Paulo News
Capítulo 14
A Última Folha
Paulo M. Goulart, ©2009

- Então você é Leonardo...? – perguntou Renato assim que o guardião pousou ao lado deles, nem deu tempo para o garoto descer direito do lombo de Spinel. A ansiedade de Renato sempre atropelava tudo. – Capturou a Carta Sakura...?
- Si... si... sim... Eu... eu capturei sim a Carta Sakura. – respondeu meio atordoado. – Aqui está ela...
Leonardo colocou a Carta Bosque e o livro rosa a sua frente da forma que todos pudessem vê-la, provocando o espanto de todos. Lana e Lukas sentiram-se aliviados, era mais uma carta que havia sido capturada e mais um Card Captor que havia surgido para recuperar as Cartas Sakura.
O que houve com você...? Está todo machucado e com uma aparência horrível? – Perguntou Marine com seu doce ar de preocupação. – Parece até que saiu de uma guerra.
O garoto, ainda ao lado do Guardião em forma de leopardo, contou-lhes o que havia acontecido desde que saíra do clube dos contos. Sua história era surpreendente até mesmo para os garotos que já haviam passado por situações equivalentes. Marine se assustou ao ouvi-lo contar de sua queda do desfiladeiro. Renato, assim como a garota, demonstrava-se preocupado, porém enciumado pelo fato de Marine estar dando mais atenção ao novo garoto do que a ele próprio.
Lukas, enquanto Leonardo contava como foi capturar a carta, não deixou de fitar os olhos de Spinel um só instante. Um ar de competição, rivalidade e o prazer de reencontrar um velho amigo tomava conta dos sentimentos de Lukas. Lana não se continha mais para contar a Spinel sobre suas novas aparências como humanos, esse foi um dos motivos que deixou Spinel na dúvida em relação aos garotos, fazendo-os ficar irreconhecíveis aos seus olhos de leopardo.
- Meu Caro Spinel... – Disse Lukas com um enorme sorriso no rosto, era difícil identificar se era um sorriso de rivalidade ou de amizade. – Creio que você, com toda sua sabedoria transbordante esteja um tanto... cansado.
Spinel o olhou perguntando-se como que um estranho falava com tanta intimidade com ele. Talvez era extrovertido assim mesmo, pensou.
A aparência roqueira que Lukas havia adotado, com alguns piercings, roupas pretas, braceletes nos braços e um coturno preto não chamaria muita atenção em um show de rock, mas ali a história era diferente. Isso fez com que Spinel tivesse receio em perguntar ao garoto roqueiro o motivo de tamanha intimidade.
- Você fala comigo como se me conhecesse... Mas eu não me lembro de você... – replicou Spinel. – Mas tem um jeito muito parecido com um velho amigo meu.
- Spinel... – Chamou Lana – a quanto tempo não nos vemos... uns 50 anos, diria...
- Quem são vocês – Perguntou Spinel aos guardiões de modo intrigado – Falam comigo de um modo como se me conhecessem há muito tempo. Eu não lembro de vocês, apesar de possuírem maneiras bem semelhantes a uns velhos amigos.
- Ah! Corta essa – exclamou Lana – Você, com toda sabedoria, não consegue reconhecer a gente...?
- É isso mesmo – continuou Lukas –, perdeu tantas vezes para mim que agora nem me conhece mais... É isso Spinel? Tantas derrotas em jogos fez você perder a memória...?
- Vocês... São...?
- Sim, nós mesmos. Em carne, osso e com um novo visual, o que achou? – Lana mostrou seus cabelos negros e suas roupas, que na verdade eram emprestadas de Marine.
- Ruby-Moon... É você mesmo? – Spinel olhava para a garota a sua frente, com um novo visual, diferente do que conheceu a tempos atrás. Seus olhos de leopardo se fixava no longo cabelo da garota e em seus olhos bem vivos. Era difícil de acreditar que era ela... que era Ruby-Moon.
- Espantado...? – Perguntou Lukas passando a mão no lombo do guardião.
- Um pouco...
- Bem, temos que nos disfarçar nesse mundo... Você entende... nos misturar com as pessoas normais. Além do mais todos nós sabemos muito bem que não podemos ficar nesse corpo de guardião enquanto as quatro cartas dos elementos principais, que nos protegem, não forem recapturadas.
- Você tem razão... – replicou Spinel. – Eles sabem disso...? – disse olhando para o outro grupo de garotos um pouco a frente. Renato, Marine e Leonardo ainda conversavam sobre a Carta Boque.
- Não... Ainda não tivemos oportunidades para contar isso a eles... – Lana respondeu pensativa.
- É melhor que seja rápido... Vocês sabem que não podem mais voltar a sua forma original caso as quatro cartas principais não tenham sido recapturadas...
- Claro... – Lukas interveio. – Mas olhe para eles Spinel... Não formam uma excelente equipe? E se eu não estiver enganado ainda contaremos com mais um Card Captor.
- Claro que são... Desde salvei e conheci o Leonardo que senti que aquele garoto é capaz de coisas até mesmo impossíveis. E agora que vejo esses três reunidos eu sinto que eles darão conta do trabalho de recapturar as cartas. – Spinel olhava os garotos conversando animadamente, algo dentro dele dizia que eles seriam capaz, bem mais do que eles imaginavam.
Marine e Renato não saiam de perto de Leonardo, se comportavam como perfeitos ouvintes de uma história, não era por nada que Leonardo era membro do Clube dos Contos.
- E aí... o que achou da minha nova... digamos, versão. – perguntou Lukas para o grande leopardo alado. – Pelo visto já sabe quem eu sou...
Foi então que Spinel se deu conta de que aquele garoto roqueiro a sua frente era Quérberos, o guardião do fogo. Assim como Ruby-Moon, Quérberos estava irreconhecível. Os piercings, os braceletes, anéis e as roupas que usavam não condiziam com antiga personalidade do guardião. O cabelo, loiro, mostrava, aos olhos de Spinel, a mudança mais radical. Não só o cabelo, mas os olhos, que agora eram verdes e bem mais vivos, tinham sede de ação. Foi mais difícil ainda acreditar que aquele garoto era o mesmo Quérberos de 50 anos atrás.
O novo visual dos guardiões significava para Spinel que era tempo de mudanças, grandes mudanças... Sentia que algo muito grande estaria por vir e que mudaria muitas coisas na vida de todos, mas especialmente na vida dos novos Card Captors. O que estaria por vir? Spinel não sabia, mas tinha certeza que não demoraria.
