fora lhes dado, parecia ser bem funda e muito abundante, para que não corressem o risco de faltar e beber o quanto quiserem.
“O último deles, o mais novo e também o mais inteligente, não confiou nem um pouco na voz suave e meiga da mulher, desconfiava que algo maior estava por trás daquilo tudo. Então pensou por um longo tempo, deixando a todos inquietos e nervosos. Seus irmão queriam logo desfrutar da água e da comida e sair daquela selva onde se embrenharam. Ele refletiu e refletiu, então, por fim comunicou seu pedido; devolveu o pomo a mulher e em seguida pediu o que lhe pareceu o mais sensato: um bastão feito da mais nobre madeira, inquebrável, indestrutível, grande o suficiente para suas necessidades e ainda por cima teria que cair como uma luva para quem o portasse. Todos o olharam aturdidos e perguntando com um olhar para o que necessitaria daquele objeto. Mas nada respondeu, permaneceu imóvel e decido a ter seu desejo realizado.”
“E assim foi feito: a mulher andou até a maior árvore que estavam entre eles e colocou sua mão, pálida, no troco. Em instantes um bastão, todo vermelho com uma empunhadura bem talhada de forma ondulada se materializou ao seu lado, ela o segurou com as duas mãos e caminhou vagarosamente ao irmão mais novo, entregando-lhe o bastão. Todos os irmãos se perguntaram por que ele queria aquilo, mas não o contestou, pelo fato de ser o caçula e também acreditavam que era o mais imaturo.”
“Após terem seus desejos realizados, os quatro irmãos seguiram pelo caminho sombrio, mas compensava pelo fato de ter comida e água. O mais novo agarrou ao seu bastou, bem posicionado, e seguiu os irmãos mais velhos por trás, atento ao que acontecia nas laterais do corredor; olhava entre os ombros, como se esperasse que algo de ruim, ou uma fera os surpreendessem. Mas tudo parecia perfeito, nada nem ninguém os ameaçava.”
“Ao passarem pela primeira árvore que nascia frutos de todos os tamanhos o irmão mais velho pegou um e comeu com muita ansiedade. No momento seguinte sua face foi ficando roxa e suas mãos se agarraram com fúria em seu peito. Havia se engasgado com a semente escondida no seu interior, pequenina, porém mortal. Não demorou que caísse de joelhos, pedindo por ar que não chegava aos seus pulmões. Seus irmãos tentavam de tudo para lhe ajudar, mas não conseguiam reanimá-lo nem tirar o caroço que estava preso na garganta. Tudo parecia estar perdendo o brilho e nada alem dos gritos dos seus irmãos ele ouvia. A mulher observava tudo encostada à árvore prateada com um ar de superioridade e euforia. Abriu um sorriso maligno e perverso ao ver o garoto se contorcer de dor e clamando por ar. No momento seguinte ele sentiu uma forte batida no peito, uma batida ardente, forte, impiedosa, que deixou dolorido e uma marca no local. A semente que entalara em sua garganta foi atirada ao longe, se perdendo da visão de todos. O irmão mais novo estava a sua frente, segurava seu bastão ao meio e sua ponta ainda estava próxima ao seu peito. Ele com sua astucia usou o bastão para retirar a semente da garganta do irmão batendo em seu peito.”
“A mulher não gostou nadinha do que ele tinha feito, mas não demonstrou sua fúria, apenas sorriu quando eles a olharam. Então seguiram, ainda salvos pelo caminho até chegarem à fonte de água cristalina. Era possível ver o fundo da fonte de tão límpida que era a água. O segundo irmão, sedento por água a horas, não resistiu, indo ao encontro da margem. A água estava perfeita, todos a apreciaram, exceto pelo irmão mais novo, que ainda ficava na espreita.”
“Entretanto o segundo irmão, que saciava sua sede, se desequilibrou sobre a margem, caindo dentro da fonte. A força d’água que emergia o descontrolou, deixando tonto e cego por uns instantes. A água apresentou mais fria do que era, seus nervos pareciam se congelar a cada movimento que fazia tentando escapar dali, mas de nada adiantava, apenas se perdia no interior da fonte. Os gritos dos irmãos surgiram mais uma vez naquele ambiente e novamente a mulher, a espreita, abriu seu largo sorriso maligno. Ele já havia perdido a força, seus irmãos tentavam chegar até ele, oferecendo seus braços, mas estes eram pequenos demais e fracos para conseguirem puxá-lo. Mas algo surgiu ao seu lado, uma madeira bem lisa e bem feita, não era uma