- Spinel... – chamou Leonardo. – Será que... talvez... a gente possa ir embora? Meu corpo está um pouquinho dolorido e quero colocar alguns curativos nesses machucados.
- Não...! – exclamou Marine seguida de Lana, que notou os ferimentos do garoto. – Você não pode ir para casa... Você precisa ir a um hospital... olhe só para você, está todo machucado...
- Acho que não seja necessário... é só uns ferimentos leves... – respondeu com um sorriso forçado no rosto, na verdade a dor era muita.
- Acho que a Marine tem razão Leonardo. Você precisa é ir a um hospital para ser tratado melhor. Vamos... – Renato chamou o garoto e por azar pegou no braço fraturado do garoto, fazendo-o soltar um gemido de dor e angustia.
- O que houve com seu braço!? – perguntou Renato preocupado. Apesar de um pouco de ciúmes encontrava cada vez mais em Renato uma amizade, que com certeza seria duradora.
- Não... Não foi nada, não se preocupe.
- Como assim, nada...? – Renato o fitava nos olhos esperando uma resposta. – Ele parece que está... – continuou segurando novamente no braço do garoto, dessa vez com o dobro de cuidado. – quebrado...
- Acho que deve ter sido quando eu cai – respondeu virando-se para o desfiladeiro e olhando sua imensidão que parecia não ter fim.
- Então está combinado... – Disse Lukas. – Vamos sair daqui direto para um hospital e cuidar desses seus ferimentos.
Os garotos se juntaram e começaram a discutir planos de como sairiam do interior da floresta. Mas a maioria era um fracasso eminente, havia amanhecido e eles ainda estavam completamente perdidos.
Para todos os lados que olhavam a visão da selva densa era a mesma. As árvores pareciam ter crescido mais aquela noite, era quase impossível ver o céu, os galhos e as folhas tampavam toda a clareira. A única visão ampla que tinham era do desfiladeiro as costas deles, mas por ali não tinham como passar. A única solução que viam era adentrar pela densa selva novamente.
- Espere um pouco... – disse Spinel. – Estou quase sem energias, mas consigo levar todos você daqui, voando...
- Você tem certeza Spinel...? – perguntou Lana desconfiada. – Você precisará de um pouco de energia para assumir uma forma humana.
- Eu sei disso... estou calculando isso também... Não haverá problemas, levarei de dois em dois para que eu não gaste muita força voando por aí.
- Certo... É meio arriscado... – continuou Lukas. – Mas não temos outra saída. O Leonardo precisa ser cuidado com urgência e se ficarmos aqui nos perderemos ainda mais.
- Então é melhor não perdemos tempo. – Renato disse indo em direção às árvore onde dormiram. – Vamos pegar nossas coisas e sair logo daqui.
As mochilas estavam sobre as raízes de uma grande árvore com cipós que caiam de todos os lados.
- Pessoal! – gritou – eu vou pegar as mochilas de vocês, esperem aí. – A minha a da Marine, Lukas e a da Lana. Ué... e essa outra... Se parece... com a minha...
Na árvore, onde os garotos tinham passado o resto da agitada noite uma quinta mochila se encontrava um pouco mais adiante das outras. Estava justamente no lugar onde Lukas havia dormido, por isso não viram. Na confusão e preocupação em repousar o amigo em um lugar não viram que eles o colocaram sobre a mochila.
Renato logo reconheceu os detalhes personalizados que ele havia feito meses atrás. Sua mochila estava entreaberta e um pouco amassada. A ansiedade o fez abrir para conferir se estava tudo ok. O livro ele já tinha visto com o Leonardo, então não esperava encontrar o mesmo na mochila. As demais coisas – papéis, revistas e anotações – se encontravam soltas em seu interior, todas amassadas e dobradas...
- Também... com o peso do Lukas em cima disso... que mochila e papel resistiria.
As canetas e outras tranqueiras estavam no mesmo lugar. Percebeu que o conteúdo de um dos bolsos estava revirado, mas não faltava nada. Logo percebeu que Leonardo devia ter procurado por algo em sua mochila, algo que não achou.
Agarrou a sua mochila e a prendeu em seu braço assim como as outras. Voltou apressado para o grupo que o esperava, todos ansiosos para sair daquela floresta que os mantinha prisioneiros.
- O que houve...? Por que você demorou...? – perguntou Lukas fazendo o garoto se apressar ainda mais.
- Olha só... – disse erguendo a mochila para todos verem. – Encontrei minha mochila. Estava ali o tempo todo... Não a vivos por que colocamos o Lukas para descansar em cima dela.
- Aff... Foi por isso que senti algo desconfortável nas minhas costas a noite toda. – disse Lukas meio contrariado.
- Me desculpe Renato... – Leonardo cortou o assunto. – Ontem eu peguei sua mochila por engano na pressa de ir embora... se parece muito com a minha...
- Ah... Sem problemas... Na pressa não nos atentamos aos mínimos detalhes. Você não iria adivinhar que teria outra mochila igual a sua naquele monte...
Parecia que o ciúmes estava sumindo. Renato já não via mais Leonardo como um rival, apesar de lamentar pela atenção maior que Marine dava a ele.
Os garotos ainda conversaram sobre o incidente da mochila. Leonardo contou como foi ter encontrado o livro e explicou para Renato que procurou por frascos dentro da mochila dele e por comida também.
- Ou!!! – gritou Lana... – Vamos parar de conversar sair logo daqui, vocês querem morrer nessa floresta? Não... Então vamos vazar daqui... Pegar o beco... Dar o fora... Tá difícil de entender...?
De dois a dois Spinel tirou todos os garotos da densa floresta, que parecia ter ficado mais selvagem na última noite. Talvez tenha sido as constantes aventuras que camuflaram a densa mata por onde se embrenharam.
Por insistência de Renato Lukas subiu no lombo de Spinel, Renato insistia que ele ainda estava meio fraco por conta da luta contra a Carta Sombra e por isso deveria ir logo para um local seguro. Leonardo foi logo atrás, tirá-lo dalí e levá-lo para um local mais seguro onde pudesse descansar e cuidar dos ferimentos era a prioridade do grupo. Spinel levantou vôo cruzando toda a floresta rumo a cidade, sendo orientado por Leonardo o melhor lugar para se pousar com segurança sem serem vistos.
Do alto puderam ver o quão perdidos estavam, praticamente no coração da floresta. Nem mesmos os caçadores se atreviam a invadir aquela área; os mitos, na maioria provinham sempre do interior da floresta, onde os espíritos dormiam e que uma vez acordados derramariam sua cólera sobre os mortais.
Renato, Marine e Lana esperaram na clareira a volta do guardião para poderem se juntar aos garotos que já estavam fora da selva.
Assim que Spinel pousou na clareira Renato fez com que Marine subisse no lombo do leopardo alado, entregou sua mochila e já se preparava para subir. Voar com Marine seria verdadeiramente a melhor coisa que poderia lhe acontecer nesse dia. Sentir seu delicado perfume de rosas, sentir o calor de seu corpo e abraçá-la para protegê-la de todos os perigos que poderiam ameaçá-los...
- O que!!! – exclamou a mesma voz descontrolada de antes. – Vocês não pensam em me deixar aqui sozinha...!?
Lana não estava para bons amigos, a expressão desafiadora nos olhos intimidavam qualquer um que resolvesse encarar a garota.
- Podem esquecer! Eu não fico aqui sozinha de jeito nenhum. Eu vou com a Marie agora e você fica Renato, além do mais essa flores...
“Não vai ter jeito... Ela vai ter que ir. Não posso pedir para Marine ir comigo, ficaria muito estranho...” pensou Leonardo enquanto Lana ainda fazia um discurso listando todas as coisas ruins da floresta e por que ela tinha que ir primeiro.
Como se previa Lana e Marine voaram com Spinel para fora dalí, alcançado a cidade quente, aconchegante e familiar. As garotas puderam sentir como era bom a brisa do céu, como era bom voar... Em poucos instantes estavam junto dos garotos, sentados na grama de um imenso jardim.
Renato não parava de pensar em Marine, mas sua volta para casa lhe despertava mais atenção.
- Será que deram por minha falta
Perguntou para si mesmo. Não se importou com a altura da voz, ale era somente ele e a selva.
Enquanto Spinel não voltava para tirá-lo dali, começou a pensar sobre a conversa que os guardiões tiveram a pouco. Apesar de estar conversando com Leonardo e este estar relando tudo o que aconteceu, Renato não deixou de ouvir algumas partes da conversa de Lukas a respeito das formas originais. Eram fragmentos desconexas, isto fez que tudo ficasse ainda mais sem sentido em sua cabeça, por mais que tentasse estabelecer um sentido lógico mais complicado ficava o assunto.
Alguma coisa o incomodava. Desde que Lukas e Lana assumiram a forma humana não voltara mais para a forma de guardião, perderam mais da metade de seus poderes e se tornaram quase comuns quanto ele e Marine.
Outra coisa que o intrigava era as cartas dos elementos principais. O que tinham a haver com isso? Renato não se lembrava muito bem de uma parte que Lukas havia comentado de relação com as cartas dos elementos principais com as formas originais dos guardiões...
- Mas porque eles tem que assumirem outra forma? E o que as cartas principais tem a ver com isso...?
Renato puxou do bolso suas cartas já capturadas, segurando uma em cada mão. Passou a analisá-las lentamente se atentando a todos os detalhes. “Como são lindas”, pensou.
- De todo modo se as quatro cartas principais tem algo a ver com isso nós já temos uma... – disse olhando para a Carta Vento.
Renato logo avistou Spinel retornando para buscá-lo, em breve se uniria aos outros, então poderia perguntar sobre as formas humanas dos guardiões.
Spinel pousou na relva recém-nascida ao lado de Renato. Com uma única tentativa subiu no lombo do leopardo, colocou sua mochila nas costas e se preparava para o vôo. Estava ansioso... Sempre quis voar, mas imaginava que seria de helicóptero ou asa-delta, mas não em uma fera alada.
No alto Renato pode apreciar a paisagem sobre seus pés, deixava a linda e feroz floresta de Andara para trás, voando em direção a cidade.
- Seria perfeito se eu estivesse com a Marine agora...
- Você disse alguma coisa...? – perguntou Spinel ao escutar um leve murmurar do garoto.
- Não... nada...
- Se segure, vamos descer.
O pouso foi tão suave quanto a decolada, voar tinha sido uma experiência fantástica. Pena estar sozinho...
Todos esperavam Renato e Spinel sentados na grama, próximo a campo florido. Andara possuía bairros famosos por seus jardins bem cuidados e planejados. Muitas flores, arbustos e árvores frutíferas faziam parte da decoração, dando um tom tranqüilo e romântico à cidade, principalmente onde estavam. O local era conhecido pela ótima paisagem, tranquilidade e beleza. O silencio parecia que era lei, não se ouvia quase nenhum tipo de ruído, apenas o cantar dos pássaros e o som do vento balançando as folhas das árvores.
- Onde estamos...? – perguntou Lukas. – Que lugar lindo...
- Estamos em Lavender. – disse Renato descendo do lombo de Spinel.
- É... Realmente aqui é muito lindo... – disse Spinel ofegante. Três viagens levando adolescentes de aproximadamente 20 anos tinha o esgotado. Estava quase sem forças, o que o fez deitar na grama...
- Spinel!? – O que está esperando...? – Disse Lana exasperada. – Você tem que mudar de forma agora, não pode esperar mais... Você está quase sem energia.
- Ela tem razão... – disse Marine, um pouco preocupada e olhando para os lados. – Não entendo nada sobre a energia de vocês, mas eu digo isso porque estamos na cidade agora...
- É verdade Spinel... – continuou Leonardo. – Se alguém nos ver com você teremos graves problemas. Sabe... o pessoal de Andara não está acostumado com leopardos negros alados.
- Certo... – disse o guardião.
Spinel se levantou da grama. Estava tão macia, tão suave em seu corpo, era tão reconfortante que poderia ficar ali o resto do dia.
Em um impulso suas asas de mariposa se abriram mostrando, reluzindo com luz solar da manhã. Os detalhes das asas refletiam a luz para todos os lados, dando ao imenso jardim flashes de luzes em todas as direções, luzes de todas as cores.
Em instantes seu grande corpo subiu no ar a media que suas asas duplicavam de tamanho. Uma esfera dourada, semi-transparente, envolveu todo o guardião; o calor que emanava era suave assim como a luz, que agora era apenas um dourado límpido.
Spinel fechou seus olhos, o que restava de energia em seu corpo começou a ser liberada produzindo uma alra cintilante no guardião. Suas imensas asas se fecharam encobrindo todo o corpo do leopardo, formando uma espécie de casulo para proteger a vida que estava em seu interior. A alra ficou mais intensa e a luz dourada aumentou sua tonalidade.
Instantes depois as asas se abriram revelando um novo ser em seu interior, um garoto de aparecia não muito rebelde e com cabelos comportados surgia na frente deles. A visão era espetacular, a alra e a esfera de luz dourada se dissipavam a medida que o garoto voltava à terra firme.