qualquer, não poderiam ter retirado de uma árvore, mas que diferença isso fazia. Ele a segurou com toda a força que tinha, depositando todas as suas esperanças de se salvar nela. Então começou a trazê-lo de volta a margem, devolvendo-lhe o ar e a visão. Ao recuperar os sentidos, ainda difusos, conheceu o irmão mais novo segurando a outra ponta da madeira, o bastão vermelho, exatamente do tamanho que precisava para salvar sua vida. Agora aumentava para dois o número de vidas salvas. A mulher não gostou nem um pouco do que viu, contava com a morte desse, mas ainda assim tinha mais um plano para prendê-los de vez na floresta, e estava logo por acontecer.”
“Não quiseram olhar para trás, decidiram seguir caminho. Nenhuma fruta era mais apanhada das arvores, a água que beberam foi o suficiente para agüentarem mais um pouco, afinal estava perto e faltava pouco para que retornassem ao aconchego de seu lar. Uma luz cintilante e prateada os surpreendeu, puderam ver a luz da lua brilhando sobre eles e logo à frente puderam ver o campo aberto indicando que chegaram ao fim da floresta.”
“Riram e abraçaram-se, tudo havia terminado, conseguiram sair são e salvos da floresta mágica. Decidiram em comum acordo olhar para trás, mas não conseguiram ver nada além das árvores, o brilho da árvore prateada se extinguiu e a mulher desapareceu na selva. Então continuaram seguindo em frente se deparando com algo que lhes retirou toda sua alegria, felicidade e esperança de regressarem para casa. Estavam e frente a um desfiladeiro e a mais a frente havia outro sendo separados por poucos metros.”
“Olharam atentamente para os lados procurando outra saída, mas só a floresta surgia a todos os lados. Tudo estava perdido, por mais que se empenhassem não conseguiriam pular o desfiladeiro para alcançar a outra parte, e se retornassem para a floresta a morte seria certa. Lagrimas de tristeza saíram de seus olhos, a motivação foi-se embora com a esperança. Sentaram em frente, esperando que a morte os levasse; por fome, por frio, ou por um ataque de uma fera. E assim ficaram.”
“O irmão mais novo, ainda de pé, portando seu bastão, seguiu rumo ao desfiladeiro e atirou-o em direção a outra ponta. Caiu como uma luva, os dois se desfiladeiros se encontraram com o bastão, o tamanho foi exato para unirem os dois. Então sem dar nenhuma explicação o garoto cruzou o penhasco, andando sobre o bastão, inflexível e inquebrável, com o equilíbrio, chegando ao outro lado. Feito isso chamou os irmãos, que ainda estavam do outro lado, com uma chama de esperança que incandesceram seus rostos. Todos se postaram de pé e atravessaram, sobre o bastão, o enorme penhasco, encontrando com o irmão do outro lado, que os receberam com fortes abraços. Agora sim, tudo havia terminado, estavam salvos e retornariam ao seio de seus lares.”
“O irmão mais novo pegou seu bastão, e amarrou uma fina corda de cipó em suas pontas, então o lançou sobre suas costas, levando consigo para onde fosse. Daí seguiram caminho para sua casa, onde seus pais os esperavam aflitos e preocupados. Da floresta pode-se ouvir um grito de fúria, ao que concluíram ser o da mulher, enraivecida por estarem vivos e retornando para casa.”
“No caminho discutiram sobre o que tinha ocorrido e chegaram a uma conclusão; Nunca confie cegamente naqueles que lhes oferecem a mão, pois podem estar interessados em algo maior do que simplesmente ajudar.”
- Esse é o Conto da Floresta... – concluiu Lana.


Com esse capítulo termino o terceiro arco da história... A partir de agora, posso adiantar, as coisas ficarão mais quentes e com mais aventuras... O que espera nossos herois e futuros herois...? Perguntas serão repondidas nos próximos capítulos!
Por hora, quero dedicar esse capítulo ao meu afilhado, primo, amigo de aventuras e artes. Te amo demais Luíz Felipe!

Paulo M. Goulart


Cards Infinity
O Lago de Cristal
Capítulo 9
O Conto da Floresta
Paulo M. Goulart ©2007 – 2008
Finalizada em 08 de Janeiro de 2008

Cards Infinity – O Lago de Cristal
TryMax ©2008
Paulo M. Goulart ©2007 – 2008
História Original: Clamp ©1996; Japão
Alguns nomes e imagens são de autoria do Estúdio Clamp e possuem direitos autorais reservados as autoras. Os demais nomes, tipologias e símbolos são de direitos autorais do autor desta história

Brasil, 2008