Spinel abriu seus olhos, agora castanho-claros, no instante que colocou seus pés no suave gramado. No geral tinha a aparência de um garoto comum, mais com suas particularidades. Uma delas era um fino óculos que usava, o deixando com um ar de intelectualidade. Seu cabelo era um pouco espetado, totalmente bagunçado, não muito grande nem muito curto, e um piercing transversal em sua orelha esquerda completava a face do garoto.
Usava uma regata branca, definindo seu corpo atlético. Não tinha muito músculos, mas era o ideal do que se esperava de um garoto. A calça era de um tecido leve, o que lhe permitia movimentos mais soltos e suaves. E o tênis branco, com detalhes vermelhos, completava todo seu visual. Em detalhes, usava uma corrente prateada no pescoço e outra do mesmo modelo no punho esquerdo.
A transformação estava completa, Spinel havia se transformado em um perfeito atleta intelectual: malhado, lindo, atraente e inteligente. Marine e Lana ficaram espantadas em que o leopardo havia se transformado, para elas era quase que inacreditável. Não tiravam os olhos do corpo definido de Spinel, principalmente do belo rosto do garoto, não conseguiam disfarçar tamanha admiração por tamanha beleza.
- Bem... – disse o garoto olhando para as roupas e o próprio corpo. – Acho que ficou bom...
- Esta brincando...! Bom...! Ficou... ficou perfeito!!! – Disse Lana com os olhos brilhando de admiração. – Minha nossa. Como você ficou... ficou...
- Lindo...? – perguntou Spinel olhando para os músculos...
Lana não conseguiu dizer mais nada, apenas balançou a cabeça com a boca aberta afirmando.
- É... ficou muito bom mesmo Spinel... – afirmou Leonardo. – Será fácil arrumar muitas gatinhas desse jeito...
Todos riram com o comentários de Leonardo. Os garotos também elogiaram o novo visual do guardião, porém o fizeram de forma mais reservado que as garotas.
Lukas não resistiu em anunciar uma nova rivalidade a vista. Quem conquistaria mais garotas. Marine ficou furiosa com o garoto iniciando uma discussão, a qual entou Lana a favor de marine...
- Bem... você precisa de um nome... – Leonardo interrompeu a discussão. – Spinel também não é um nome muito comum...
Todos param de discutir e começaram a pensar um nome ideal para o guardião. Momentos de silencio tomaram conta da situação. Por mais que olhassem para o garoto não conseguiam encontrar um nome certo. Por muitas vezes Marine abriu a boca para falar, mas fechou logo em seguida.
Leonardo notou que o Spinel estava ficando desconfortável com aquela situação, ter que mudar o nome não era uma tarefa difícil. Decidiu que estava na ora de começar a retribuir o que o guardião havia feito por ele. Procurou em toda sua memória um nome que combinasse, um nome que correspondesse ao estereótipo do guardião.
- Acho que... – disse enfim, quebrando o silêncio. – Denny seria um bom nome... o que acha Spinel...?
- Humm! Denny é muito bom... Combinado!!! – exclamou agarrando na mão de Leonardo. – De agora em diante meu nome é Denny.
- Ahh...! – Leonardo soltou um pequeno gemido. – Não aperte muito... ainda doi um pouco...
- Pessoal o que estamos esperando... já perdemos tempo demais, temos que levá-lo a um hospital. – interveio Marine.
- Não acho que seja necessário... – disse Leonardo segurando seu braço quebrado...
- É claro que é... – replicou Renato... – Se eu não estiver enganado tem um hospital aqui perto...
E não estava enganado. O grupo, agora composto por seis pessoas saíram do jardim e seguiram rua acima, virando na primeira esquina. Logo a frente Renato pode confirmar sua suspeita: havia um hospital local naquela parte da Cida, onde eram atendidas pequenas emergências e casos não muito graves.
Por sorte estava vazio, não havia ninguém na sala de espera, a não ser pelos funcionários. Ainda estava meio cedo, já tinha passado das oito da manhã. Pelo visto havia sido uma noite tranqüila para a população local, diferente da deles.
Os atendentes colheram as informações com os garotos enquanto Leonardo era atendido e medicado pelos enfermeiros e médicos. Pouco tempo depois já estava com curativos pelo corpo todo e com o braço engessado. Porém tiveram que encarar o inquérito do médico a respeito o que estavam fazendo para aparecer com um garoto todo machucado e porque não trouxeram ele assim que quebrou o braço.
Gastaram um certo tempo para contar toda a história ao médico, omitindo as partes de magia e criaturas fantásticas. O médico responsável não era nenhuma criança que poderia ser levado com qualquer historinha, já era profissional na área a muito anos, a idade denunciava isto. Renato e Marine se esforçaram ao máximo para convencer o médico de que toda a história que haviam contado era verdade.
- Muito bem... – disse o médico. – acho melhor vocês voltarem para a casa de vocês. O paciente ficará aqui até o fim do dia em observação. – pegou a ficha em suas mãos e continuou. – Já avisamos a família por telefone, é importante que os pais ou responsáveis, caso ele seja menor, saiba que o garoto esteja aqui. Isso evitará problemas futuros...
Os garotos se reuniram em outra sala mais vazia, a que estavam, com o passar do tempo, começou a se encher – de curiosos por sinal. Não havia mais nada a fazer no hospital o novo amigo já estava sendo tratado por profissionais e lês não podiam fazer mais nada, Leonardo estava em boas mãos.
- É melhor a gente ir para casa. A tarde voltamos e fazemos uma visita... – disse Marine pensativa. – Além do mais nossos pais devem estar preocupados conosco...
- Não moro com meus pais... – replicou Leonardo. – É uma longa história... Não faltará oportunidades para que eu a conte. Agora é melhor que todos nós vamos embora, estamos muito cansados e acho que merecemos um descanso também. O Leonardo estará em boas mãos aqui e logo os pais deles chegarão.
- Tá certo... preciso de um banho de sais urgente... – concordou Lana se espreguiçando. – Marine você prepara aquele chá de ervas quando chegarmos em casa?
A garota concordou com a cabeça e todos dirigiram para a saída do hospital. Sentiram o ar quente ao abrirem a porta, até que enfim aquela noite turbulenta havia acabado de vez.
O grupo discutia o melhor caminho para chegar em casa. Renato e Marine moravam mais ou menos perto, por isso decidiram pegar o mesmo caminho.
Denny, por sua vez, parou a entrada do hospital e não se moveu. O grupo já estava no meio da rua quando deram por sua falta.
- Denny...! – Gritou Lana – vai ficar ai fazendo o que?
O guardião foi até onde os garotos estavam, seus cabelos bagunçados realçava ainda mais na luz do sol, seu corpo realizava um perfeito movimento pela rua, o que deixou Lana paralisada.
- Bem... – disse ele. – Vou ficar por aqui, quero ver como o Leonardo vai ficar... quero ter certeza se ele melhorou... alem do mais...
- Além do mais...? – perguntou Lukas.
- Diferente de vocês dois – disse olhando de Lana para Lukas – eu não tenho para onde ir, então vou ter que ficar aqui... Não se preocupem... ficarei bem...
- Nossa...! – exclamou Renato. – Eu não tinha pensado nisso... Mas não se preocupe. É claro que não vamos te deixar aqui, você virá conosco para minha casa. O que acha...?
- Não sei... não quero dar trabalho...
- Ah! Corta essa – disse Lukas. – não será nenhum trabalho, você é nosso amigo Denny. Além disso, você não ajudará em nada ficando aqui. Você não ouviu o que o médico disse? O Leonardo está bem e logo a família vai chegar... – Lukas passou o baço nas costas do amigo e continuou. – Vamos, você também precisa descansar... Mais tarde a gente volta para visitá-lo.
- É, ele tem razão Denny. – completou Marine – E olha não se preocupe com um lugar para ficar, tenho certeza que o Leonardo não irá deixar você não mão.
- Está certo então... – concordou Denny, seguindo andando com os outros. – E sabem...? Preciso dormir...
Sem mais discussões os cinco entraram em uma rua logo acima ao hospital que dava acesso a uma das principais avenidas de Andara. Voltar para casa por esse caminho seria bem mais fácil. Como estavam na parte sul da cidade só precisavam subir a avenida e depois seguir rumos diferentes.
Os garotos não sabiam mais de onde tirar forças para continuar andando. Uma noite mal dormida junto com intensas aventuras e, o principal, fome deixaram todos a beira de ataque emocional de stress e fadiga muscular, mas nada do que boas horas dormindo e uma boa comida não resolvesse o problema. E também eles deixaram de ser garotos normais assim que tiveram aquele sonho três noites atrás, agora era Card Captors; as cartas capturadas e as chaves penduradas em seus pescoços dizia isso.
- Estou louca por aquele chá relaxante Marine...
- Eu também Lana... eu também...
- Eu... só que dormir... – Spinel disse em um enorme bocejo. – Espero que o Leonardo esteja bem...


E aí pessoal, como anda as coisas? Como eu disse que seria todos os sabados agora estou aqui marcando presença... espero que gostem [esse capitulo não é muito de ação, mas sim de interligação]
Esse capítulo eu dedico aos meus irmãos que, apesar de não estarem perto e não gostarem de mim, eu os guardo no peito com muito carinho..
Ok, bye-cha!
Paulo M. Goulart


Cards Infinity
O Lago de Cristal
Capítulo 14
A Última Folha
Paulo M. Goulart ©2007 – 2009
Finalizada em 26 de Julho de 2008

Cards Infinity – O Lago de Cristal
TryMax ©2009
Paulo M. Goulart ©2007 – 2009
História Original: Clamp ©1996; Japão
Alguns nomes e imagens são de autoria do Estúdio Clamp e possuem direitos autorais reservados as autoras. Os demais nomes, tipologias e símbolos são de direitos autorais do autor desta história

Brasil, 2009
Paulo News
Capítulo 13
A Lua do Amanhecer
Paulo M. Goulart, ©2009

O sol surgiu mais cedo pela manhã, a floresta de Andara logo se iluminou, o brilho da folhas e o cheiro da relva ainda úmida acordaram Leonardo de seu profundo sono.
Tudo ainda passava em flashes em sua cabeça: a queda por um despenhadeiro, seu braço quebrado, o livro mágico, a marca em sua mão. E assim como nas outras noites de sono, essa também havia sido perturbada pelo mesmo sonho de três dias atrás.
Abriu um pouco seu olhos, seu braço ainda doía muito e seu corpo, todo ralado começou a arder assim que a sensibilidade, fornecida pelo sentido do tato apoderou de seu corpo.
- Ahh!
Um gemido forte foi a primeira coisa que conseguiu fazer. Ainda estava meio tonto e seu corpo todo dolorido o impedia de levantar.
- É melhor ficar deitado, os ferimentos são bem graves e profundos, você precisa de repouso. – partiu uma voz de algum lugar fora do alcance da visão do garoto caído. A voz era desconhecida, mas a dor que agora voltava a dominá-lo impedia o garoto de pensar de quem era.
A sensação de que algo o chamava ainda invadia seu corpo, sua mão ainda formigava; seus olhos embaçados tentavam se localizar, suas mãos procuravam por algo firme para se apoiar e levantar seu corpo recém despertado.
A visão de Leonardo recuperou completamente foco, mas o que viu o fez tremer, como nunca tinha feito antes, da cabeça aos pés de medo e de susto. Um grande leopardo negro estava em pé ao seu lado, fitando-o atentamente; não tinha aparência hostil e ferina, mas o medo fez com que Leonardo se levantasse de um salto e se recuasse alguns passos. Suas asas, avermelhadas, iluminava junto com os primeiros raios de sol, seu pelo negro também não ficava atrás, possuía uma lustrosidade impecável, seus olhos, negros e castanhos ajudavam o ser fabuloso a completar sua beleza descomunal.
- Quem é... ou... o que é você?! Sei lá...
O garoto tentava se afastar cada vez mais da figura a sua frente, esta por sua vez agia mansamente com seu nobre ar sereno e educadamente se apresentou ao assustado e indefeso Leonardo.
- Onde estou...!? Como vi parar aqui? Como você, ou seja lá o que for é possível de existir... ahhh...! – perguntava incessantemente, por hora a dor o impedia por intervalos. – e o que é você...?
- Ei! – disse o ser exasperado. – Eu sempre soube que para haver um dialogo duas pessoas precisam conversar, mas se uma pessoa só conversa isso não é um dialogo... então deixa eu falar para poder apresentar esse que vos fala...
“Esse que vos fala” pensou Leonardo. “É a primeira vez que ouço uma forma tão culta de linguagem fora da universidade, estou impressionado.”
- Bom, já que calou eu posso falar... – disse sentando-se, mantendo a posição de um leopardo atento. – Meu nome é Spinel, Spinel Sun. Mas me chame de Spinel, acho Spinel Sun muito formal e além do mais não gosto de ser chamado pelo nome completo... E você quem é?
- Bem – respondeu Leonardo, desconfiado e impressionado com a linguagem de Spinel. – Le... Le... Leonardo, meu nome é Leonardo.
- Prazer Leonardo – replicou o leopardo.
Leonardo nada respondeu ou disse, apenas olhava intensamente, detendo sua atenção as asas vermelhas que balançavam suavemente.
- Eu sou um dos quatro guardiões que foram criados a muito tempo para proteger as Cartas Clow. Essas cartas são muito especiais, elas guardam poderes mágicos de diferentes entidades da natureza. O Mago Clow as criou para poder ajudar a mundo com sua magia e trazer mais alegria e conforto as pessoas. Mas só que muito tempo depois uma jovem garotinha abriu o livro que as cartas estavam seladas e então começou...
Spinel contava a imensa história para Leonardo, mas o garoto não estava muito ligado para isso, olhava fielmente ao balançar uniforme das asas do guardião. Seu medo já tinha dado lugar a contemplação da figura mágica. E aquele balançar de asas, aquele corpo todo negro e aqueles olhos... Foi como se um choque acordasse de vez Leonardo. Um conjunto de imagens veio a sua mente, a torre rosa, os quatro garotos, a chave e o leopardo negro, o mesmo que estava a sua frente.
- Você!!! – cortou a história das Cartas Sakura que Spinel contava com entusiasmo...
- Como!? Eu não entendi...
- Você... Era você... Era você que estava no meu sonho, você era o ser mágico que me levou no seu lombo até uma alta torre rosa. Você estava no meu sonho...
- Sonho... que sonho – replicou Spinel.
- É uma longa história... E... bem, eu nem sei por onde começar...
- Mas eu sei... toda história começa pelo começo! – disse com seu sorriso sínico.
- Desculpa, é que ainda é meio confuso para mim, ainda mais agora que estou vendo você na minha frente... – disse ainda mantendo distancia e se afastou mais um pouco.
- Não se preocupe, não vou te matar, morder, torturar, comer, ou coisa do gênero, até porque não sou canibal.
- Tá bom... me... me desculpa, ah... – soltou uma pequena exclamação de dor e sentou-se um pouco mais perto do guardião, mas ainda tomando suas cautelas que ele achava pertinente.
O sol já estava no céu por completo, devia ser umas sete da manhã. Era incrível como o calor matinal tinha o poder de reavivar e acender tudo, Leonardo até se sentia melhor sendo aquecido enquanto contava sua história para o guardião.
Começou contando o sonho e dos três garotos e guardiões que estavam com ele, depois passou para a cena que havia presenciado no dia anterior, ter visto uma trança de galhos levantar e mergulhar na floresta, fazendo um arco, tinha sido muito incrível. E por fim mostrou a sua mão direita com a marca de uma chave com uma lua em sua ponta.
Spinel ficava impressionado a cada palavra que Leonardo dizia, e a cada frase lhe ficava mais claro o motivo de ter sido despertado novamente.
- Uma nova busca pelas cartas começou... – disse para Leonardo, que não entendeu muito bem. – Mas como isso é possível? Como essas cartas, aprisionadas a 50 anos atrás foram libertadas.
Leonardo não entendia tudo o que Spinel estava dizendo apenas em partes.
- Ah! Você mencionou um livro...
- Sim, o livro mágico onde as cartas foram lacradas e aprisionadas. – replicou Spinel.
- Eu estava com ele, quando... – Leonardo olhou para cima e, pela primeira vez, pode analisar o despenhadeiro que o fez sofrer duas quedas. - ...quando eu cai lá de cima...
- Eu fui libertado no exato momento que você foi libertado, parecia que alguma aqui fora clamava por minha ajuda, alguém precisava de mim e eu estava certo. Se eu não tivesse sido libertado você teria...
- Entendo... Obrigado!
Spinel retribuiu com um aceno leve de sua cabeça, sem duvida alguma aquele leopardo era dotado de excepcional inteligência e educação. Leonardo começou a procurar o livro, que o encontrou em alguns ramos de vinha logo a frente dos dois.
- Aqui! É esse o livro...
Spinel o analisou com bastante cuidado, observando cuidadosamente os detalhes da capa e as quatro insígnias desenhadas. Por fim abriu a boca para falar.
- É esse livro mesmo... Esse é o livro das Cartas Sakura – disse um pouco nervoso. – Aí dentro deviam estar guardadas as 52 cartas criadas pelo mago Clow e transformadas pela Maga Sakura... Mas evidentemente você não poderá abrir esse livro, só quem é dotado de alguma magia pode abri-lo...
- Me desculpa Spinel, mas... Eu posso abri-lo
Com um leve toque o lacre dourado soltou pequenas faíscas e o livro se abriu nas mãos de Leonardo.
- E aqui, - Leonardo mostrou o livro aberto para o guardião – não há nenhuma carta das que você me disse.
Seria difícil definir a expressão de Spinel, o abalo tomou conta do guardião que o deixou super alvoroçado.
- Mas como, como você conseguiu abrir esse livro... quer dizer que... quer dizer... Quer dizer que você é o novo Card Captor...
- Como... Me desculpe, mas eu não te entendi...
- Uma vez libertadas, as cartas precisam ser seladas o quanto antes e apenas os dotados de magia podem fazer. Isso quer dizer que você recebeu a missão de recapturar todas as Cartas Sakura antes que seus poderes tornem o mundo em trevas.
Leonardo não sabia ao certo o que dizer, responder ou pensar. O mundo dava volta em suas cabeças, tudo era novidade para ele, e a dúvida o invadia. Acreditar em tudo isso ou não acreditar estava sendo difícil; primeiro por que um ser fantástico de seus sonhos havia tomado forma, mas era uma história tão surreal que até uma criancinha teria dificuldade em acreditar em tudo que Spinel havia dito.
Leonardo, ainda com o livro aberto nas mãos perguntou a última curiosidade que o afligia.
- Spinel..., como são essas Cartas Sakura...?
O arrepio, um frio na barriga, uma sensação mais forte do que nunca invadiu o subconsciente do garoto, sentiu que algo o espreitasse, o observava; sentiu que havia alguma coisa por perto que o atraia. Spinel também não foi salvo de tais sensações, sentiu quase a mesma coisa que Leonardo, porém ele sabia do que se tratava. De um lugar qualquer vinha aquela sensação, a sensação de uma presença de mais um ser entre eles. As folhas, nas arvores, e os galhos começaram a se agitar freneticamente.
- O que está acontecendo?! –pergunta Leonardo surpreso com todo o alvoroço que acontecia.
- Sua pergunta está sendo respondida – respondeu Spinel, risonho.
- Como assim...?
Spinel não devolveu a resposta. Também não havia necessidade, atrás do guardião surgia a mesma trança de galhos, se arrastando pelas pedras e enroscando pela parede do despenhadeiro como uma violenta trepadeira. Correu por todo paredão até parar sobre o lugar onde estava Spinel.
Leonardo deu velozes passos para trás, estava assustado, além do mais, a agressividade com que os galhos perfuravam o imenso paredão não eram nem um pouco delicadas.
- O que é isso Spinel...? – perguntou assustado e curioso ao mesmo tempo.
- Isso... – respondeu apontando uma de suas patas para os galhos que seguiam rastejando em torno deles. – É uma Carta Sakura.
A trepadeira que havia se formado parou de se mexer, suas folhas apenas seguia a direção do vento suave pela manhã. As folhas, flores, e galhos se posicionaram onde a luz do sol incidia completamente sobre elas, podendo assim realizar um fenômeno fundamental para sobrevivência das plantas. Bem no alto das folhagens uma imagem humana surgiu. Cobertas de folhas e com aparência bem delicada uma mulher se erguia, com seus olhos fechados, para poder sentir o calor do sol e absorver sua energia. Em poucos segundos suas folhas começaram a brilhar intensamente, assumindo uma coloração verde-dourado.
- Ela... Ela... é... a carta Sakura...?
- Ela mesmo Leonardo. A Carta Bosque. – Spinel olhou para o livro pensativo, lançou um olhar para o garoto, ainda atrás, e caminhou em sua direção. – Mostre-me o livro...
Sem objeção Leonardo estendeu o livro a sua frente. Spinel cerrou seus olhos, concentrando todas as suas energias, direcionando-as para o livro. Depois de um intervalo de tempo concentrando e sendo analisado pelo menino curioso a sua frente, Spinel pronunciou suas primeiras palavras como um forte brado, uma ordem para o objeto.
- Oh! Chave mágica que guardas os poderes luminosos da lua, retorne novamente ao mundo material e conceda seus poderes ao novo card captor que lhe necessita para cumprir sua função.
Uma minúscula chave saiu da terceira insígnia do livro, esta já era a terceira chave que surgia no mundo material, as quais eram desconhecidas para o guardião. Uma lua era o que mais se destacava em todo corpo brilhante, azul claro, como água-marinha. A chave parou um pouco acima do livro, seus dentes seguravam a fina haste que levava até a lua da outra ponta. Ao olhar mais atentamente, Leonardo percebeu que se tratavam de dois círculos – um maior e um menor – inserido um dentro do outro, porém o menos estava totalmente preso as bordas do circulo maior, como isso formava-se o desenho gracioso de uma lua minguante, azulada e brilhante.
- Pegue-a Leonardo... É sua. Essa é a sua chave mágica. Tente usá-la...
- Tudo bem... Mas não machuca não é...?
Leonardo pegou a chave ainda com medo que algo de ruim acontecesse, mas foi totalmente ao contrário. Ao pegá-la soltou o livro, que estava firme em sua mão, e imediatamente, diferente dos outros card capators, as frases surgiram formadas em boca, prontas para serem pronunciadas.
- “Chave que guarda o poder da Lua, mostre seus verdadeiros poderes sobre nós. E os ofereça-os ao valente Leonardo que aceitou essa missão. LIBERTE-SE!!!”
A minúscula chave absorveu toda a energia que saia da insígnia mágica aos pés do garoto, desaparecendo completamente, dando lugar ao báculo que se materializava sobre as mãos do garoto. A empunhadura tinha pequenas espirais que circulavam o báculo até a lua sua ponta. A lua, por sua vez, era dotada de uma beleza fora do comum, ainda que fosse de manhã era possível ver o brilho azul, que pairava suavemente no ar. Na forma de báculo a lua assumiu completamente a forma minguante, fazendo um pequeno arco em seu interior, o efeito criava duas pontas que quase se encontravam, a não ser por um pequeno espaço bem estreito.
Leonardo pegou o báculo pode sentir a magia que ele emanava que se completava com a sua. Pode sentir uma espécie de poder, uma sensação boa que percorria seu corpo. A dor foi aliviada e sentiu como se nada estivesse acontecido, tudo isso era o efeito da magia que vinha do báculo da lua.
Analisou o báculo minuciosamente, passando os olhos por todos os seus detalhes, era algo extremamente belo. Porém, o que ele deveria fazer com aquilo ele ainda não sabia, ainda não entendia qual era a relação do artefato mágico com a Carta Bosque.
- Agora é só você capturá-la... – disse Spinel confiante para o garoto.
- Capturar...? A carta? Mas... como assim capturar...?
- Claro, é só usar o báculo...
- Você só pode estar brincando, ou então deve ter batido com a cabeça... – disse Leonardo em um tom irônico. – tem certeza que estamos falando o mesmo idioma...?
- Não me chame de burro se moleque – disse Spinel ofendido. – Estou tentando te ajudar, se você não quiser eu posso muito bem deixar você sozinho...
- Não... desculpa. É que isso parece meio impossível, você tem que concordar comigo. – disse Leonardo tentando concertar que tinha dito.
- Não, não concordo...
- Então me diz o que fazer...
- Olha... – Suspirou Spinel. – A Carta Bosque é a mais dócil entre todas as cartas, então não precisa batalhar com ela e deixá-la enfraquecida, basta capturá-la. Aproveite agora que ela está parada absorvendo a luz do sol para obter sua energia.
- Tá legal..., mas como eu faço isso? – replicou o garoto fixando-se na carta que estava no auto deles, entrelaçada ao paredão do desfiladeiro.
- Concentre-se no báculo... Você é capaz Leonardo, basta se concentrar e você saberá o que fazer.
“Concentrar no báculo, concentrar no báculo...”
- Concentre-se Leonardo, você pode... Você possui a magia de um Card Captor...
“Concentrar no báculo, concentrar no báculo... Magia de um Card Captor...”
- Concentre-se Leonardo, se você não fosse capaz, a chave não o teria escolhido para portar o seu grande poder e você não seria escolhido para recapturar as cartas... – Spinel cerrou os olhos, observando o báculo, o garoto e a Carta – Você é capaz garoto... Você é capaz!
Leonardo levou o báculo ao alto e apontou para a carta, descendo levemente.
- Volte à forma humilde que merece... Carta Sakura!!!
Uma tempestade irrompeu das pontas da lua e fez com que um turbilhão agitasse tudo a volta do garoto e do guardião. A força da ventania foi o suficiente para desprender a imensa trepadeira o paredão e fazê-la entrar na carta vazia, que se materializara entre as duas pontas da lua. Vários galhos e folhas surgiram de todos os lugares. Para a surpresa de todos a Carta Bosque não era só aquela materialização que estavam a sua frente, mas havia se alastrado por todo o bosque de Andara.
No alto do desfiladeiro, os outros garotos que dormiam candidamente acordaram com as rajadas de ventos e puderam ver várias folhas e galhos que estavam espalhados pelo lago e pela orla da floresta serem arrastados para desfiladeiro abaixo.
Rapidamente todos se aprontaram para o penhasco, que eles ainda não sabiam que existiam e examinaram o que acontecia lá embaixo.
- O que é isso, o que está acontecendo...? – Marine perguntou assustada. Não só ela, mas todos ali tinham se assustado com a tremenda quebra de silêncio.
- É outra Carta Sakura... é a Carta Bosque... – Disse Lukas um pouco sonolento.
- Está sendo capturada nesse momento... – concluiu Lana.
- Então precisamos ir até lá. – disse procurando algo para poder descer até o local onde força atraia as folhas.
- Não! – Gritou Lukas. – Essa briga não é nossa... Seja quem for que estiver lá já conseguiu tirar a chave, libertá-la e está capturando a Carta, seja quem for já tem tudo sobre controle.
- Então, só podemos assistir. – olhou Marine com medo para os fechos de luz que vinham de lá de baixo.
- Exatamente... – replicou Lana.
A visão da parte de baixo era muito diferente, Leonardo podia sentir todo o poder que o báculo possuía ao tentar sugar todos os vestígios de magia deixado pela Carta Bosque.
A linda moça, que havia se materializado no alto, começou a movimentar delicadamente em direção ao báculo e a carta, vinha sem nenhuma objeção. As folhas e galhos ainda continuavam a vir de todos os lugares e aos pouco a carta era preenchida com a magia da entidade magia. Por fim, todas as folhas, flores, galhos e a linda mulher entraram por completo na carta vazia. A rajada de vento cessou e o garoto pode deixar o báculo repousar em suas mãos.
A carta balançou com a pequena brisa até cair suavemente em suas mãos. No alto se via um kanji no centro da estrela dourada, e na parte inferior “The Wood” estava escrito no fino pergaminho. A mulher que estava no centro da carta ainda estava com os olhos fechados. Uma tiara de folhas a embelezava mais, deixando Leonardo cada vez mais admirado.
- Wood... Então essa é a Carta Bosque.
- Essa mesmo Leonardo, meus parabéns, você se dará muito bem como Card Captor. Possui garra, força de vontade, perseverança e acredita em um futuro melhor... É a receita ideal para alguém que porta um báculo mágico.
- Muito obrigado... – disse sem tirar os olhos da carta. – Ela é muito linda Spinel...
- Muito mesmo... Mas para ser totalmente sua e para que obedeça a suas ordens você deve escrever seu nome nela. Pode ser com uma caneta qualquer. Também é importante que você assine seu nome para evitar que ela se liberte novamente.
- Se libertar! – disse assustado. – Nem pensar, tenho uma caneta aqui.
Tirou uma caneta de seu bolso e rapidamente assinou seu nome em uma caligrafia bem desenhada. Pronto, tudo havia acabado, pelo menos por agora. Poderia voltar para casa. O clima de perigo e aquele ambiente selvagem lhe dava ânsias para sair logo dalí.
- EI!!! Vocês aí em baixo!!!
- Hã? Quem está gritando? – Perguntou Spinel procurando pela voz.
- Não sei, parece que vem...
- AQUI EM CIMA... AQUI!!!
Spinel e Leonardo conseguiram ver os garotos no alto do desfilando acenando freneticamente.
- Quem serão eles...?
- Não faço a mínima idéia Spinel.
- Então vamos até lá... sejam quem for talvez precise de nossa ajuda.
- Mas e a Carta Bosque...! Acho que eles viram o que aconteceu aqui... Com certeza nos encherão de perguntas e não compreenderão o que aconteceu... – Refletiu um pouco e continuou. – Ah! Nem eu ainda entendi direito o que aconteceu aqui, é tudo muito fantasioso, fantasioso demais para minha cabeça.
- Não se preocupe Leonardo, com o tempo você se acostumará com a idéia de ser um Card Captor... E por hora acho que é melhor subir, tenho uma certa impressão que aqueles garotos sabem mais do que a gente imagina.
Leonardo não quis discutir, nem estava em condições para isso. Após ter lacrado a carta e o báculo ter voltado ao estado de chave a dor invadiu seu corpo novamente, agora mais intensamente. Não havia dúvida, o seu estado havia piorado, as feridas estavam se infeccionando e ele precisava de cuidados médicos com urgência. Pegou o livro caído e colocou entre os braços.
Com um sinal de Spinel, o garoto foi em direção ao guardião e subiu em seu macio lombo. O pelo era sedoso como nuvens e o vôo era leve, Leonardo sentiu como se tivesse sendo levado por um brisa para um reino distante.


E aí pessoal, tudo em cima? Bom, ano novo, vida nova tudo novo. Posso dizer que esse ano eu espero terminar essa história que já está caminhando para o fim, garanto que muitas surpresas estarão vindo e que vocês nem imaginem. Nossos herois (sem acento agora) estão com gás total e quem sabe uma segunda temporada talvez esteja a caminho.
Outra coisa que tenho que dizer é que os capítulos passarão a ser SEMANAIS. Isso mesmo! Todo Sábado um capítulo novo. Tenho alguns prontos e prometo que pelo menos 6 semanas estará garantido.
Esse capítulo13, A Lua do Amanhecer, Eu ofereço ao meus amigos que são sempre inseparaveis Victor, Pedro e Fred, o quarteto louco!

Paulo M. Goulart


Cards Infinity
O Lago de Cristal
Capítulo 13
A Lua do Amanhecer
Paulo M. Goulart ©2007 – 2009
Finalizada em 11 de Julho de 2008

Cards Infinity – O Lago de Cristal
TryMax ©2009
Paulo M. Goulart ©2007 – 2009
História Original: Clamp ©1996; Japão
Alguns nomes e imagens são de autoria do Estúdio Clamp e possuem direitos autorais reservados as autoras. Os demais nomes, tipologias e símbolos são de direitos autorais do autor desta história

Brasil, 2009